editorial | especial | debate | imprensa em foco| links
mídia eletrônica 
| cultura | perfil | nostalgia
  olho vivo | canal do leitor | e-mail | expediente

anteriores
| próximas edições |
inicial

Grandes nanicos

Márcio Tonetti

Com razão, pensar na imprensa atual é sugerir nomes que em proporção desmedida se emanciparam e tomaram posse do mercado da informação, bem como da opinião. Grandes empresas jornalísticas, não obstante, se tornaram grandes negócios, que por sua vez, justificam os lucros estrondosos como mérito pelos serviços de utilidade pública prestados. Mas a imprensa já usou de outros meios além do caráter comercial. 

Em momentos cruciais da história do País, apesar de limitada e efêmera, a pequena imprensa foi a responsável pelo alarido no "arraial" que despertou o senso libertário, gerador da independência. Longe de ser totalmente acobertada, a imprensa alternativa tenta hoje, embora com outra personalidade, evidenciar com mais transparência a realidade social e política obstruída pela visão dos grandes veículos.

Desde a colonização portuguesa, a pequena imprensa assumiu um ideal peculiar: denunciar a situação política que corroia o Brasil. Por traz até mesmo dos títulos das matérias, sugestivos por sinal, se escondia na verdade O Grito dos Oprimidos (exemplo de pasquim nascido em 1833 que alardeava as condições revolucionárias provincianas). 

Língua afiada

Com a linguagem, que muitas vezes "caminhava para a vala comum da injúria, da difamação e do insulto repetido", segundo defende José Werneck Sodré em A História da Imprensa no Brasil, os pasquins influenciaram a época. Tanto é que o regime se demorava com respostas à altura e comumente com o rigor das prisões, exílios e, não raras vezes, com baionetas. Sodré define o uso da linguagem do pasquim como vítima da própria precariedade da educação estabelecida pelo domínio colonial. Para ele, o método utilizado era uma questão de compreensão e conveniência: 

"Num meio em que a educação, em seu estágio mais rudimentar, o ensino, estava pouquíssimo difundida, em que a massa de analfabetos era esmagadora, em que os que sabiam ler não tinham atingido o nível necessário ao entendimento das questões públicas, e em que os que haviam freqüentado escolas superiores se deliciavam em estéril formalismo e no abuso da eloqüência vazia, a única linguagem que todos compreendiam era mesmo a da injúria". (SODRÉ, pg. 157, 1999). 


De acordo com Sodré, esse gênero não se define tanto como produto de uma etapa da imprensa brasileira quanto de uma necessidade que o próprio meio político instigava. Esse caráter assumido na época não permanece isolado, mas é tomado também em outros momentos, deveras catastrófico no Brasil, em que as condições governamentais foram a causa do despertar do inconformismo e da contestação social. 

O período regencial é marcado pela publicação estrondosa de pequenos jornais. O que torna plausível a atuação desses veículos é que, apesar das condições precárias de impressão - até porque a imprensa estava num estágio inicial - esses periódicos já eram produzidos com uma certa técnica: formato in-4.º, quatro páginas em regra. Esse fato já permite fazer uma projeção do que, em aspectos gerais, identificaria a segunda etapa da imprensa brasileira, a de cunho industrial e estritamente técnico, exaltada pelas grandes oficinas tipográficas. 

Um outro aspecto também notório é a efemeridade dos pasquins. Não tinham uma periodicidade definida e quase todos, salvo raras exceções, não passavam do primeiro número. Às vezes, ressurgiam anos mais tarde. Quase sempre falavam de um único assunto e eram escritos por uma só pessoa. Além disso, a propriedade desses jornais era costumeiramente individual. 

Mas o que mais chama a atenção na imprensa nanica é o uso da criatividade da linguagem e das ilustrações para driblar a censura régia, o que poucas vezes acontecia, pois a sátira e a linguagem teatral deixavam emergir a crítica apimentada que expunha ao ridículo os personagens políticos da época. Assim, eram comuns títulos como O Andradista, O D. Pedro II, O Doutor dos Malucos

Aspecto curioso e não menos admirável, é a militância que caracteriza a pequena imprensa desse período. Um dos nomes mais detestados pelos portugueses por apresentar essa "virtude" foi o baiano Cipriano José Barata de Almeida. A razão incidia no fato de que, pelo seu patriotismo exagerado, gozava da habilidade de fazer contrapropaganda do governo e de se infiltrar nas revoluções que então despontavam. Editor de A Sentinela da Liberdade, Cipriano Barata, como era conhecido, foi vítima de prisões tão logo exteriorizou seus ataques. 

