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Retorno
à ditadura
Neanis Lutzer
Com uma pitada de bom senso e um pouco de ousadia fervendo, o Correio Braziliense
pode ser conhecido como um jornal que quebrou paradigmas de qualquer estilo jornalístico. Não só pelo seu visual, mas pelo simbolismo que o mesmo tem para Brasília.
Seu histórico é simples. Para quem não sabe, existiram dois tipos de Correio Braziliense em momentos diferentes da história: antes e depois da independência do Brasil.
Também chamado de Armazém Literário, o Correio pioneiro surgiu no dia 1.º de junho de 1808. Era publicado em Londres, mas circulava no Brasil. Seu representante foi Hipólito José da Costa. O jornal discutia questões que afetavam a situação portuguesa, brasileira e inglesa da época, bem como a necessidade da independência. Censurado no Brasil, o veículo entrava clandestinamente. Era escrito com idéias de Hipólito a respeito da precisa liberdade, tanto de imprensa como territorial.
O Correio era mensal, com cerca de 72 a 140 páginas. Às vezes demorava muito para chegar ao Brasil, podendo ter até três meses de atraso. Quando por fim foi decretada a independência brasileira parou de circular. Seu período completo foi de 15 anos, finalizado em dezembro de 1822.
Após longo período, em 21 de abril de 1960, Brasília torna-se a capital do Brasil. Assis Chateaubriand, diretor dos Diários Associados, decidiu inaugurar o primeiro jornal a circular na capital. Em homenagem, busca o título do periódico fundado por Hipólito, com a ideologia de "liberdade e brasilidade". Assim, surge uma nova versão do jornal, que antigamente durou pouco, mas o suficiente.
Atualmente, o Correio é o jornal que mais se diferencia do comum. Este passou por uma fase de dificuldade antes de se tornar "ousado". Por ser um jornal que surgiu na década de 60, tornou-se velho e sem mais atrativos, sendo trocado por meios de comunicação mais rápidos como a televisão.
Surgiu, no entanto, a necessidade de se fazer uma reforma para atrair mais leitores, principalmente jovens, e aumentar o grau de fidelidade dos atuais. A história do
Correio então muda completamente, quando em 21 de abril de 1996 as bancas trazem aos leitores um novo estilo. Tudo havia mudado no jornal, os textos, os espaços para as fotos, as seções de cartas e principalmente seu visual que, além de cores novas, agora era mais valorizado.
E por falar em história...
História foi o que aconteceu no fim do ano 2002, em que o Correio passou por uma espécie de máquina do tempo. Relembrou o leitor dos tempos de ditadura militar, em que os meios de comunicação eram censurados.
Na primeira página do jornal, em 24 de outubro de 2002, a chamada em caixa alta
"Correio é censurado a pedido de Roriz" indicava que algo havia de errado.
O jornal brasiliense foi acusado de querer publicar trechos de conversas gravadas que relacionava o governador Joaquim Roriz ao caso de Pedro Passos, acusado de grilagem de terras pelo Ministério Público. A censura é feita por oficiais de Justiça que entraram na redação do jornal para retirar toda reportagem que comentasse a respeito deste caso.
O Correio colocou uma matéria com o título "Influência do governo",
e no lugar em que deveria ser discorrido o texto, estava escrito simplesmente a palavra "censurado".
É importante ressaltar que depois da reforma de 1996, o editorial, que noticiava ocorrências de diversos estados e até internacionais, foi mudado e passou a dar mais atenção a população da própria capital com um caderno especial. A partir de então, o
Correio passou a ser realmente Braziliense.
Depois de toda essa situação, há indícios de que o controle do jornal esteja ligado a pessoas ou empresas do atual governador, Joaquim Roriz. Essa suspeita traz aos leitores assíduos do jornal uma certa desconfiança: que a linha editorial, atualmente independente e imparcial, torne-se manipulada.
Apesar das "suspeitas" de que existiu uma linha editorial de confronto com o atual governo, a confiabilidade que o jornal tem para com o público é muito grande, sendo reconhecido como autônomo, pela dignidade na história da imprensa.
Pela primeira vez, desde a ditadura militar, um jornal é explicitamente censurado. A história se repete. O jornal de Hipólito naquela época, por incrível que pareça, tinha os mesmos problemas. Mais espetacular ainda é que já se passaram muitas décadas e parece que essa questão sobre liberdade de expressão não foi resolvida. Conseguimos a independência do Brasil. Mas a autonomia do pensamento brasileiro ainda sofre.


criação: lisandro staut |
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