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O
drama cult
Fernando Torres
O drama está presente em quase todas as produções artísticas e
culturais. Ora, se materializa na descrição poética e literária das
loucuras da natureza humana, ora no acorde mal resolvido do jazz ou na
perturbação causada pelos trinados de uma soprano de ópera. Por vezes,
vem disseminado na subjetividade de uma pintura surrealista, no exagero de
uma escultura ou arquitetura barroca; noutras, no enredo de uma peça de
teatro ou de um filme.
Como se vê, o drama é a linha que conduz as produções artísticas, em
maior ou menor grau. Não seria diferente com o jornalismo cultural,
responsável por verificar a qualidade de cada uma dessas dramatizações
e apresentar o diagnóstico ao leitor.
Hoje, o drama mais comum é a perda de identidade. O jornalismo cultural
brasileiro já não exerce o mesmo vigor de seus anos de ouro, como na década
de 60. Para atrair mais leitores, os segundos cadernos dos jornais diários
enxergaram uma saída no mínimo duvidosa: inseriram matérias sobre moda,
gastronomia e, sim, gente. Exemplo típico dessa tendência é o caderno Ilustrada,
da Folha de S. Paulo.
O espaço dedicado a esses temas não é tão expressivo que desfigure a
editoria totalmente, mas é suficiente para tirar-lhe parte significativa
da influência. Dessa forma, a crítica diária já não consegue definir
o sucesso ou fracasso de uma obra ou exposição, o que resulta no
rebaixamento de normas de apreciação. Tornou-se mero meio de divulgação.
Em contrapartida, vê-se uma erudição um tanto exagerada nos suplementos
literários semanais, como o Mais!, também da Folha, e em
algumas revistas especializadas, como a Cult, da Editora 17. Apesar
de sua qualidade incontestável, esses periódicos compõem-se,
excessivamente, de resenhas e artigos acadêmicos e de uma linguagem
tipicamente doutoral. Abre-se mais espaço para a filosofia que para a
cultura nossa de cada dia.
Com exceção de emissoras segmentadas, as rádios não costumam fazer
nenhum debate musical. Restringem-se a tocar as canções da moda, os hits
do momento. Nem mesmo as noticiosas se engajam no assunto.
Na TV aberta, a situação do jornalismo cultural não é de drama, mas de
terror. Semanais de reportagem investigativa abrem espaço para saúde,
natureza e fenômenos sociais, mas raramente se debruçam sobre uma
personalidade cultural. Afora eventuais reportagens nos telejornais diários,
o telespectador tem que se virar com o ti-ti-ti dos próximos capítulos
das novelas, convenientemente valorizado pelo Vídeo Show, e o
namora-termina-namora-de-novo de Déborah Secco e afins, patrocinado por
nove em cada dez programas da Rede TV!. Cultura, para a televisão, é sinônimo
de perseguição a celebridades.
Decepção maior ocorre quando um programa considerado de alto nível
prende-se ao lado transitório da vida de um produtor cultural. Em recente
sabatina ao Canal Livre, da Band, a escritora gaúcha Lya Luft,
atual fenômeno de vendas, foi acuada sobre todos os vãos possíveis,
menos o literário. Uma excelente oportunidade de remissão desperdiçada.
Um passado glorioso
Apesar de tudo, não é correto dizer que o jornalismo cultural hoje é
pior do que no passado - é diferente. Os críticos e ensaístas atuais não
deixam nada a dever para seus precursores, apesar de, como já dito, terem
menos influência. Tome-se como exemplo Isabela Boscov, Marcelo Marthe e
Ricardo Valladares, da Veja, Almir de Freitas e Michel Laub, da
revista Bravo!, Carlos Heitor Cony, da Ilustrada, e Daniel
Piza, do Caderno 2, de O Estado de S. Paulo, só para citar
alguns. Vale citar também alguns que pulam de uma colaboração para
outra, como Moacyr Scliar e Xico Sá.
Mas o passado tem seus momentos gloriosos, que explicam a composição do
drama. Por ser uma das categorias mais antigas do jornalismo, a análise
cultural não tem um início, propriamente dito, talvez porque a produção
jornalística seja cultural por si só. A editoria é produto do
Renascimento, do Humanismo e do Iluminismo; logo, foi concebida
paulatinamente. Obviamente, há alguns marcos. Daniel Piza, em seu livro Jornalismo
Cultural, lista alguns.
No início do século XVIII, mais precisamente em 1.º de março de 1711,
Richard Steele e Joseph Addison, renomados ensaístas ingleses, fundaram a
revista The Spectator (O Observador), uma das primeiras no
segmento. Diário, o periódico compunha-se, basicamente, de ensaios e críticas
de óperas, livros, espetáculos teatrais, concertos e comportamento.
