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Mais
que um jornal de província
Wendel Lima
Era o ano de 1875. A escravatura ainda vigorava e o Brasil estava num processo de transição da Monarquia para a República. A imprensa brasileira, bem como a sua democracia, dava seus primeiros passos. A capital paulista possuía não mais que 30 mil habitantes e os jornais de então eram impressos artesanalmente. Nascia
A Província de S. Paulo.
Em 1885, Júlio de Mesquita entrou para a redação do jornal. Em quatro anos a tiragem do jornal saltou de quatro mil para 7,5 mil exemplares. Com a saída de Rangel Pestana para o senado, Mesquita assumiu a direção política do impresso em 1891, iniciando a hegemonia da família Mesquita na mídia impressa paulista. Entre as mudanças, em 1.º de janeiro de 1890 alterou-se o nome para
O Estado de S. Paulo.
A Era Mesquita trouxe avanço tecnológico e logístico para a imprensa paulista.
O Estado, que era um jornal bem estruturado em 1885, consolidou-se na capital paulista, ao sair na frente com as máquinas Marinoni. Foi um marco da evolução da imprensa artesanal para a industrial. Júlio de Mesquita também inovou ao iniciar a venda avulsa das edições, que até então só eram comercializadas por assinatura. Esta mudança resultou no surgimento dos jornaleiros e das bancas de jornal.
O Estado surgiu num contexto político importante do País. Aliás, a relevância política sempre caracterizou o veículo. Tendo republicanos como fundadores, o jornal desde o início assumiu uma postura contrária à escravatura e ao regime monárquico. Defendeu que a abolição era um pré-requisito para a República. Advogou uma liberdade mais que racial, mas social, em que negros e brancos fossem salvaguardados por uma Constituição justa. Tal posicionamento foi expresso em alto e bom som em diversos editoriais, e por ocasião da Proclamação da República, quando publicaram na primeira página: "Viva a República!".
Mesquita empreendeu ao enviar como correspondente do jornal à Guerra de Canudos, Euclides da Cunha. O escritor procurou esclarecer a situação, tida até então como um movimento monarquista. Cunha enviou telegramas e relatórios coloridos, os quais serviram de base para o livro póstumo do escritor,
Os Sertões. O Estado defendeu a necessidade de mudanças estruturais na República, a qual possuía apenas uma tênue capa de republicanismo. Criticou os latifundiários e a política "café com leite".
Inovações
Nas primeiras três décadas do século XX, O Estado cresceu rapidamente na proporção do Estado de São Paulo. Em 1907, o jornal contava com uma tiragem de 35 mil exemplares de 16 a 20 páginas. Já em 1929, imitando o
La Prensa e La Nación da Argentina, O Estado começou a publicar um suplemento em rotogravura, que perdurou até 1943.
No entanto, o período não foi só de festa. A republicação do almanaque de 1896 fracassou novamente em 1916 e, posteriormente, em 1940. Mas a maior perda, veio em 1927 com morte de Júlio de Mesquita.
O jornal voltou a figurar no cenário político, ao sediar em julho de 1917, as negociações entre operários e patrões. O encontro aconteceu em virtude de uma greve que abalou a capital paulista, e do apelo dos jornalistas ao Comitê de Defesa Proletária para que houvesse um acordo entre as classes. Os operários venceram.
Embora sem vínculos partidários, O Estado apoiou o Partido Democrático, que em 1927 tornou-se nacional e cujo discurso era de oposição. Em meados de 1930 o jornal se posicionou mais uma vez contra o governo, mas agora apoiando a Aliança Liberal. O Estado participou ativamente também da revolução constitucionalista de 1932 e da criação da Universidade de São Paulo.
Censurado!
Na Ditadura do Estado Novo o jornal sofreu censura por um período superior a cinco anos. Em 23 de março de 1940 a redação do Estadão foi invadida pela polícia militar, sob o pretexto de que ali haviam armas escondidas. O jornal foi entregue pela polícia militar ao Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).
O Estado resistiu. Não publicou material enviado pelo governo, nem fotos e nomes ligados ao mesmo. Somente em 7/12/1945 voltou a publicar uma edição autônoma. Neste mesmo ano, Mesquita Filho e Paulo Duarte voltaram do exílio.
Apesar do liberalismo da linha editorial, Mesquita Filho apoiou o golpe militar de 1964. Cria que o regime militar deveria permanecer no máximo três anos no poder, e depois transferir aos civis. Porém, a ditadura tomou um rumo inesperado. O rompimento do jornal com os militares, veio num editorial de crítica ao AI-5, em dezembro de 1968, cujo título foi: "Instituições em frangalhos".
Após a publicação do editorial contundente, os exemplares foram apreendidos e a direção
do Estadão foi ameaçada. De 1968 a 1972, coagido pelos militares, realizou a autocensura. Porém, depois de uma infundada invasão do governo à redação, Mesquita Filho decidiu protestar publicando textos de Cícero em latim e trechos de Camões no lugar das matérias censuradas, a fim de que o leitor desconfiasse de algo.
Em 1975, no centenário do veículo, o governo reintegrou a autonomia do jornal à família Mesquita. A partir de então, outros veículos foram "anistiados" e a liberdade de expressão foi devolvida à imprensa. Mais uma vez o jornal contribuiu para a história do País.
Depois de várias mudanças de endereço, construíram a sede, que se encontra até hoje no bairro do Limão. Em 1988, sob a direção de Mesquita Neto, o jornal buscou uma reformulação e modernização com a contratação de Augusto Nunes. A vinda de Ricardo Setti para ser editor-chefe aumentou a gama de assunto e renovou a diagramação e simplificou os textos. Com isso assumiu um ar de revista com matérias completas e exclusivas.
A década de 90 mal tinha começado, e já o Brasil já passava por um escândalo político, a renúncia do presidente Collor. Em princípio,
O Estado se posicionou a favor do presidente. Inclusive publicou um editorial elogioso, logo após o discurso da posse de Collor. Porém, com o advento das denúncias de corrupção mudou de posição. Pedia a renúncia do "caçador de marajás". Usou toda a sua força e tradição contra Collor, afinal era o segundo jornal mais vendido no país.
O cenário da mídia impressa nacional estaria incompleto sem O Estado de S.
Paulo. Um jornal que durante décadas manteve a sua hegemonia. Que participou nos grandes momentos da história nacional e que criticou severamente a censura, não pode ser ignorado. A relevância do
Estado reflete o papel de vanguarda tecnológica e política exercida por São Paulo no contexto nacional. Em cem anos de
Província, tornou-se Estadão.


criação: lisandro staut |
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