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Jornalismo em verso e prosa

Rômulo Gomes

Em um sono dantesco ele já a contemplava. A vítima, ingênua sobre suas aspirações, o acolhia em afáveis demonstrações de carinho e fidelidade. Entretanto, afigurações sobre como fazê-lo ressurgiam em sua mente por meio de elucubrações daquilo que almejava cometer. Até então, sem nenhum intento. Arrogância atroz eximia-lhe de seus anseios, explicava seu ex-companheiro. Com os traços grotescos de uma insurreição repentina, o vermelho esbravejante desnudava sua face ensangüentada ao morder o pobre dálmata, em uma tarde de céu plúmbeo incomum. A sentença fora executada. Ao ser atacado tão friamente, o canino resvalava seus últimos sons. 

Na forma usual de noticiar o que aconteceu acima, a manchete poderia ser a seguinte: "Homem morde cachorro". Usando esse clichê de notícia ensinado nas escolas de Jornalismo, uma notícia estaria dada. Mas no exemplo inicial, pode-se exemplificar simploriamente o que é chamado de jornalismo literário. Um tipo especial e profundo de transmitir fatos. 

Este tipo de jornalismo é a vedete de prateleiras e livrarias nos Estados Unidos e Europa. Tais obras são consagradas como primores jornalísticos por se tratarem de apurações tão veementes quanto o próprio fato em si. O exemplo irônico citado acima é só uma fantasia, mas o jornalismo literário tem uma marca primordial. Ele registra fatos reais. Contudo, sua manifestação se dá pela arte da palavra: a literatura. 

Deslumbrante mesmo, neste estilo jornalístico, é a impressão que o leitor tem das cenas factuais da notícia. Um simples fato - o homem morde cachorro - pôde se transformar numa trama envolvente, e ao mesmo tempo elucidadora de circunstâncias até então escusas da sociedade, como demonstrado. Arrogância à parte, é a velha artimanha de contar histórias, mas desta vez histórias com "H" mesmo.

Costume transcendental

Prática bem antiga, mas imprópria na imprensa. Pelo menos até alguns séculos. Este hábito remonta ao século XIX, em que os editores faziam uso do rodapé dos jornais para a publicação dos folhetins. Mas naquela época, tais escritos eram somente fictícios.

A revista Canal da Imprensa, na edição de 18 de setembro de 2003, trazia no artigo de capa uma breve descrição de como eram esses folhetins. Nele, Fernando Torres, autor do artigo, explicava que essa foi uma medida que assegurava a importância do veículo, e mostrava pouca importância com a informação propriamente dita. Torres menciona: "Foi quando o então editor do jornal francês La Presse, Émile de Girardin, decidiu utilizar o rodapé do jornal - conhecido como folhetim - para publicar obras da escola romântica, então emergente".

As primeiras obras a circularem foram Lazarillo de Tormes (anônimo), A Menina Velha, de Honoré de Balzac, e O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas. A primeira obra a ser publicada na íntegra foi Le Rhin, de Victor Hugo, também no La Presse. O sucesso foi tamanho que depois do deste surgiram jornais com iniciativas semelhantes na França como o Le Siècle, Le Constitutionnel, Le Moniteur Universel, Journal des Débats e Les Mystères

Vale a pena ressaltar que esses textos projetaram inúmeros autores como: Hoffmann, Nodier, Théophile Gautier, Edgar Allan Poe e Maupassant. Além do que, tal obra literária é um pouco mais antiga de quando começou a ser publicada em jornais. Algumas delas eram publicadas na Inglaterra já por volta de 1800. A novela Saint-Clair das Ilhas, de Elizabeth Helme, impresso em 1803 em Londres foi um sucesso no Brasil. Inclusive, serviu de várias referências para Machado de Assis e José de Alencar, dois famosos romancistas que iniciaram suas publicações em jornais.

