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A folha que nunca caiu

Gabriel Ferreira

Com todas as suas dificuldades e empecilhos, a mídia impressa brasileira ainda teve alguns veículos valorosos e eficazes, que conseguiram realizar a proeza de informar sobre pressão política e militar. Muitos foram fechados e seus colaboradores presos; outros foram reconhecidos pela sociedade e seus diretores parabenizados pelo próprio governo, devido ao trabalho prestado em favor da Pátria.

O Jornal do Commercio do Rio de Janeiro (JC) foi um destes jornais que não deixou de contribuir moderadamente, em todos os sentidos, para a história da mídia impressa brasileira. 

A 1.º de outubro de 1827, o francês Pierre Plancher funda o que é hoje o mais antigo diário da América Latina que circula ininterruptamente desde o seu nascimento. (Há controvérsias quanto à classificação do jornal mais antigo. O Diário de Pernambuco, atualmente em circulação, foi fundado em 1825, mas fechou a porta algumas vezes, como em 1912 por uma tropa armada, a mando do então governador pernambucano, Emídio Dantas Barreto. Ficou um ano sem circular.)

Mestre em artes gráficas, Plancher chega ao Brasil em 1824 e traz com ele o melhor do jornalismo francês, equipamentos avançados e até alguns operários especializados. Seu objetivo era iniciar o que seria, a princípio, um jornal com características econômicas.

A folha pretendia superar o monopolizador Diário do Rio de Janeiro e sua vertente banal e efêmera, característica dos jornais da época. Para tal efeito, Plancher ampliou seu número de editorias nas quais foram publicados "Preços Correntes" e "Movimentos de Importação e Exportação", cadernos de interesse econômico. 

Mais tarde, devido à situação instável do País em seus primeiros anos de independência, Plancher incluiu editorias de política e de comércio. O veículo começa também a anunciar os elementos de grande importância do quadro político, tornando sua participação mais ativa e direta, no relato de episódios importantes da história do Brasil.

Visão e posição

Nomes ilustres do jornalismo, como o de Justiano José da Rocha, José de Alencar, Guerra Junqueiro, Alcindo Guanabara, José de Maria da Silva Paranhos (Visconde do Rio Branco, autor em 1851 das Cartas de Amigo Ausente) entre outros, fizeram parte do rol de editores e colaboradores. São eles os responsáveis na formação de credibilidade do Jornal do Commercio, no que diz respeito à informação comercial e política noticiada.

Porém, nem tudo era perfeito. Durante sua colaboração para com o veículo, Alcindo Guanabara verificou que o diário se omitia perante assuntos polêmicos e conturbados da época. "Essa inalterável tranqüilidade, num meio tão agitado, valeram ao Jornal do Commercio a força e prestígio com que, no princípio do segundo reinado, ele agia e reagia sobre a sociedade", afirma ele (citado por Nelson Werneck Sodré, em História da Imprensa no Brasil).

Para Guanabara, "a expressão quarto poder lhe era aplicável com absoluta justiça". A ação do JC, sempre intensa e eficaz, levou-o a afirmar-se tanto no terreno político, como no literário e artístico. Segundo seus colaboradores, o diário nunca foi partidário, preservando sempre o olhar claro e nítido sobre os fatos que constituem a vida.

Na segunda metade do século XIX, triunfava o jornalismo conservador (leia-se subserviente), sendo o JC expressão singular deste. Não se envolvendo em extremos, mas com alguns momentos liberais, a vida do jornal foi longa (principal característica vinculada aos jornais conservadores, tais como o Diário de Pernambuco e Correio Paulistano).

Reformas e inovações

Com o interesse de despertar o desenvolvimento da sociedade, na segunda fase da imprensa brasileira, o Jornal do Commercio cria em 1870 a coluna "A Província". O intuito era debater, de forma cautelosa, assuntos como liberdade dos sexagenários, abolição da escravatura - finalmente! -, questões religiosas, eleitorais, federativas, militares e até questões do próprio regime. O JC espelhava o estado da nação.

Em sua primeira edição de agosto de 1877, a folha publicava os primeiros telegramas, distribuídos pela agência telegráfica Reuter-Havas, substituindo o antigo e demorado método via-correio. Logo a seguir, todos os jornais com colunas internacionais, começaram a utilizar também o telegrama.

Conforme texto histórico redigido por José Chamilette (1918-2001), ex-diretor comercial do JC, a folha fluminense e seus colaboradores deram o empurrão necessário para que fosse criada a Academia Brasileira de Letras. A data de sua fundação só foi oficializada em 20 de julho de 1897, tendo o escritor Machado de Assis como seu primeiro presidente.

Segundo é documentado na obra já citada de Werneck Sodré, em 1889 o correspondente, Max Leclerc, do jornal parisiense, compara o JC a uma espécie de Times sem a virilidade, sem os leading articles, com um bom repertório de fatos, e conjunto útil de documentos. 

Velho e maduro

Com mais de setenta anos, a folha fluminense, sisuda e conservadora, era lida pelos homens de classe, políticos, comerciantes, funcionários e graduados. Era uma empresa sólida e prestigiada pelo fato de apoiar todos os governos.

O feito de o jornal ter chegado a três edições diárias (matutina, vespertina e paulista) foi único para a época, isto no início do século, e assim permaneceu por vários anos. Só em 1923, foram coletadas informações suficientes para redigir um histórico sobre a folha veterana, dados estes reunidos por Félix Pacheco, proprietário e diretor do veículo à época.

Tal como o vinho, os jornais melhoram com o passar do tempo. Amadurecem. Durante 174 anos, o Jornal do Commercio foi a folha que mais envelheceu sem morrer. Pode-se dizer que o diário foi mais do que um jornal tradicionalista e precursor do bom jornalismo realizado no País. Afinal, o grande sinônimo de jornalismo é informar, não importando cor, ideologia ou classe social, visando sempre a ordem e progresso da nação.

                                       


criação: lisandro staut