editorial | ombudsman | debate | imprensa
mídia | cultura | perfil | nostalgia | opinião
  em tempo | olho vivo | leitor | e-mail | expediente
anteriores | próximas edições | inicial

Monumento à liberdade de expressão

Daniel Liidtke

O Brasil possui um grande personagem que, nascido em suas terras, defendeu os idéias de liberdade da imprensa e denunciou os abusos da elite dominante. Inaugurado em novembro de 1825, teve participação em diversas lutas revolucionárias. Hoje, com 178 anos, continua vivo, mesmo após diversas tentativas de extinção. Seu nome: Diário de Pernambuco.

Carrilhões no alto do prédio do jornal anunciavam alguma catástrofe ou a saída de mais uma edição. Ao som das badaladas, os pernambucanos se aglomeravam para saber o que estava acontecendo pelo País afora e no próprio Estado - inicialmente regência. 

Com certeza os sinos devem ter tocado muito. Isso porque Pernambuco vivia em constante tensão, ocasionada por guerras e revoluções em nome da liberdade de expressão. Daí, não é de se estranhar que neste lugar tenha sido criado o Diário de Pernambuco, o mais antigo jornal do País - e da América Latina.

Se você tomasse este jornal para ler uns 150 anos atrás, se depararia com notícias como esta abaixo, publicada em 22 de agosto de 1853:

Desapareceu sábado 13 do corrente, uma escrava, cabra, de 25 anos de idade, alta, cara redonda, beiços arrebitados, pés secos e pequenos, fala descansada, inclina a cabeça para um lado quando anda, levou vestido de chita desbotado e pano da Costa; esta escrava nasceu no engenho Piedade, do norte, em poder da senhora D. Ignês Cândida da Silveira Uchôa, a qual senhora a vendeu, há pouco tempo, em casa do Souza, corretor de escravos, morador ao pé do quartel de polícia, onde foi comprada pelo abaixo assinado, há poucos dias: quem a capturar, ou dela der notícias certas, será bem recompensado: na destilação do Franca, na praia de Santa.

Para nossa realidade parece até cômico um texto deste tipo num jornal. Contudo, esse era o retrato do País da época: um Brasil escravo, reprimido, sem liberdade.

Mas nosso mais antigo primeiro jornal foi crescendo, tornando-se cada vez mais participativo nos movimentos que trariam a democracia ao País. 

Fundado por Antonino José de Miranda Falcão, o Diário é considerado por muitos como a inauguração da liberdade de imprensa no periodismo brasileiro.

Revoluções

Criticando o sistema governamental e manipulador, o jornal incentivou ainda mais o espírito revolucionário dos pernambucanos. Que antes mesmo deste periódico haviam participado da Revolução Pernambucana, em 1817, e da Confederação do Equador, em 1824.

Dentre as diversas rebeliões, salienta-se a Praieira, de 1848 a 1850, que teve como uma das principais conseqüência a insatisfação com o monopólio político e econômico. Poder este exercido por duas famílias principais em todo o Estado: Os Cavalcanti, dominando o Partido Liberal, e os Rego Barros como o Conservador.

Em 1842, membros do Partido Liberal se rebelaram e fundaram o que ficou conhecido como Partido da Praia. Do lado dos conservadores ficou o Diário de Pernambuco e a favor dos praieiros o Diário Novo - cuja tipografia ficava na Rua da Praia; daí o nome da revolta. A guerra entre os jornais durou mais ou menos até 1844, enquanto os conflitos políticos se intensificavam cada vez mais.

Outro conflito ocorreu em meados de 1912. Pernambuco vivia num clima efervescente de disputas políticas entre Chiquinho Rosa e Silva e Dantas Barreto. O Diário de Pernambuco estava nesta época sob direção de Francisco Rosa e Silva, Artur Albuquerque e Ulisses Costa, e logo depois de Assis Chateaubriand. Este último, por sua vez, era um jornalista que, demitido do Jornal do Recife por publicar um "folheto" de quarenta páginas contendo artigos polêmicos, crescera dentro do Diário e agora ocupava cargo de chefia.

