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The New York Times -
Na linha de frente
Victor Drummond
Analisar o New York Times, o jornal mais influente do mundo, não é tarefa fácil. Principalmente se nos
detivermos na cobertura que este veículo realizou durante um dos maiores acontecimentos de toda a história: a Segunda Guerra Mundial.
Qual foi sua real influência sobre a maneira de pensar dos leitores? A quem ele favoreceu? De que lado da guerra se posicionou? Como abordou a relação entre judeus e alemães? Foi sensacionalista ou parcial demais? Até que ponto conseguiu manter sua neutralidade? E já que estamos falando em guerra, como este poderoso veículo de comunicação
se posiciona em relação à guerra entre Estados Unidos e Iraque? Será que
defende com unhas e dentes a grande potência norte-americana ou acredita que a guerra não é a melhor alternativa?
Para obter respostas a estas perguntas, é interessante conhecer um pouco sobre a história deste jornal. Lançado no final dos anos 90, o livro
The Trust - The Private and Powerful Family Behind The New York Times
(A Confiança - A Poderosa e Privada Família Por Trás do New York Times - sem versão em português), de Susan Tift e Alex Jones, narra a saga desta "monarquia moderna".
O início do NYT é marcado pela compra do The New York Daily Times, em 1896, por Adolph Ochs que tinha então 38 anos. Ochs, filho de imigrantes judeus pobres, juntamente com Arthur Hays Sulzberger, seu genro, transformou o jornal - que estava à beira da bancarrota - no mais respeitado e poderoso veículo do país. Segundo Tift e Jones, o sucesso vem se prolongando há quatro gerações.
A trajetória do NYT está repleta de grandes reportagens jornalísticas. Contando com profissionais de alto nível nos Estados Unidos e correspondentes em algumas regiões estratégicas da Europa, ele conseguia sair
à frente de seus concorrentes enquanto estes ainda tentavam adivinhar o que
acontecia.
Um exemplo disso é a cobertura do naufrágio do Titanic, em 1912: o NYT foi o único jornal a noticiar a tragédia. Seu correspondente na Europa descobriu que, trinta minutos após o pedido de socorro, ainda não houvera nenhuma comunicação com as autoridades. Assim, no dia seguinte, a manchete do jornal estampava "O navio afundou", enquanto os demais publicavam uma história incompleta sobre o ocorrido.
Ochs continuou como membro do Comitê Executivo do jornal e diretor da
agência Southern Associated Press, por ele fundada em 1890, até a sua morte. Seu genro, Sulzberger, o sucedeu.
Foi sob a gestão de Sulzberger que o NYT se tornou um dos jornais mais influentes do mundo. Ele
supervisionou a cobertura da Segunda Guerra Mundial. O jornal mantinha acima de 50 correspondentes estrangeiros, mais do que qualquer outro veículo no mundo.
No livro O Reino e o Poder, Gay Talese, ex-editor do NYT, afirma que o
jornal era o melhor no período da guerra, embora o concorrente, Tribune, fosse sério e interessante e, sem dúvida, um lugar mais apropriado para repórteres que quisessem liberdade literária.
Entretanto, no que diz respeito à reportagem direta e profundidade de cobertura, o
Times (como o jornal costuma ser chamado por Talese) era incomparável. Principalmente durante a Segunda Guerra Mundial, quando a equipe do jornal superou o
Tribune. Ficou especialmente claro que este jornal não ganharia nunca mais do
NYT em circulação, profundidade jornalística ou publicidade.
Perspicácia empresarial
A decisão de aumentar a equipe e não economizar na cobertura da guerra tomada por Sulzberger revelou perspicácia empresarial. Uma vez que as matérias-primas de produção de um jornal - papel, tinta, metal - estavam racionadas durante a guerra, os editores tinham de decidir se tentariam ficar ricos enchendo seus jornais com mais publicidade, ou se resistiriam ao ganho fácil e publicariam mais notícias. Sulzberger escolheu esta última alternativa. Ele mesmo visitou as frentes de guerra na Europa e no Pacífico.
O NYT perdeu milhões durante a guerra, mas produziu um jornal superior. Talese acrescenta ainda que o espaço adicional devotado à cobertura da guerra em vez de usá-lo em publicidade, foi uma decisão muito lucrativa no longo prazo: o jornal roubou muitos leitores do
Tribune, que continuaram a lê-lo depois da guerra.
Mas afinal de contas, qual foi a abordagem dada pelo NYT em relação à postura nazista e a maneira como Hitler encarava os judeus, visto que seu fundador tinha origens judaicas? Pelas palavras de Tift e Jones, é possível ver como os valores familiares de Ochs determinaram a linha editorial e a sua quase obsessiva e constante busca da objetividade na transmissão da informação.
Ao morrer, em 1935, Ochs transmitiu a seus herdeiros o desejo de que o NYT continuasse sempre devotado aos interesses do público e não presa dos desejos ou ambições de um ou outro grupo político. Esta postura fez-se presente também nos temas ligados à comunidade judaica, nos Estados Unidos e no mundo, e, posteriormente, nos
relacionamentos com o Estado de Israel.
Porém, o temor de que o jornal fosse considerado "defensor dos interesses judaicos" levou a tal imparcialidade que, inúmeras vezes, chegou a ser acusado, por segmentos da comunidade, de tendencioso em relação aos judeus e ao Estado de Israel. A equipe de
redação respondia dizendo que a ameaça do anti-semitismo estava sendo usada por alguns judeus como cobertura política para algum tipo de nacionalismo, o que ele abominava.
