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fundo do baú
Lísye Rizziolli
Quando se lê um romance de Machado de Assis, o leitor se delicia com as palavras construídas de forma a alimentar o espírito crítico. Mas a tecnologia televisiva fez com que a imaginação se tornasse cada vez mais real, na forma de imagens. A partir de então, o antigo leitor se torna um mero espectador e receptor de tudo.
A adaptação da literatura para a TV tem como objetivo principal fazer com que todas as imagens ali projetadas facilitem o entendimento do telespectador; é conforto. Várias foram as contribuições que a literatura brasileira deu para a televisão.
Telenovelas literárias. Este foi o nome dado à grande iniciativa de, pelo menos, tentar embutir um pouco de cultura na mente do povo brasileiro. A literatura nacional tem um toque especial, que é o de fazer com que as pessoas se sintam envolvidas e sensibilizadas pelo autor. Em contrapartida, há posições defendendo que as mesmas estariam sendo feitas para uma formação cultural de baixo nível. Mas quem é que prova? Tanto que quem assiste uma das novelas tem um senso crítico mais aguçado.
Os autores superaram as expectativas do povo com um tipo de entretenimento cultural. Parte dos grandes conhecimentos formados sobre literatura brasileira se deve às telenovelas literárias.
Aparentemente, a visão que se tem de literatura é de personagens criados, fantasiados, ou de lugares irreais. Pode até ser verdade, mas a literatura mostra como usar a criatividade e estimular a imaginação do leitor ou telespectador. Isso não é tão mal. E depois de algum tempo, obras que pareciam mortas, ressuscitam para os brasileiros. O diretor da Rede Globo, Herval Rossano é um dos principais responsável pelas adaptações literárias,
juntamente com Gilberto Braga. Helena, de Machado de Assis, foi a primeira a sair do forno, em maio de
1975 (foto acima). Da autoria do consagrado escritor, esta é a única: seu gênero é de difícil adaptação para a televisão. Segue-se a ela O Noviço, do romance de Mario Lago. À época ficaram conhecidas como mininovelas, pois tinham apenas 20 capítulos.
Senhora (Globo, 1975) baseou-se num romance homônimo de José de Alencar,
também dirigida por Herval Rossano. Este, por sua vez, deu uma "modernizada" nas falas e no jeito dos personagens para atrair o público-alvo, que desde aquela época era a mulherada.
Na semana seguinte estreava A Moreninha (Globo, 1976), adaptada do romance de Joaquim Manuel de Macedo, que teve mais quatro capítulos que a anterior. Além destas, destacam-se muitas outras obras de sucesso nacional e internacional, como
Olhai os Lírios do Campo (1980), romance de Érico Veríssimo, Tocaia Grande (1995-1996) e
Gabriela (1975), de Jorge Amado, e O Feijão e o Sonho (1976), de Orígenes Lessa.
Mas a novela que teve maior repercussão - nacional e internacional - foi
Escrava Isaura (1976-1977), adaptada do romance de Bernardo Guimarães. A novela é de Gilberto Braga, dirigida por Herval Rossano e Milton Gonçalves. É a líder de aparições, cinco vezes no total.
Enquanto Escrava Isaura era exibida, seu poder pôde ser observado, quando os tiros na Guerra da Croácia paravam, ou quando os soldados da guerra da Bósnia contra a Sérvia (1977) cessaram fogo. Será que estas guerras tinham uma finalidade séria?
Foi grande a repercussão das telenovelas literárias brasileiras. E elas não estão mortas, simplesmente foram tiradas do fundo do baú e transformadas em relíquias atuais.


criação: lisandro staut |
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