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Nada se cria, o preconceito transforma

Diogo Cavalcanti

Mídia soa esclarecimento, modernidade, democracia, futuro. Nem tanto. Existe muito de discriminação, intolerância refinada e codificada numa camuflagem contemporânea, porém, não menos sentida pelos quem as sofrem. Preconceito não é coisa do passado, apenas mudou o discurso.

Francis Bacon já se preocupava com isso no século XVI defendendo maneiras de o suprimir por meio da ciência. Entretanto, o assunto só mereceu maior atenção quando inventaram um termo para defini-lo duzentos anos depois. Invenção muito tardia, denunciando que a maior sustentação de um preconceito é a completa inconsciência do ato pelos que o praticam.

A mídia da antiguidade já discriminava a cor da pele e deuses, algo associado à luta pela sobrevivência. Moisés, protagonista do Êxodo na Bíblia, sofreu pressões por se casar com uma mulher com um "degradê" mais moreno. O misticismo e a ignorância davam forma às pré-concepções. 

Com a Era Cristã o fenômeno ganhou corpo quando romanos tentavam exterminar os cristãos ventilando no império que eles eram judeus, homossexuais e inimigos da ordem. Cristãos, por sua vez, não queriam se parecer judeus. Escreviam livros os amaldiçoando. O termo técnico para definir "judeu" era hipócrita nesses livros. No final tudo sobra para os judeus.

Outros exemplos não faltam. O que se repete em todos os casos é uma seqüência de brutalidades e chacinas de inocentes fomentadas por concepções distorcidas. 

O primeiro passo para acabar com uma nação é desumaniza-la. Não são "normais", não tem família, nem sentimentos. Comem e fazem coisas estranhas. Aliás, em guerra de propaganda, os Estados Unidos são os mestres. Os japoneses, alemães, franceses e, por último, os muçulmanos, se encontram no rol das vítimas. 

Estereótipos

A forma mais corriqueira de preconceito é a criação de estereótipos. Um estereótipo classifica o "normal". Soa mais como matemática ideológica onde se somam características para se obter perfis. Logo, a equação "cintura 70 + cabelos brilhosos + aqueles seios" é igual a "mulher atraente". Já "físico marombado + rock'n roll + ter nível superior + possuir um bom carro" resulta em ser "o bonzão".

Usar óculos é cafona. Descobrir pneuzinhos ou estrias é o fim. Não é à toa que adolescentes televisivos freqüentemente lidam com frustrações, anorexia, problemas com esteróides e outros complexos por não se encontrarem "à altura dos padrões". 

Até animais sofrem verdadeiras calúnias. Coitado do tubarão; das 375 espécies, somente 30 são perigosas para o homem. Ai do lobo, do morcego, da cobra e do sapo, e até do burro, que figura entre as espécies mais inteligentes. É um verdadeiro zoológico de rótulos inventados pelo cinema. Oriundos da criatividade e do apelo televisivo. Algo até compreensível, pois até o "bicho-homem" não escapou. 

Minorias

Quando se diz num telejornal "a Igreja fez uma passeata", interprete-se "Igreja Católica". A chamadas da Superinteressante ilustram o fato com frases do tipo: "Não podemos mais ignorá-los" ou "eles estão por toda parte", numa cobertura de igrejas evangélicas. Evangélicos que hoje não são tão "minoria". Declarações soam como se houvesse uma versão oficial e as outras figurassem entre as marginalizadas. 

Homossexuais reclamam das pegadinhas de mau gosto do apresentador João Kleber da Rede TV! e até fazem manifestações à porta da emissora. As pessoas não se contentam em ter suas opiniões. Precisam ridicularizar aqueles que pensam ou são diferentes deles. 

Associações feministas também reclamam, e com razão. Os apelos publicitários usam pernas e seios até para anúncio de creme dental. Diga-se "pernas e seios", pois, segundo elas, "esquartejam" a mulher usando partes de seu corpo como isca. 

Esconde-se na apresentação publicitária da mulher noções de produto vendável. Embutida também está a idéia de uma vocação restrita à fragilidade e à dependência, reservando ao homem, a força, o empreendedorismo e o sucesso.

O negro 

O Brasil e sua mídia não assumem seus preconceitos e dificilmente os abandonam. Como fenômeno, o escravismo deixou de existir há pouco tempo. É tão recente que ainda integra a mentalidade do povo, e não está ausente nas entrelinhas dos meios de comunicação.

Algo tão presente, que o apresentador negro Heraldo Pereira causou repercussão em todo o País quando começou apresentar o Jornal Nacional -, depois de décadas de jornalismo televisivo no Brasil. Para um dos diretores de imagem, algo não saía bem na apresentação de Heraldo, e ele não entendia o que era. Analisando as imagens, descobriu. Era o ponto, aparelho de comunicação colocado no ouvido do apresentador que estava na cor estilo pele branca, causando um "ruído" na imagem. 

O fato é emblemático. Representa toda dificuldade de um negro para obter as mesmas oportunidades que outra pessoa - "diferente" - pode conseguir na mídia. O cineasta Joel Zito Araújo, em seu livro A Negação do Brasil: o Negro na Telenovela Brasileira, acredita que o "enfoque racial" da mídia brasileira é resultado do desejo de branqueamento e norte-americanização das elites. "Existem mais negros na tevê dinamarquesa do que na brasileira", fuzila. 

É perigoso discriminar. A "lei Caó", do deputado negro Carlos Alberto Caó (Lei 7.716), prevê punições. Desde que entrou em vigor, desapareceram dos jornais expressões como "o bandido negro", alcançando até os manuais de redação.

Os preconceitos encerram toda contradição humana. Como fenômeno social, permeia toda a atividade da mídia. É irracional e doloroso por alvejar pessoas sem ao menos lhes dar oportunidades para se mostrarem. Foi forte no passado. É visível no presente. E continuará existindo no futuro.


                     

criação: lisandro staut