A "lista de Schindler" do período de regência era bem extensa. Luís Augusto May, redator de Malagueta, jornal que pelo próprio nome definia a sua linha, foi agredido na sua residência. Já para outros, as publicações custaram a própria vida, como foi o caso de Clemente José de Oliveira, redator de O Brasil Aflito, assassinado a golpes de espada. 

Cabe ressalvar ainda uma bem esplanada argumentação de Sodré. A censura, analisa ele, não provinha da forma como eram tratados os assuntos, mas da disposição desses "jornalistas" em publicar o que era proibido. "Havia tabus, interdições, coisas vedadas; a linguagem em si, tinha circulação franca, por mais injuriosa que fosse", explica (SODRÉ, pg. 171).

A essência da pequena imprensa, a de mobilizar e servir a opinião pública, em prol das mudanças, não vem atrelada, nesse ínterim, à interesses comerciais, que por sua vez é o que contrapõe a imprensa artesanal à imprensa industrial. O editor de um pasquim não tinha o intuito de se beneficiar financeiramente - tanto é que algumas publicações eram gratuitas. O jornal era o instrumento que fazia ouvir a voz do povo. É bem verdade que o caráter singular que envolveu a pequena imprensa brasileira viria a aparecer, mais adiante, num outro contexto, coincidentemente de discrepâncias políticas. E com tal ímpeto, sua influência se mostrou evidente na derrocada dos regimes totalitários.

Pasquins da ditadura 

"Manter-se vigilante em relação ao governo é condição para não se perder a dimensão política do Jornalismo, uma das bandeiras da chamada imprensa alternativa" (Observatório da Imprensa, 02/11/04). A pequena imprensa da ditadura levou ao pé da letra essa questão. Alguns jornais incorporaram novamente a crítica e a linguagem virulenta e acabaram nos porões da ditadura. 

Mas cabe também questionar como se posicionou a grande imprensa. A posição favorável dessa ao regime militar, foi praxe em sua grande maioria. Conforme relata a tese doutoral "Cães de Guarda: Jornalistas e Censores do AI-5 à Constituição de 1988", da historiadora Beatriz Kushnir, muitos jornalistas apoiaram policiais ligados aos censores no Brasil. Ela comprova que muitas empresas de comunicação, para colaborar com o sistema autoritário vigente, aceitavam do governo a autocensura. Não espanta, portanto, o surgimento de um jornalismo de coalizão que contestasse a cassação dos direitos civis, as prisões, assassinatos e as ameaças à liberdade de expressão, colocada em risco pelo AI-5.

De acordo com o Observatório da Imprensa (02/11/2004), foi a revista Opinião, editada por Raimundo Pereira, um dos mais influentes periódicos alternativos, nascido em 1972, durante o regime militar. Mas um tablóide que influenciou em proporções colossais a cultura e a política brasileira intitulou-se O Pasquim

Há quem diga que pelo considerável período de existência - chegou aos 200 números- e pela equipe de jornalistas que o compunham, talvez os melhores profissionais da época, não se pode considerá-lo como pequena imprensa. Ocupavam a redação nomes como Sérgio Cabral, Tarso de Castro, Millôr Fernandes, Jaguar, Ziraldo Alves Pinto, Sérgio Augusto, Fortuna, Claudius Ceccon, Miguel Paiva, Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel, Martha Alencar, Ivan Lessa e o cartunista Henfil. 

Junto com a "dupla explosiva", cerca de 300 outros jornais somaram forças não só para contestar o modelo econômico mas para esclarecer o que de fato acontecia no País, muito embora isso fosse proibido a ferro e fogo pelos militares. Tal exemplo se verificou com a morte do jornalista Vladimir Herzog. 

Uma vez calada a grande imprensa, a expressão da sociedade brasileira vai encontrar mercê nas páginas irreverentes da imprensa nanica. Tarefa nada fácil, já que inúmeros proprietários assumiam sozinhos desde a diagramação até a distribuição nas bancas e nas periferias das grandes cidades, além de bancar as despesas com impressão. 

Imprensa sem papel 


Na década de 1960, em especial de 1970, os "nanicos" experimentaram os dissabores da escassez de papel - isso explica a efemeridade de alguns desses jornais. O governo diminuiu as divisas para a importação do papel e os preços dispararam com o aumento do dólar. De janeiro de 1958 à abril de 1964 o preço do papel importado aumentou 8.880%. 

