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Fantasias
sociais
Neanis Lutzer
Se existe uma coisa que o ser humano gosta, é de estar a par de tudo o que acontece no mundo e especialmente na vida das pessoas. E para satisfazer esses desejos naturais, nada melhor do que um bom sofá e uma boa literatura especializada no assunto.
A simplicidade com que esses desejos são satisfeitos se vê nas bancas, na televisão e nas rádios. Antigamente, as novelas eram veiculadas pelas rádios. Também faziam parte das páginas de revistas femininas, como a
Capricho e a Ilusão.
Pioneira no mercado, a Capricho foi a primeira revista de fotonovelas do Brasil, criada em 18 de junho de 1952, pelo fundador da Editora Abril, Victor Civita. Com seu formato pequeno e quinzenal, o periódico publicava cinenovelas italianas (mudadas posteriormente para fotonovelas), com histórias de amor desenhadas em quadrinhos, que era sua marca inicial.
Ao contrário da maioria das fotonovelas, geralmente eróticas, a Capricho evitava cenas de sexo e violência. Afinal, as moçoilas a que o periódico se destinava poderiam se ofender com tamanha perversão. Seu slogan era "A revista da moça moderna".
Mais tarde, em novembro de 1952, Victor Civita, numa decisão pessoal, transforma a revista em mensal e acrescenta editorias como comportamento, moda e beleza, sem tirar seu foco das fotonovelas. Agora, cada edição traz uma história inteira e não mais em capítulos. A revista também passou a ser publicada em tamanho grande.
No ano seguinte, a Capricho alcança a maior tiragem de uma revista da América Latina, com 500 mil exemplares por edição. Em agosto, ia às bancas a fotonovela
Corações Enamorados, um dos números mais vendidos.
Com um bom público-alvo - jovens de 15 a 29 anos - a revista sofre mais uma grande mudança editorial. Adapta as editorias para esse novo público, com outro formato, logotipo e trazendo ainda, como principal atrativo, as fotonovelas.
Entretanto, em agosto de 1982, o grande diferencial da revista no mercado foi tirado; as fotonovelas saem de suas páginas. A faixa etária do público a ser alcançado cai para adolescentes de 15 a 22 anos e mais tarde para a faixa dos 12 aos 19 anos, fazendo com que as mudanças ocorressem mais uma vez no logotipo e no slogan. As tiragens também seguem o mesmo rumo da idade das leitoras, passando a vender 250 mil exemplares por edição.
Novamente a revista foi adaptada para o real público, mulheres vivendo a adolescência, isso na maioria - 85% do sexo feminino e 15% do masculino. "A
Capricho é a revista que entende e respeita as idéias e valores da adolescente, faz a menina chegar a uma opinião mostrando com clareza os assuntos do universo dela", comenta Simone Miranda, do Centro de Atendimento ao Leitor da
Capricho.
Novos atrativos
As fotonovelas que caracterizavam a revista Capricho não existem mais. Perderam o sentido de ser, já que a telenovela é mais atrativa. Até a radionovela se extinguiu, sendo agora pouco ou nada usada. Esse estilo de divertimento, criado com o propósito de retratar a realidade da sociedade, traz para dentro de casa situações que se encaixam exatamente na vida das pessoas. É por isso que as novelas fazem tanto sucesso.
A realidade é mostrada sob diversos ângulos, e também de diversas formas, tanto no papel (fotonovelas), na voz (radionovelas), quanto por imagens (novelas), sendo essa última de maior impacto.
Hoje, a revista Capricho conta com uma equipe nova, na maior parte, de 14 a 18 anos para redigir as matérias. Afinal, nada melhor do que jovens para falar de assuntos "jovens". Na revista, as meninas podem encontrar matérias sobre a vida dos famosos, relacionamentos e informações "importantes" como programação de shows, eventos e guia de compras com endereços e preços.
Sem as fotonovelas, algumas das alternativas são as críticas de livros, shows, CDs e filmes. O ponto que diferencia a revista da concorrência é sua edição quinzenal - a partir de 1996 -, para que a leitora possa ficar mais "atualizada".
Sua circulação é maior no sudeste do Brasil, que chega na casa dos 62%, e a menor taxa é de 2%, no norte. Atualmente, com 230 mil exemplares por edição, seu grande objetivo no mercado é continuar sendo a melhor revista para adolescentes. "Sua missão é informar e formar garotas de atitude", explica Simone.
A ausência da fotonovela é suprida com matérias que levam as leitoras a conhecer um pouco da vida de seus artistas preferidos. São artigos que trazem todas as informações, desde o último relacionamento até o creme dental que a pessoa usa. Talvez tenha sido até "melhor", pois as fotonovelas só traziam fatos que aconteciam na ficção.
Com um grande mercado de jovens que desejam ardentemente obter informações a respeito de seus ídolos, de suas novelas e do que vão comentar no dia seguinte, qualquer revista que supra essa necessidade é bem-vinda nas bancas. As pessoas compram. Não há como negar que enquanto houver uma sociedade tentando esquecer seus problemas e se envolvendo com informações inúteis e caprichos sociais mais distantes da realidade elas ficam, tornando-se apenas marionetes da mídia.


criação: lisandro staut |
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