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Imprensa devassa

Fernando Torres

Comparar o simpático magazine feminino Vida Doméstica, distribuído em meados do século passado, às depravadas revistas femininas da atualidade chega a ser
falta de respeito. Enquanto o primeiro se dedicava exclusivamente a modelitos de noiva, os últimos só pautam sexo.

Exagero?
Não.
Como o bom jornalismo não se resume a conclusões embasadas no senso comum e no "disse-que-disse", os excertos abaixo, extraídos das mais recentes revistas femininas, comprovam o que se diz.

Nova

"Nos empolgamos tanto num drive-in que pulamos para fora do caro. Começamos a fazer amor de todos os jeitos pelo boxe. Ao tentarmos transar de pé, pensei que fosse me desequilibrar e segurei numa das zonas laterais, que despencou na hora. Foi um mico daqueles! Demos de cara com o casal do boxe ao lado, totalmente nu. Nós, também pelados, não sabíamos onde enfiar a cara. Só consegui balbuciar um pedido de desculpas".

Nova, fevereiro de 2002 - "O dia em que fui
apanhada no ato"


Marie Claire


"Sou apaixonada pelo pênis do meu marido porque ele é o meu melhor amigo. Se a gente tem uma briga séria, como o Tiago não discute a mágoa e às vezes fica uma semana sem falar nada, 'o meu melhor amigo' resolve por ele. (...) Se fosse comparar com algum símbolo fálico, diria que parece o obelisco do parque do Ibirapuera. Só que o obelisco é mais grosso na base do que na ponta, e o do Tiago é um reto uniforme."

Marie Claire, janeiro de 2003 - "Por que
amo o pênis dele"



"Aprendi a me masturbar na adolescência, manipulando o clitóris com os dedos. Era ótimo. Mas eu queria experimentar aquela coisa maravilhosa que lia nos romances e via nos filmes, quando o homem penetrava a mulher e ela logo chegava ao clímax. Uns três meses depois, meu namorado fez sexo oral em mim. Ele era um expert, como pude reconhecer mais tarde, e gozei muito rápido. Foi muito bom."

Marie Claire, fevereiro de 2003 - "
Meu
primeiro orgasmo"



Claudia


Lingeries são imbatíveis quando as mulheres imaginam seduzir o parceiro. Nos encontros, elas conhecem desde os modelos mais comportados até as fantasias. "Vestir algo diferente dá a chance de viver um personagem diferente", explica Carla Tognazzi, dona da Diandra, butique erótica de São Paulo que vai até a casa das clientes. Este conjunto de corpete e tanga é de veludo vermelho com bordado de vidrilhos e plumas. "

Claudia, março de 2003 - "Delivery erótico"




Quer mais? Uma olhadela um pouco mais detalhada deixaria as "gentis leitoras" - como os antigos magazines chamavam as recatadas moçoilas - vermelhas de rubor. Para se ter uma idéia, de janeiro de 2001 a outubro de 2002, quinze capas trouxeram a palavra "sexo" na capa. Um número muito significativo para ser ignorado. 

O pior é que esse tipo de lixo é visto diariamente por milhares de homens e mulheres. Mais deprimente ainda, é que a maior parte desses excertos é escrito pelas "gentis leitoras", que não sentem o menor pudor ao posar para as fotos ilustrativas. Viraram manchete.

Muitos criticam, se dizem envergonhados com tal conteúdo, mas continuam a ler; só para criticar. Que a imprensa feminina é devassa, não tenha dúvidas. Cabe à sociedade não se igualar a ela.


                                        



criação: lisandro staut