Citações desta novela aparecem em livros e folhetins de Machado de Assis: Helena (1876), Anedota Pecunária (publicado em folhetim de janeiro de 1885 a fevereiro de 1886), Casa Velha (publicado em folhetim de junho de 1885 a fevereiro de 1886), e Quincas Borba, famosa obra publicada entre 1889 e 1891. A temática de Saint-Clair das Ilhas foi também utilizada por Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, (1956) e José de Alencar em Como e Porque Sou Romancista (1893). Esta ocorrência de Saint-Clair das Ilhas como inspirações para outras obras é de fundamental importância para compreender as influências para estes autores produzirem textos em folhetins.

As Mil e uma Faces de um Herói Canalha, obra de Marlyse Meyer conta como esse gênero foi importante para a formação de escritores como os citados acima. Ele analisa a obra como "um livro, às vezes o único, lido por muitos personagens de Machado de Assis, em mais de um romance, quer da primeira quer da segunda fase de sua carreira literária, e em vários de seus contos". Vale ressaltar que a primeira fase de Machado de Assis é aquela em que ele apareceu nos jornais. Mas o Brasil tem uma história expressiva em jornalismo literário um pouco mais adiante.

Origens anglicanas

De qualquer forma, por mais abrangente que possa ser este histórico, era apenas embrionário. O jornalismo literário começaria a ser gestado no começo do século XX com poucas obras esparsas. Seu nascimento é creditado por volta de 1946, quando a edição da revista The New Yorker, de 31 de agosto de 1946, dedicou toda a edição para publicar o que se tornaria uma das principais referências em jornalismo literário: Hiroshima, de John Hersey.

Entretanto, a opinião sobre os créditos nominais do início deste tipo de obra é meio divergente. Uns afirmam ser John Hersey, outros Truman Capote, que publicou A Sangue Frio por volta de 1950. De qualquer forma, a exatidão na escolha de um autor precursor de um novo estilo é sempre questionável. Afinal um estilo não surge de uma decisão firme e autocentrada. É um processo gradual e longo.

Mas estas obras tinham uma peculiaridade muito significante. Foi isso que as alçou no mundo literário, jornalístico e a todos os outros contextos possíveis. Era uma nova forma de ver a notícia. 

Enquanto o lead e a teoria da pirâmide invertida reinavam nos jornais, por meio de um puritanismo estético, objetivo e insosso, o jornalismo literário era a quebra destes valores. Muitos americanos não tinham o que ler, e quando o faziam, isso era monótono e sem conteúdo. Devido a isso, as grandes reportagens do new journalism, ou jornalismo de não ficção - referências ao jornalismo literário - foram importantes para esclarecer, em muito, os fatos para o leitor.

Ele não deixava de ser objetivo, imparcial e asséptico das maquiagens de um texto literário, mas ainda tinha o caráter da veracidade baseada em fatos acontecidos. Os americanos, principalmente, já tinham se acostumado com a objetividade do lead. Isso não fazia mais a diferença e eles queriam mais do jornalismo. Foi quando surgiram as primeiras reportagens de caráter literário em impressos como The New Yorker, Esquire, The New Republic e Rolling Stone.

Sucesso bombástico 


Só para se ter uma idéia de como era escrever uma obra de jornalismo literário, John Hersey, autor de Hiroshima, ficou de 25 de maio a 12 de junho no Japão e demorou cerca de seis semanas para escrever o material. Ele teve que se inserir completamente naquele contexto para contar aos americanos aquilo que eles não sabiam sobre a Segunda Guerra Mundial e a bomba de Hiroshima.

Naquela ocasião, Hersey não se preocupava com detalhes técnicos da bomba, mas sim com suas conseqüências humanistas. Segundo Matinas Suzuki, que escreveu o posfácio da edição de 2002 do livro, a intenção era mostrar a "abstração ameaçadora de uma bomba atômica da experiência cotidiana dos leitores". Complementando Suzuki afirma: "O horror tinha nome, idade e sexo. Ao optar por um texto simples, sem enfatizar emoções, ele deixou fluir o relato oral de quem realmente viveu a história".

A reportagem contava o sofrimento de seis sobreviventes de uma explosão que matou 100 mil pessoas, feriu outras 100 mil e nas palavras de Suzuki: "Feriu a alma da humanidade". Essa era a proposta de Hiroshima. O relato foi publicado um ano após a data em que a bomba explodiu no Japão. A forma como Hersey narrou os fatos e principalmente, como ele interpretava o sofrimento psicológico e físico de seus personagens reais foi preponderante para que os americanos vissem a guerra de forma mais crítica e humanista.