Segundo Tift e Jones, "embora Ochs fosse extremamente consciente de sua herança judaica, seus vínculos religiosos o preocupavam por não querer misturá-los com a imagem e o sucesso do jornal. Fez tudo para mostrar à classe dominante não-judia que os judeus poderiam ser cidadãos de referência, cunhando o slogan 'Todas as notícias cabíveis merecem ser impressas'". Consta que Ochs ao manter-se distante da elite judaica conquistou seu respeito.
A cobertura dos fatos ligados ao anti-semitismo, na Europa, ganhou mais espaço nas colunas do
NYT quando Hitler assumiu o poder, em 1933. Agora, sua política contra os judeus já não podia mais ser negada.
Jornal judaico? Nunca!
Sulzberger parecia mais preocupado com o fato de pensarem que ele dirigia um "jornal judaico" do que com a ascensão de Hitler. Durante a Segunda Guerra, ele enfrentou o grande desafio de manter a imparcialidade tão defendida por seu sogro, mesmo diante das atrocidades cometidas pelos nazistas contra os judeus.
Os editores tinham ordens de não "dar muito espaço" ao empenho do American Jewish Committee em ajudar os judeus europeus. Quando os líderes sionistas o acusaram de parcialidade na apresentação das notícias, retrucou acusando-os de terem feito com que ele de "não-sionista" se tivesse convertido em "anti-sionista".
No entanto, apesar de não erguer uma bandeira em defesa das comunidades judaicas distantes, Sulzberger encorajava a sociedade norte-americana a defender o
american way of life, exortando subliminarmente os Estados Unidos a ajudar a Europa contra a ameaça que Hitler representava. Se, por um lado, manifestava preocupação com o destino dos judeus, por outro não fazia desta uma postura constante, publicando apenas esporadicamente artigos sobre o que acontecia no continente europeu.
O receio de ser identificado como veículo "pró-judeus" jamais abandonou Sulzberger. Assim, quando foi anunciada a libertação do campo de concentração de
Dachau, Alemanha, apesar de divulgada na primeira página do NYT, a notícia não fazia menção alguma sobre os judeus. Em 1948, o jornal se recusou a endossar a Declaração de Independência do Estado de Israel. Tudo em nome da herdada "objetividade jornalística".
E o Iraque?
As evidências mostram que o NYT buscou, durante a Segunda Guerra, total
objetividade em relação aos judeus, mesmo com um fundador desta
origem. Esta objetividade não pode ser resumida em imparcialidade, visto
que pelo simples fato de Sulzberger não desejar ser visto como
pró-judeu, já estava sendo parcial. Passados mais de 50 anos, será que o jornal utiliza essa mesma
"objetividade" em relação à possível guerra dos Estados Unidos contra o Iraque?
Bem,
parece que o que está acontecendo hoje é
justamente a repetição deste posicionamento. O NYT não quer ser visto
como um jornal pró-Estados Unidos, da mesma forma que não quis ser visto
como pró-judeu. Este é o grande fantasma, o grande medo que assombra a
redação do veículo. Por este motivo, tem tentando manter a
objetividade diante da realidade da guerra, posicionando-se contra ela. Na
manchete do dia 19 de março, o NYT publica: "Tropas avançam em
direção à fronteira do Iraque". Esta manchete expressa a
objetividade que o jornal tem procurado manter. Ela apenas dá a notícia,
conta um fato.
Acontece que esta objetividade acaba se transformando em
imparcialidade. O jornal "não pode" defender os Estados Unidos.
Imaginem! "O mais influente jornal do mundo defendendo o próprio
país? Que tipo de jornalismo é esse?" São os tipos de perguntas
que o NYT não quer ouvir de seu leitor crítico e exigente. Esta
"linha editorial" acaba sofrendo "crise de
identidade", o tiro sai pela culatra. Na Segunda Guerra, Sulzberger queria tanta objetividade
que o jornal acabou parecendo se posicionar contra os judeus. É
isso que o NYT tem feito hoje. Vejamos esta manchete, também do dia 19 de
março: "Centenas de protestos contra a guerra no Iraque". Foi
como eu disse. O NYT tem tanta preocupação em não se ver a
favor dos Estados Unidos, de ser objetivo, que acaba errando,
enveredando-se para a parcialidade. Acaba se posicionando contra os
Estados Unidos, mesmo sem querer.
Que tipo de
"objetividade" é essa, que não possui o menor senso de segurança?
Atuar
na linha de frente da guerra, investindo milhões de dólares em
correspondentes, repórteres nos campos de batalha, equipamentos,
telefonemas, grandes equipes, fotógrafos, diagramadores, enfim, dominar o
mercado jornalístico como o NYT faz nas guerras, não implica que
estamos falando do melhor jornal do mundo, como pode defender Talese.
Jornais sérios não confundem posicionamento.
Concordo que se deve
publicar aquilo que é notícia e que os Estados Unidos não estão
tomando as melhores atitudes diplomáticas para "garantir a paz
mundial". O que critico é o fato de um jornal tão sério tenha medo do que os outros
vão pensar em relação à sua linha editorial.
Nesta guerra que acaba de
começar, fica difícil saber se o NYT defenderá os milhares de iraquianos que morrerão ou falará sobre as criancinhas norte-americanas
que perderão seus pais no campo de batalha.
Para
saber um pouco mais sobre o New
York Times, confira
a
resenha do livro O Reino e o Poder, de
Gay Talese, na seção
Cultura,
publicada em 13/11/02


criação: lisandro staut |
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