O público do jornalismo cultural de então era predominantemente
masculino, o tipo de cavalheiro refinado recém-migrado do campo para a
cidade e ávido pelas novidades e mudanças sociais. Ainda na Inglaterra,
Piza considera Samuel Johnson, conhecido por doutor Johnson, como o
primeiro crítico cultural, colaborador do jornal The Rambler.
A partir dos anos 20, houve uma grande explosão de novas revistas em todo
o mundo, ansiosas por abocanhar o mercado do jornalismo cultural. Em 1925,
surge nos Estados Unidos, a revista New Yorker, publicada até
hoje. De suas páginas saíram os críticos mais mordazes que se tem notícia.
Tome-se como exemplo Dorothy Parker (anos 30-50), de literatura, e Pauline
Kael (anos 70-80), de cinema. Confira pérolas de ambas:
"Este
não é um livro para ser deixado de lado. É para ser jogado longe, com
força." Dorothy Parker, em versão completa de sua opinião a
respeito de um romance de um escritor famoso, para a revista Esquire.
"O clima, a marcação e o transe do ritmo são tão puramente
divertidos, e Travolta uma presença tão original que o espectador passa
por cima da crueza do roteiro." Pauline Kael, sobre Os Embalos de
Sábado à Noite, de John Travolta.
Em
solo brasileiro, um grande marco da explosão cultural foi a revista Klaxon,
periódico do movimento modernista de 1922. Seus idealizadores, Oswald de
Andrade, Mário de Andrade e Guilherme de Almeida, pretendiam inovar em
todos os aspectos: a própria revista é uma produção artística, desde
o projeto gráfico até a estilística dos textos. Além de ensaios, crônicas
e poemas, a revista também publicava algumas pinturas condizentes com o
movimento, como as de Anita Malfatti. Entretanto, a publicação não
durou muito: apenas oito edições.
Segundo Piza, não se deve desprezar o poder da revista O Cruzeiro,
dos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Ela foi imprescindível
para a construção do jornalismo cultural brasileiro, durante os anos 30
e 40, abrigando escritores do calibre de Rachel de Queiroz e José Lins do
Rego.
Nova arte, nova representação
Não foi só o jornalismo cultural que passou por metamorfoses. Com o
processo de industrialização e o avanço da tecnologia, a cultura em si
sofreu grandes transformações. Esculturas e quadros deixaram de ser
produzidos com a mesma freqüência e relevância; substituíram-nos as
fotografias, os discos e os filmes, todos feitos em série.
É claro que os intelectuais perceberiam essas significativas mudanças
nas artes e especularam um possível propósito. A crítica começa em
1937 com Herbert Marcuse, filósofo marxista da Escola de Frankfurt,
Alemanha, que se mostra desfavorável com a fusão entre o mundo das idéias
e sentimentos elevados - cultura - e o mercado trabalhista. Conforme ele,
a cultura nunca poderia se transformar em mercadoria.
Na mesma linha de pensamento, Theodore Adorno e Max Horkheimer, também da
Escola de Frankfurt, cunharam a expressão "indústria
cultural", a fim de definir a produção cultural em massa, que
atendia ao mercado. Para os filósofos, ela é fruto do capitalismo com o
fim de mistificar as massas e submetê-las ao sistema.
Walter Benjamim, integrante menos radical deste grupo, é autor do clássico
ensaio "A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica".
Segundo ele, ao se massificar, a obra de arte, especialmente o cinema,
perde sua aura, seu valor e sua autenticidade, além de servir ao sistema
capitalista.
"Desde
que o critério de autenticidade não mais se aplica à produção artística,
toda a função da arte é subvertida. Em lugar de repousar sobre o
ritual, ela se funda agora sobre uma outra forma de práxis: a política."
"Enquanto o capitalismo continuar conduzindo o jogo, o único serviço
que se deve esperar do cinema (...) é o fato de permitir uma crítica
revolucionária das antigas concepções de arte."
"A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica", de
Walter Benjamim.
As
modificações da arte em si explicam, em parte, a nova representação do
jornalismo cultural. Uma cultura de massa merece uma análise de massa -
conclusão óbvia.