Após a repercussão deste material na revista The New Yorker foi instantânea. O preço de capa era de 15 centavos de dólar. Mas a revista chegou a ser vendida por 20 dólares e vários outros veículos pagavam para poder imprimir a reportagem. Todos os direitos eram doados à Cruz Vermelha. A emissora de rádio ABC contratou várias pessoas para ler a reportagem no ar. A BBC de Londres, o mesmo. Não é difícil entender por que, apesar das divergências esse é considerado o marco inicial do jornalismo literário.

Juntamente com a obra vieram outras que marcaram o período áureo deste gênero. Depois de Hiroshima surgiram obras como A Sangue Frio - já mencionado - de Truman Capote, Os 10 Dias Que Abalaram O Mundo, de John Reed, Aos Olhos da Multidão, de Gay Talese, A Luta, de Norman Mailer e Os Eleitos, de Tom Wolfe.

Estes exemplos marcaram tanto que mereceram uma reedição segundo os dirigentes da Companhia das Letras. Entre outras obras a serem republicadas estavam Hiroshima, em 2002, A Sangue Frio, O Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell - também publicado no New Yorker, entre outros.

O coordenador da coleção, Matinas Suzuki, em entrevista publicada no site Observatório da Imprensa, cita que este é um sonho antigo do editor da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, e dele. Eles perceberam que este tipo de Jornalismo crescia. Matinas Suzuki explica que o gênero estava "amadurecendo ao longo dos anos". Ele acredita que a importância desta coleção só será reconhecida no futuro. Para ele, a "intenção é contribuir para a revalorização do texto na imprensa brasileira. "Na minha visão pessoal, as duas últimas décadas foram décadas de desvalorização da qualidade da escrita na imprensa brasileira", afirma. De acordo com ele, a revalorização destes conceitos pode ser conseguida por meio de um jornalismo de qualidade como o literário.

Literatura verde-amarela

Mas nem só de importação vive o jornalismo literário. Apesar de creditar aos americanos o início deste tipo de jornalismo, os leitores tupiniquins esquecem-se de que o Brasil teve sua revelação carioca, Euclides da Cunha, com a publicação de A Nossa Vendéia, para o jornal O Estado de S. Paulo. Este foi o artigo publicado a partir de março de 1897. Euclides foi também um jornalista que "entrou na história", e para a história. Isso aconteceu quando ele, intrepidamente, ingressou no povoado de Canudos liderado pelo chefe religioso e revolucionário Antônio Conselheiro.

A obra de Euclides é bem distinta. Conta como era a vida daqueles "rebeldes e trogloditas agressivos". Pelo menos, essa era a visão que todo o Brasil tinha antes da publicação de Os Sertões, em 1897 como artigos no O Estado de S. Paulo, e em 1902 como livro. Depois disso, toda a sociedade brasileira passou a questionar os efeitos e transparência das ações do estado sobre a sociedade por meio da obra de Euclides. Fato que acontece até hoje.

Seguindo-se os anos as publicações - crônicas, obras romancistas e realistas - foram sendo impressas. Os mais conhecidos são Machado de Assis e José de Alencar. Primeiramente, com José de Alencar contratado como folhetinista do Correio Mercantil, em 1854. Eles publicavam obras seqüenciais que prendiam o leitor ao jornal.

Mas o jornalismo literário só vai aportar no Brasil mesmo, ironicamente no começo de 1960, quando o jornalismo com o lead chega ao Brasil com o secretário de redação do Diário Carioca, Joel Silveira. Irônico porque jornalismo objetivo, sucinto, não combina muito com o literário. Aliás, lead, em jornais e revistas deste gênero eram impensáveis. Mas ele chegou ao Brasil e resolveu ficar.

