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Quantidade sem qualidade

Jairo Souza

Um dos maiores fenômenos sociais presenciados pela humanidade no século XX foi o avanço feminino aos quatro cantos do mercado dominado pelos homens. Primitivamente nas cozinhas, elas conquistaram uma importância social sem precedentes na história. Migraram ao mercado de trabalho chegando a representar, em 1999, 41,4% da população economicamente ativa do País, segundo pesquisa divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 

Uma clara prova disto é o que ocorre no mercado de automóveis, outrora exclusivamente masculino. Conforme pesquisa realizada pela Volkswagen, em 1980, 18% das vendas eram destinadas ao público feminino; hoje o índice é de 37%. Sem falar que 72% do total de compras do setor são diretamente influenciadas por elas. Esta "síndrome" praticamente alastrou-se por todos os cenários capitalistas atraindo a atenção dos anunciantes e da mídia.

O mercado editorial direcionado a este público representa 35% de revistas, contra 19% das publicações voltadas ao público consumidor masculino. Criativa, Nova, Marie Claire, Viva!, TPM, Vogue e Elle, além das populares Contigo e Capricho, espalham-se nos salões de beleza, clínicas e residências de todas as regiões do País.

Segmentando-se em todas as classes sociais, essas revistas disseminam um conteúdo que, com raríssimas exceções, restringe-se a sexo, moda, mídia, cozinha e estética. De fato, não é preciso ser perito para diagnosticar que se trata de um conteúdo popularesco e de subsídio cultural, muitas vezes questionável ou inexistente.

Contudo, independente desta leitura crítica, o segmento de revistas populares explode e o exemplo mais recente desta realidade é a revista Viva Mais!, da Editora Abril. Esta alcançou a maior circulação entre todas as revistas femininas do País, com média de 442 mil exemplares semanais.

Com um conteúdo que não foge a normalidade do gênero, a Viva Mais! apresenta as rentáveis e velhas fofocas, fotonovelas, dicas sobre relacionamento e sexo, além de orientações sobre orçamento doméstico. Tudo isso ao ínfimo preço de um real. 

Evidentemente, esta não é a média de preço das revistas femininas. Aliás, o custo é o que menos importa para o "público pensante". O perfil editorial de tais veículos é o que deve ser avaliado.

O que é comumente abordado deveria ser maleável à medida das novas conquistas femininas. Não é mais novidade que os três poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário - estão sendo, literalmente, invadidos por elas. Entretanto, como explicar o fato de a política ser um tema completamente ausente das pautas femininas? Será que as mulheres não entendem do assunto?

Outros temas intimamente ligados à figura feminina como família, educação e ética social, não são explorados como deveriam. Tal política editorial sugere - de modo contraditório - que o universo feminino não compreende ou, pelo menos, não pode contribuir com os assuntos sérios que envolvem a sociedade e o futuro do País.

                                       


criação: lisandro staut