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Política homeopática

Sandro Heringer

Cidadão. Indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado. A definição dada pelos dicionários da língua portuguesa teoriza o exercício impraticável de uma nação que pouco se interessa por política, e somente a pratica a cada dois anos, quando lhe é dado o "direito" de manifestar o seu desejo nas urnas por meio do voto popular. 

Considerado a expressão maior emanada pela soberania de um povo, o voto é a grande festa de uma democracia conseguida por meio de muitas lutas e manifestações somadas após anos de ditadura, os intermináveis "dias de chumbo". O imenso valor atribuído a este ato cívico demanda consciência política para escolher bem os representantes escalados ao poder. 

Direcionar o cidadão a buscar informações sobre seus candidatos, fazendo-o interagir nos aspectos públicos da sociedade é dever do Estado, aliado com os vários setores da mídia que teriam de apresentar os fatos com transparência, igualdade e imparcialidade, dando ao eleitor incumbência de uma decisão final. Utopia? Não! Vontade política.

Mídia antidemocrata

O período negro da história do Brasil impediu que a liberdade de imprensa fizesse o seu papel. O despotismo colocava vendas e mordaças. Manipulava textos. Transformava leitores críticos em cozinheiros de mão cheia. A consciência política se esvaía em receitas de bolo. Mas havia aqueles que não questionaram tamanha arbitrariedade.

As organizações Globo ficaram conhecidas como porta-vozes do regime autoritário pela conveniência de um ambicioso crescimento empresarial. O programa Amaral Netto, o Repórter invadia as casas dos telespectadores com matérias maquiadas implantando pensamentos positivos do governo. "Sinto-me feliz todas as noites quando assisto ao noticiário. Porque, no noticiário da TV Globo, o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz", palavras do então presidente Emílio Médici. 

Mas um grito ecoava nas praças das grandes cidades. O povo queria fazer parte. Poder escolher o seu representante. Nascia as "Diretas Já", movimento democrático que entrou para a história do País. Poucos jornais se engajaram desde o início na cobertura do movimento, como foi o caso da Folha de S. Paulo. "Quando se diz que a mídia faz a cabeça do povo, nesse caso foi o contrário. Foi o povo quem fez a cabeça da mídia", explica Ricardo Kotscho, jornalista da Folha durante o período e assessor do presidente Lula.

A Rede Globo se omitiu. O comício pelas "Diretas" realizado em 25 de janeiro de 1984 foi noticiado pelo telejornal da emissora carioca como sendo uma manifestação comemorativa do aniversário de São Paulo. Somente a partir do comício da Candelária, no centro do Rio, a Globo "vestiu" a camisa do desejo da mudança. Os manifestantes não engoliram esbravejando aos quatro ventos: "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo."

Mídia parcial

Depois de 29 anos, em 29 de novembro de 1989, ocorreram as primeiras eleições diretas para presidente da República. Fernando Collor de Mello e Luís Inácio Lula da Silva disputaram o segundo turno das eleições deste ano. E a mídia teve um papel difusor no resultado final. Veículos importantes, como a revista Veja, faziam do candidato Lula da Silva uma verdadeira ameaça ao povo brasileiro. 

A reportagem de capa da Veja (29/11/89) trouxe nas 12 páginas um texto cheio de indagações temerosas e generalizadas: "Aquela fatia da população que é dona de seu próprio negócio tem a impressão de que vai ficar muito mais difícil trabalhar, investir e ganhar dinheiro caso a hipótese Lula se transforme em presidente." "As pessoas que conseguiram formar um pequeno patrimônio ao fim da vida de trabalho, mesmo que seja uma casa posta para alugar, perguntam-se o que lhes pode acontecer." Tendenciosidade explícita.

Nenhum outro fato envolvendo a mídia e a sua influência nas decisões eleitorais é tão polêmico quanto a malfadada edição do debate entre os candidatos de 1989 exibida no Jornal Nacional. No noticiário de 15/12/89, a edição mostrava o candidato do PRN com uma falsa vantagem sobre o petista no debate promovido pelas redes Bandeirantes, Globo, Manchete e SBT. 

"A sociedade não aceita a manipulação feita em 1989. Desde então, as pessoas perceberam o que a imprensa era capaz de fazer e aquele episódio, assim como todo o governo Collor, foi um enorme aprendizado para o brasileiro", defende Marcus Figueiredo, doutor em Ciência Política e diretor de pesquisa do Instituto Universitário de Pesquisas do RJ (Iuperj).