No Brasil, os jornais Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Diário
Carioca e Última Hora, nos anos 50, e Estadão e Folha,
nos anos 60, alavancaram o êxodo da cultura dos fortes acadêmicos para a
massa. Paulo Francis (1930-1997), o mais famoso crítico cultural
brasileiro é fruto desse período efervescente. Começou no Diário
Carioca, estabilizou-se no Correio da Manhã e, por fim,
consagrou-se na Folha e no Estadão, com a coluna "Diário
da Corte". (leia
biografia)
Ao trazer a cultura para a massa, os visionários de então não
pretenderam rebaixar os padrões de cultura. Décio Almeida Prado, quando
na inauguração do extinto Suplemento Literário do Estadão, no
início dos anos 60, resumiu assim a ideologia do veículo:
"Não
exigiremos que ninguém desça até se pôr à altura do chamado leitor
comum, eufemismo que esconde geralmente a pessoa sem interesse real pela
arte e pelo pensamento. (...) Uma publicação que se intitula literária
nunca poderia transigir com a preguiça mental, com a incapacidade de
pensar, devendo partir do princípio de que não há vida intelectual sem
um mínimo de esforço e disciplina." (Citado por Daniel Piza)
Na
prática, porém, não foi bem isso que aconteceu. Desde que Graciliano
Ramos extirpou a expressão "outrossim" dos jornais, o
jornalismo cultural vive a dicotomia entre erudição e superficialidade
descrita no início. O drama é mais problemático do que parece. Nos
jornais diários ou nas revistas semanais, a expressão cultural de
destaque é a popular, ou pop. Nos veículos segmentados,
costuma-se valorizar a cultura elitista, aquela desconhecida da maioria da
população, portanto, antidemocrática.
Harmonização
O conceito não se encaixa no contexto pós-moderno. Por mais estranho que
pareça, o cinema de Lars von Trier tem o mesmo mérito cultural do cinema
de Steven Spielberg. Vale o mesmo princípio para o jazz e a música pop-rock
americana, a bossa nova e o pagode, a pintura e a fotografia. Todas elas são
manifestações culturais de um grupo que valoriza ações comportamentais
condizentes à sua arte. O jornalista não deve considerar estas como
parte de uma subcultura, analisando-as sob uma ótica preconceituosa e
etnocentrista, mas sim sobre as expectativas de seu segmento.
Isso não significa que as publicações não possam se adequar a um
estilo específico. Não se exige aqui que o Mais! e a Cult
publiquem a mesma generalidade da Ilustrada ou do Caderno 2
- definitivamente, não é sua função social, extremamente válida,
especialmente no Brasil. Espera-se, no entanto, que os periódicos e seus
leitores não sejam esnobes, alegando um conteúdo exclusivo para ouvidos
e olhos sofisticados.
Da mesma forma, não se pretende que os segundos cadernos diários
abandonem a análise popular e dediquem amplo espaço à filosofia e a
resenhas de clássicos. Mas seguir o caminho do populismo, diverso do
popular, também não é recomendável. Nesse sentido, o Caderno 2
merece mais aplausos que a Ilustrada.
O equilíbrio entre o cult e o pop toma corpo com a revista
mensal Bravo!. Há problemas, claro, como a insistência em não
resenhar livros-reportagem, por exemplo. Mas a qualidade é notória desde
a produção gráfica até a escolha das pautas. Na seção de cinema,
entram desde os concorrentes ao Oscar - portanto, populares - até os
filmes de difícil acesso na bilheteria. Clássicos há muito longe das
prateleiras mais comercializadas, como O Grande Gatsby, de Scott
Fitzgerald, são contrastados com Ensaio Sobre a Lucidez, de José
Saramago, livro de ficção mais vendido atualmente.
Na Bravo!, o pop-rock do Skank e afins tem reservado o mesmo
número de páginas que a pianista polonesa Felicja Blumental. As produções
de TV, acentuadas no Brasil, também estão presentes, não com o clichê
falatório de comadres, mas na forma de oportunas reflexões. Fotografias
mesclam-se às telas de pincel e paleta; montagens teatrais históricas
fundem-se às contemporâneas. Bom senso, bom gosto, bravo.
A falência do jornal Gazeta Mercantil representou uma perda
significativa para o jornalismo como um todo. Mas o caderno Fim de
Semana teve importância especial para a propagação da cultura nos
anos 90. Reportagens inteligentes, diagramação requintada e
multiplicidade de temas marcaram seus dez anos de veiculação. Fica na
saudade.
E até mesmo a televisão tem um recanto cultural. A TV Cultura como um
todo se dispõe a essa função, com destaque para os programas Metrópolis,
único telejornal diário da televisão dedicado às artes, e o Roda
Viva, programa de entrevistas, que destaca, entre outros assuntos, a
cultura.
As boa qualidade de algumas espécimes do jornalismo cultural não
simbolizam a resolução dramática. Quando as luzes se apagam, as palmas
cessam, termina-se o livro ou o CD se encerra, resta o silêncio.
Reserva-se o momento para reflexão, compreensão. É quando começa o ápice
do drama.
*
Os dados desse artigo se basearam nos livros Jornalismo Cultural,
de Daniel Piza, A Teoria Crítica: Ontem e Hoje, de Barbara Freitag,
Teoria da Cultura de Massa, organizado por Luiz Costa Lima, e Minoridade
Crítica, de Luiz Antônio Giron. Também foram consultadas edições
dos cadernos Ilustrada e Mais!, da Folha, Caderno
2, do Estadão, e das revistas Bravo!, Cult e Veja.
criação: lisandro staut
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