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Imagens da guerra
Isadora Schmitt
Quem pensa que os Estados Unidos e o Iraque começaram seus conflitos recentemente está muito enganado. Os atritos entre o governo americano e Saddam Hussein são muito antigos e já promoveram muitos desastres. Desde 1991, vários ataques já foram lançados ao Golfo Pérsico, o que mostra que a Guerra do Golfo jamais terminou de fato.
A revista Veja tem como tradição ceder grandes espaços para coberturas de guerra. Não foi diferente na Guerra do Golfo. Em 8 de agosto de 1990, período antecedente ao conflito, uma foto de Saddam Hussein estampou a capa da revista. Em letras grandes e amarelas,
Veja apresentou o ditador iraquiano com a chamada: "O Tirano de Bagdá desafia o mundo".
Saddam invadiu o Kuwait, colocou o governo para correr e provocou uma alta no preço do petróleo. Mesmo tendo como oposição as principais potências do mundo - Estados Unidos e, na época, a União Soviética - não havia força política ou bélica capaz de acabar com a política expansionista do Iraque no Oriente Médio. Mesmo assim,
Veja se mostrou um pouco tendenciosa nesta edição, pois colocou o ditador como o risco n.º 1 para a paz e para o desequilíbrio econômico mundial.
Ao longo das semanas, matérias com a ficha do ditador, histórico de guerras e mobilizações de outros países foram sendo publicadas pelo impresso. Veja ressaltou a personalidade sanguinária, fria e calculista de Saddam, mas esqueceu de enfatizar os métodos violentos que os Estados Unidos usaram ao longo da história para garantir interesses econômicos.
A reportagem publicada em 16 de janeiro de 1991, um dia antes de a guerra começar, é intitulada como "A hora do pesadelo".
A manchete de capa, intitulou-se "Guerra por um fio" (veja
foto). Nela, Veja caracterizou as negociações entre os países como um diálogo de surdos.
[(...) Durante cinco meses e doze dias, o mundo esperou que, colocados frente a frente, os Estados Unidos e o Iraque encontrassem uma saída para evitar a guerra. Em seis horas e meia, na quarta-feira passada, essa expectativa foi demolida. "Lamentavelmente, não ouvi nada que sugerisse qualquer flexibilidade por parte do Iraque", declarou com expressão sombria o secretário de Estado americano, James Baker, depois do diálogo de surdos que manteve com o chanceler Tariq Aziz no Hotel Intercontinental de Genebra. "A escolha agora é do Iraque. Se persistir na brutal ocupação do Kuwait, estará optando por um confronto militar que não pode vencer." (...) Como Baker, Aziz saiu dizendo exatamente o que dizia antes do encontro. "Os Estados Unidos se recusam a discutir a questão palestina", retrucou o chanceler, ao referir-se à condição inventada por Saddam Hussein para abandonar o vizinho ocupado na condição de herói da causa árabe e não como um aventureiro intimidado por um adversário infinitamente mais poderoso.]
Depois da ONU autorizar o uso da força para impedir as peripécias do tirano, mísseis e bombardeios romperam os céus de Bagdá. Em 17 de janeiro de
1991, um ataque aéreo contra Bagdá deu início à Guerra do Golfo. Os Estados Unidos haviam articulado uma coalizão com 33 países. Mais de meio milhão de soldados das nações aliadas foram mobilizados na região. Com recursos bélicos modestos, Saddam retaliou destruindo poços de petróleo no Kuwait e despejando combustível no mar. Suas tropas, porém, não resistiram.
Peça histórica
A edição de 23 de janeiro de 1991 é com certeza uma peça histórica. A reportagem principal mostra a guerra tecnológica desenvolvida contra o Iraque e ressalta o maior ataque aéreo da História em troca de uma rendição. A primeira guerra quente depois dos utópicos tempos de calmaria fora sendo consumada nos céus.
Veja é considerada uma revista de qualidade no que tange a coberturas internacionais. Mesmo assim, sua parcialidade em favor dos Estados Unidos no decorrer da Guerra do Golfo foi extremamente nítida. Ao se analisar a matéria, inevitavelmente percebe-se a posição da revista:
[(...) O que se viu nos primeiros dias da Tempestade no Deserto foi uma guerra "limpa", sem sangue, em que aviões fabulosos e mísseis fenomenais acertavam na mosca os alvos estratégicos de um inimigo aturdido, dando-se ao luxo até de escolher as janelas por onde entrariam suas bombas. Mesma assim, a guerra suja, que visa a matar e mutilar o maior número possível de inimigos - militares ou civis -, esteve presente no Golfo desde o segundo dia de conflito. A sujeira entrou em cena através dos mísseis iraquianos disparados contra Israel. Primeiro na madrugada de sexta-feira e em dose repetida na manhã de sábado, os mísseis Scud de Saddam foram atirados contra Tel Aviv. Os Scuds têm dificuldades técnicas em acertar os alvos, e, ao mirar em Tel Aviv, Saddam Hussein sabia que eles poderiam atingir a população civil, como de fato aconteceu. Com essa provocação terrorista explícita, o governo iraquiano quer forçar Israel a entrar na guerra, na expectativa de romper a aliança liderada pelos Estados Unidos.]
Por mais que a guerra sangrenta de Saddam fosse totalmente abominável, os ataques dos americanos foram de puro interesse econômico e político. Hoje, mais de dez anos depois, é sabida a diversa manipulação feita pelo telejornalismo americano e pelas fotos divulgadas pelas revistas para mostrar uma "guerra limpa".
No site de Veja existe uma seção especial sobre o conflito entre
Estados Unidos e Iraque. Edições e fotos de 1991 estão arquivadas e mostram como foi a cobertura da revista desde aquela época - lógico, sob a ótica da própria revista. O site também contém matérias e notícias de última hora sobre o conflito atual entre os mesmos países.
Agora,
Veja novamente entra em cena. No especial sobre guerras na internet, a origem do conflito e a comparação entre Bush pai e Bush filho são matérias realmente interessantes. O presidente está querendo fazer o que o seu pai não conseguiu. De acordo com alguns assessores, ele tem obsessão em evitar os erros do pai e conquistar tudo o que o chefe da família fracassou em atingir.
Desde o início do ano o conflito já foi tema de três capas do impresso, dando espaço inclusive para a edição dessa semana. A capa tem como título "O erro de Bush" e traz matérias sobre as armas e as razões do presidente em atacar o Iraque. A matéria principal vem enfatizando a guerra do bem contra o mal em que Bush caminha isolado pela sua visão fundamentalista e até mesmo insana. Parece um pedido de desculpas ao público pelo apoio declarado à guerra nas últimas edições.
Para
saber um pouco mais sobre
a
cobertura de Veja na Guerra do Iraque, confira
o
artigo "A
razão imperialista",
na seção Opinião

criação: lisandro staut
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