A discussão sobre a autoria da famigerada edição ganhou as páginas do recém-lançado Jornal Nacional: a Notícia Faz História. Com depoimentos dos funcionários envolvidos no episódio, o livro tenta se explicar apontando culpados. Segundo Octávio Tostes, editor de texto na época, os responsáveis foram o diretor Alberico Souza Cruz e o editor Ronald de Carvalho. Este disse: "É para fazer uma edição com o pior de Lula e o melhor do Collor."

Em entrevista dada à revista Carta Capital (23/10/2002), o então candidato a Presidência, Lula, declarou que "o leitor, o espectador, o ouvinte, está mais seletivo, está mais vacinado, e ele percebe quando um determinado jornal tem tendência mais explícita, fazendo matéria sobre um e não sobre o outro. O povo admite, entende, que um jornal, um canal de televisão, uma revista, editorialmente diga: apóio fulano de tal. Mas na cobertura tem de haver honestidade, porque a cobertura não é o teu pensamento, são os fatos".

A socióloga Elaine Cristina Carraro, mestre e doutoranda em Sociologia pela Unicamp, lembra que "a preponderância de determinados interesses presentes na mídia cria um clima favorável à formação da opinião pública positiva. Lembremos o caso Collor, amplamente defendido pela imprensa num primeiro momento e, num segundo momento, esta mesma imprensa ajudou a criar no público um consenso que foi decisivo para promover mudanças significativas em nosso País".

"Formadores de opinião"

Atualmente, a frivolidade televisiva toma o lugar dos grandes pensadores que exerciam influência na formação política do cidadão. O uso descabido do poder da imagem sobre a opinião do telespectador atropela o princípio do bom senso. 

Em 17 de março deste ano, o apresentador Clodovil Hernandez atacou a prefeita Marta Suplicy durante uma entrevista com Agnaldo Timóteo. O cantor tinha sido proibido por fiscais da Prefeitura de São Paulo de comercializar CDs nas ruas do centro da cidade.
 
"Botar um cantor na rua, passar por um vexame, enquanto ela está sentada numa sala refrigerada, a inútil, a desocupada (...) Esta senhora tem know-how para ser prefeita de São Paulo? Que know-how ela tem? Ela canta, ela pinta, ela borda? O que ela faz? (...) Uma idiota que pensa que é poderosa", fuzila o apresentador alterado, que está sendo processado por injúria e difamação pela candidata do PT. 

As pesquisas

Outro fator que exerce grande influência perante o público em tempos de campanha são as polêmicas pesquisas de opinião. Há quem acredite nelas de olhos fechados, há quem discorde com a vista ampliada. Mas uma coisa é certa, os políticos só concordam se eles estiverem no topo da preferência do eleitorado. 

No sábado (12/9), Paulo Maluf, candidato à Prefeitura de São Paulo, questionou o resultado de uma pesquisa realizada pelo Datafolha, onde ele é apontado como o terceiro na escolha dos eleitores. "Não tenho nenhuma dúvida que o Datafolha errou", afirma o candidato do PP. "Se todas as pesquisas fossem válidas, não haveria a necessidade de se realizar eleições", completa Maluf.

"A pesquisa oferece um conhecimento volátil, que pode ser modificado a qualquer instante. Só fatos concretos mudam os rumos de uma eleição", alerta o sociólogo Francisco José de Toledo. 

Visando mais transparência, um projeto de Lei apresentado pelo deputado Roberto Magalhães, do PTB, torna mais rigorosa a pena pela divulgação de opinião pública fraudulenta. Atualmente, a punição é de seis meses a um ano de detenção. O novo projeto será ampliado para dois a cinco anos, além do pagamento da multa que varia entre 100 e 500 mil reais. 

Brasileiro sabe votar?

A edição de 15/9 da Veja mostra em uma reportagem que esta idéia de que o brasileiro não sabe votar está mudando. Apoiada em pesquisa encomendada ao instituto Vox Populi, realizada em São Paulo, tudo indica que "o brasileiro que ia às urnas embalado pela emoção ou motivado por pura ideologia está dando lugar a um tipo mais racional, atento ao desempenho dos políticos e com boa memória para fugir dos que não corresponderam às suas expectativas". A pesquisa conclui que 46% dos eleitores valorizam qualidades agregadas à honestidade e sinceridade.

"Cabe a nós cidadãos, buscar todo o tipo de informação para que o voto seja consciente, não nos deixando levar ingenuamente por alguns setores da mídia", acredita a estudante Luciana Santos.

Aristóteles dizia que "o homem é um ser político". Para uma sociedade onde a política é oferecida em doses homeopáticas por alguns setores da mídia, e que conta com uma parcela da população dos "só sei que nada sei", a formação de um cidadão consciente deve partir de uma triagem individualista e comparativa. Só assim informações diluídas em interesses escusos serão genuinamente questionadas.

                     

criação: lisandro staut