A alternativa de se comprar papel nacional foi também desfigurada. O monopólio das Indústrias Klabin fez com que os preços do papel nacional acompanhassem o importado. De acordo com Sodré, extintos também os subsídios para impressão, o resultado foi a redução da circulação dos jornais e o arraso da pequena imprensa. "Este é o preço que pagamos pela liberdade de opinar", acentua. Ademais, a crise do petróleo de 1973 agravou a situação com o reajuste dos preços da tinta para impressão. 

Respaldo merecido


Pequena no nome, mas gigantesca no espírito de combatência e esclarecimento político, a imprensa alternativa provou, apesar das intempéries, a sua função social. Hoje, ela luta com unhas e dentes em favor da quebra do monopólio dos grandes veículos. E essa é uma tendência que a ameaça. É muito mais fácil receber o conteúdo de um jornal pronto do que criar outro, mesmo que se disponha de verba para isso. 

Em 1980, em O Monopólio da Mídia, Ben Bagdikián previu "meia dúzias de grandes corporações" dominando os veículos de comunicação e controlando a maior parte da atividade dos jornais, revistas, rádio, TV e cinema. De modo geral, esta "profecia" vai aquém do território americano. A luta por domínio nos meios de comunicação apresenta justificativa idônea: busca por influência e dinheiro. Não custa lembrar que o próprio governo oferece condições para isso. Em Notícias do Planalto, Mário Sérgio Conti comenta o embate existente entre as grandes empresas de comunicação para conquistar os anúncios governamentais que geram cachês milionários e custeiam praticamente toda a produção.

Por essa e outras razões, é justo tirar o chapéu para aqueles jornais de bairro cuja técnica e qualidade não devem nada a ninguém. Como mero exemplo, pode ser citada a imprensa interiorana da região de Campinas que, embora recente, conquistou a credibilidade do leitor. Essas imprensas surgem como uma alternativa para democratizar a opinião. E, de fato, já conquistaram respaldo. 

Nova alternativa

Longe de ser pisada pela grande mídia e desaparecer, a imprensa "nanica" se intrinca no mercado incorporando novas possibilidades. Não cabe defini-la nessa nova fase como combatente e militante. A nova etapa se caracteriza pelo jornalismo empresarial, com os chamados house organs. Convém ressaltar que esse não é um fenômeno novo, mas ascendente. Não é novo porque teve início em 1950, com a vinda de multinacionais automobilísticas americanas para o Brasil. 

Periódicos marcados de início pelo improviso, os house organs surgem em momentos conflitantes entre patrões e empregados. Quase sempre contavam com a boa vontade de funcionários que se disponibilizavam para fazer o trabalho. No entanto, a necessidade de diálogo com os clientes, exigiu que as publicações fossem veiculadas externamente. Aos poucos, essa nova função auxiliar exigiu a especialização também dos profissionais para atender melhor os fins mercadológicos e promover maior interação com o público alvo da empresa. 

O final do século XX viu a projeção dos boletins empresariais como veículos estritamente especializados, visando, além da circulação interna, atender segmentos mais elitizados. Por isso, não é novidade dizer que muitos house organs atingem tiragens maiores que muitos jornais. Para o professor de Comunicação e assessor de imprensa do Unasp, campus Engenheiro Coelho, Amarildo Augusto, esse "é um caminho sem volta", uma vez que as empresas, instituições e grupos têm necessidade de comunicação. "A tendência é que os house organs continuem e que, inclusive, ampliem o mercado", acredita. 

Por conveniência, é bem provável que esse órgão de assessoria de imprensa tome números consideráveis daqui para frente estreitando as relações com a sociedade cada vez mais consumista - não de informação, mas de produtos. Junto, os jornais de bairros e de pequenas cidades vão também aflorar. Infelizmente, segundo salienta o jornalista Alex Sander Alcântara no Observatório (02/11/2004), "as novas gerações aprendem que coragem e rebeldia são incompatíveis com o atual estágio da imprensa brasileira, na qual prolifera a praga do jornalismo de serviços, de entretenimento, cosmético, sem rupturas". A contestação política intelectualizada poderá se esvair. Mas, no mínimo a imprensa nanica terá brio para dizer com clareza, e sem sotaques, o que se passa pelo País.