O Diário se vê então numa emboscada ao Dantas Barreto ser eleito governador apoiado pelas tropas federais. Assim, o periódico passa a ser vigiado e perseguido. Em 23 de fevereiro policiais invadem a redação, levando presos Chiquinho e Chateaubriand.

Estes passaram três dias trancafiados numa caixa d'água cheia de lodo e baratas e depois foram libertos sem a mínima explicação. Livres, foram direto para a redação onde escreveram sobre a miséria e desumanidade das quais foram vitimados. Entretanto, antes da edição ser impressa uma tropa armada invadiu o jornal quebrando tudo que estivesse pela frente.

Depois deste dia fatídico, as prensas do Diário de Pernambuco ficaram um ano sem funcionar. Durante este período o jornal permaneceu inativo, aparentemente falido pela oposição - daí, muitos atribuem o título de jornal mais antigo em circulação ao carioca Jornal do Commercio.

Curiosamente muito tempo depois, por volta de 1930, Chateaubriand, mesmo em tempo de crise devido ao crack da Bolsa de Nova York, compra o Diário de Pernambuco. Uma vez que Chatô foi um dos jornalistas que mais lutou contra censura de imprensa no Brasil, não resta dúvidas quanto ao papel e impacto do Diário em sua esfera de atuação e alcance.

Combates

Uma das grandes questões do Brasil do século XIX foi a escravidão dos negros. Ao que tudo indica, o Diário combateu essa forma de apropriação da força de trabalho. Folheando um exemplar de 13 de maio de 1903, se encontraria:

A data que hoje comemora a nossa pátria, relembra o glorioso pernambucano ilustre que fez associar-se à magna questão da abolição dos escravizados o nosso querido torrão natal. Foi a 13 de maio de 1888, que sob a regência de Izabel, a Redentora, o nosso glorioso coestadano, conselheiro João Alfredo Correia de Oliveira, presidente do conselho de ministro de então, fez referendar a lei que libertava os descendentes dos africanos dos grilhões do cativeiro, uma nódoa que as passadas gerações dos patriotas não haviam conseguido levar do auriverde pendão brasileiro. (...)

Além de combater as deficiências nacionais e exaltar a resistência ao governo injusto, o jornal também apoiava e destacava os atos revolucionários ao redor do mundo. Abordando o assunto da Tomada da Bastilha, o Diário de Pernambuco publicou em 14 de julho de 1903:

Talvez uma revolução social jamais tivesse tido tamanho efeito de repercussão nos espíritos e dos costumes quanto a tomada da Bastilha. Não traçou somente mais uma linha para a direção francesa; conseguiu estender-se a todos os povos com o lábaro triunfante de uma causa justa. E fez-se daí, no calendário cívico da República, mais uma data nacional.

Significará isto, porém, que o 14 de julho tenha para os brasileiros o mesmo poder, a mesma influência de abalar e suscitar o entusiasmo e o patriotismo que os dias, que marcam e lembram a nossa independência, a redenção dos cativos, a proclamação do novo regime que veio a construção do edifício. (...)

Reconhecimento

Em Pernambuco, o Diário é reconhecido por sua eficiência e trabalho em favor dos interesses dos brasileiros. Em 7 de setembro de 1977, por exemplo, numa parada cívico-militar nas principais avenidas do Recife em comemoração à independência, o jornal recebeu homenagem especial de alunos de redes oficiais e particulares. Entre o público que assistia ao desfile foram distribuídas cópias dos primeiros números do Diário de Pernambuco.

Nesta mesma capital, foi em 1998 inaugurado o primeiro monumento em defesa da liberdade de expressão da América Latina. Todavia, o maior monumento em nome dessa liberdade é indiscutivelmente o Diário de Pernambuco. Não é apenas um personagem na história da nação: é um marco. Este foi erguido em 1825 e até hoje permanece em pé, símbolo de vitória daqueles que acreditam num Brasil livre.

                                       


criação: lisandro staut