De forma contundente, pelo menos por um tempo. Os renomes nacionais ficam a cargo da revista Realidade e Diretrizes. A primeira fundada em 1966, e extinta dez anos depois,foi a obra-prima do gênero literário no Brasil. Fruto da editora Abril, ela mostrava o Brasil por um viés otimista. A capa da primeira edição veio com Pelé na capa, orgulho da nação.

A linguagem rebuscada, uma extensa apuração dos fatos e aliada a temas interessantes. A revista tinha o caráter de mostrar a "realidade" como era, por meio de fatos não muito convencionais. Apesar de atuais, na época. 

Vale ressaltar que a revista Realidade foi motivo de intensos trabalhos teóricos, como outras tantas contribuições que dera ao jornalismo. Um deles, publicado em 1988 por Terezinha Fernandes apresentado a ECA/USP, como tese de doutorado. O trabalho demonstrava a preocupação e os esforços realizados por Jorge Andrade, um dos repórteres da revista. O doutor José Salvador Faro, ex-presidente do Intercom, e professor da Universidade Metodista de São Paulo, ao estudar a tese de Terezinha concluiu que "nesse percurso, a autora se depara com o projeto original da publicação: 'a revista dos homens e das mulheres inteligentes que querem saber mais a respeito de tudo'". 

Ainda a respeito da revista Realidade, Faro confirma que essa iniciativa "permitia ao repórter operar com um nível de criatividade diferente dos modelos padronizados do jornalismo". Ele complementa afirmando como foi a sua morte em 1968: "Reside na incompatibilidade entre essa abertura e a institucionalização das restrições à liberdade de imprensa o início do processo de decadência da revista".

Estagnação pecualiar

Outras iniciativas no Brasil sobre jornalismo literário foram mais marcantes como o livro-reportagem. Este é uma das principais referências em jornalismo neste estilo. Mas, infelizmente, é um tipo de obra que só é feita por estudantes de Jornalismo como parte dos trabalhos de conclusão de curso. O Brasil ainda tem muito que crescer neste sentido. Entretanto, obras como estas já trouxeram importantes contribuições para trazer a verdade à tona em situações complicadas como o livro Caso Escola Base, de Alex Ribeiro, em que foram desvendados os horrores de apuração que destruíram uma família.

Atualmente, o jornalismo literário, como livro-reportagem é uma ótima ferramenta para que o jornalista possa publicar aquilo que é escondido pela mídia. É como se fosse uma luz no fim da prensa para aqueles que imaginam que estão sendo cerceados do direito de falar a verdade que estão enxergando. E ainda poder iluminar a mente de muitos leitores com suas mentes oxidadas pelo conteúdo informacional institucionalizado pelo lead. Isto é, aquelas pessoas que somente lêem o primeiro parágrafo daquilo que sai no jornal da esquina de sua casa e imaginam que já estão por dentro do que acontece no mundo.

Pior que esta situação, é saber que boa parte daquilo que poderia ser publicado tem de ser transformado num texto dito enxuto e objetivo - leia-se a era lead. Isso quando, na verdade, ele não fornece os subsídios necessários para que o leitor possa tirar conclusões relevantes de fatos ocorridos em seu meio. Talvez, essa devesse ser a maior preocupação da imprensa literária ou não.

Não custa lembrar que a tendência de um jornalismo mais interpretativo, investigativo e quem sabe literário pode ser a solução para uma crise na imprensa que se prolonga por bastante tempo. Já que os meios rápidos de notícia como a TV e a Internet crescem estrondosamente, os jornais e revistas impressos devessem trabalhar mais com a consciência e reflexão dos fatos. 

O jornalista deve ser um ator, e ao mesmo tempo, escritor. Também juiz e não se esquecer de que acima de tudo é um ser humano. Como ator, deve saber interpretar situações e papéis em diferentes contextos e situações. Como escritor, zela em ser didático e envolvente, um artista da palavra. Como juiz, se esforçar pela jurisprudência latente em toda cobertura que fizer. E como humano, o dever de se guiar por valores morais e éticos que não o deixem deturpar as verdades universais da vida. Pessoas se relacionam com pessoas. Escrever para essas pessoas, contar verdades para elas deve ser uma função que não deve ser esquecida nem menosprezada. O jornalismo literário é uma premissa destas iniciativas.