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O diagnóstico da mídia

Wendel Lima

Desde que o mundo é mundo, o homem procura se adaptar às condições de vida a fim de sobreviver. Fosse nos latifúndios dos senhores feudais, na insalubridade das fábricas da Revolução Industrial ou mesmo nos modernos escritórios climatizados por ar condicionado, o trabalhador sempre teve que se adequar. 

Cada época trouxe os seus desafios. Na Idade Média, o vassalo precisava de força braçal. No advento da industrialização, era necessário preparo físico e mental para suportar uma rotina repetitiva, desumana e alienadora. Mesmo a brilhante e promissora "Era da Informação" traz consigo um preço muito alto para a humanidade.

Recentes estudos mostram que as mudanças estruturais ocorridas nas últimas décadas no mercado de trabalho alteraram completamente o estilo de vida dos profissionais e, conseqüentemente, comprometem a saúde dos mesmos. Dentre as atividades mais prejudicadas, disputam o pódio médicos, enfermeiros e jornalistas. Irônico. Aqueles que mais informam sobre saúde, seja pelas ancoragens no consultório ou pelas receitas da mídia, são os que menos praticam.

O quadro se agravou com a globalização. Nos anos 80, iniciou-se a hegemonia da informática no mercado de trabalho culminando na popularização da internet na década de 90. A reestruturação tecnológica mudou a rotina de todos, principalmente a dos jornalistas, por lidarem diretamente com a informação. Se o volume e a velocidade de informação aceleram, a vida profissional acompanha o ritmo. Porém, para o jornalista, os benefícios foram inversamente proporcionais às exigências. Trabalha-se mais, ganha-se menos.

Polivalência

Talvez duas características definam bem o atual perfil exigido do jornalista: polivalência e multifuncionalidade. Tal conclusão é fruto do estudo de pós-doutorado do psicólogo José Roberto Heloani, pela ECA/USP. Segundo a pesquisa, com o enxugamento das redações, o jornalista acumula funções e extrapola nas horas extras. Uma redação da CBN, que há seis anos contava com 50 profissionais, hoje trabalha com no cerca de 20. Os jornalistas têm mil e uma utilidades escrevem, revisam, editam, pré-diagramam e até dirigem os veículos da reportagem.

No entanto, esta rotina caótica não garante uma boa remuneração nem estabilidade no emprego. Segundo o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, as horas extras compõem 43% do salário dos profissionais de rádio, 40% do pessoal de assessoria e 37,5% dos que trabalham em jornais e revistas. A situação seria amenizada se as empresas realmente pagassem todas as horas, haja vista muitos dos jornalistas nem controlarem a sua carga extraordinária. Chegou a um ponto nas redações, em que o jornalista se sente um "boa vida" se trabalhar apenas a jornada prevista na Consolidação das Leis Trabalhistas.

Como a corda sempre arrebenta na ponta mais fraca, o foca ainda leva a pior em toda essa história. Além de servir "cafezinho" e acumular funções, precisa andar a segunda milha. O novato se estressa mais, pois precisa conquistar o seu espaço. Segundo Fabiana Siqueira, formada pelo Unasp e repórter do grupo gaúcho Diário da Manhã, "o foca precisa criar fontes, dar mais satisfação, procurar mais pela notícia". Tal competitividade não prejudica somente a saúde dos estagiários ou dos novatos, mas dos veteranos que têm seu emprego ameaçado e geralmente o seu salário achatado.

Tratamento

Fazer um diagnóstico da saúde do jornalista e não apontar algumas alternativas é ser redundante. O jornalista, mais do que ninguém, sabe que o estilo de vida da profissão é doentio. Sabe que os efeitos colaterais não tardam, quer sejam de ordem física, psicológica ou social. Todavia, a rotina alucinante o impede de refletir sobre a sua situação. Apesar de exercer um trabalho intelectual, nem sempre é reflexivo. E quando é, limita-se ao seu mundo profissional. Pensa para o trabalho, pensa no trabalho.

Exigir qualidade de vida total do jornalista é quase utopia. Com poucas exceções, como assessorias de imprensa ou veículos com periodicidade menor, o jornalista pode apenas se contentar com os cuidados básicos com a saúde. Caso contrário, enfrentará contratempos na sua carreira. Mas, que a verdade seja dita, pouco faz o jornalista em prol do seu bem-estar.

O segredo da vida saudável para os jornalistas, bem como para qualquer um, está no seu estilo de vida. O problema é que muitos profissionais assimilaram a idéia carrasca do mercado de trabalho, que diz ser impossível conciliar sucesso profissional e qualidade de vida. Devido às pressões e demissões, ele tem a sua auto-estima muitas vezes abalada, considerando-se descartável. A solução desse impasse se encontra primeiro na mente do jornalista. Ele precisa se conscientizar de que é um agente de mudança. Tanto na esfera pessoal como na coletiva. 

Para Fabiana, que trabalha em média dez horas por dia, "o sucesso exige certo sacrifício, mas com certeza a saúde é mais importante, até porque, sem ela, não se pode trabalhar", afirma. Ela diz que cuida da alimentação, não tem vícios e procura manter a calma nos momentos estressantes. Acredita ser possível conciliar trabalho e saúde e, além dos cuidados básicos, ressalta a importância de se "ter um ponto neutro, um escape, algo, alguém, um lugar ou um hábito onde se possa descarregar as tensões do dia".

Heron Santana, que trabalhou na CBN Recife e há dois anos é assessor de imprensa, também concorda com o casamento entre sucesso e qualidade de vida. "Faço corridas leves três vezes por semana", diz. Santana relata também que a sua alimentação seria melhor se tivesse horários fixos para as refeições. Para compensar a carga horária desgastante, mais de dez horas diárias, tem na leitura e na gastronomia sua descontração.

Os maus hábitos adquiridos ao longo da vida, ou mesmo por influência do ambiente de trabalho, têm como seu ponto de partida a vontade do indivíduo. Certamente que, se a empresa e o círculo social cooperassem, seria de grande valia. No entanto, o que se vê na maioria das empresas de comunicação é a ausência ou negligência às políticas de saúde previstas em lei. Ao contrário dos demais segmentos do mercado, os empresários da mídia não assimilaram a idéia de que o primeiro cliente de uma empresa é o seu funcionário. De que a saúde do empregado é sinônimo de produtividade.

Inimigos

Neste contexto de desvalorização do proletariado, por parte do patronato, é que entra a figura do sindicato. No caso do jornalismo, infelizmente é fraco. Segundo Amarildo Augusto, professor de Jornalismo do Unasp, "poucos jornalistas são filiados ao sindicato. A classe é desunida", revela. Parece que uma "aura" ainda envolve a profissão imperando assim o individualismo.

Muitos fatores externos conspiram contra a força sindical dos jornalistas. Políticas trabalhistas neoliberais, legislação obsoleta e a terceirização são as principais. Porém, o que está no cerne da questão é a consciência política da classe. Apesar de ser um profissional intelectual e bem-informado, não faz valer os seus direitos, pois não tem base política. Parte da responsabilidade está na sua formação acadêmica.

Certamente, falar é mais fácil do que fazer. No entanto, um jornalista realmente vocacionado é um ser pensante. Alguém que vê além. Alguém que reflete sobre a realidade, acima de tudo sobre a sua realidade. É alguém que não se conforma, que busca mudar a sociedade, começando por ele. É necessário implantar a consciência no jornalismo de que saúde e trabalho não são antagônicos, mas complementares. Negligenciar um é desmerecer o outro.

                     

criação: lisandro staut