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Para que serve um jornal mesmo?
Allan Novaes
Imagine a seguinte cena. Você é um assinante de jornal, acaba de acordar e, em vez de pegar o jornal na frente da porta de casa, simplesmente liga seu
laptop de tela plana cristal líquido. Em questão de segundos, você tem acesso à internet e rapidamente visualiza a edição do dia em formato tablóide. Uma vez que ninguém nunca lê o jornal inteiro, mas cerca de 10% dele, você seleciona as matérias que realmente são de interesse.
Mas enquanto você pensa que ler o jornal no laptop não é a mesma coisa que sentir a textura do papel nas mãos, um programa já se encarregou de fazer o
download do jornal. Em questão de segundos, sua impressora high-tech
imprimiu as matérias selecionadas. Pronto. Você tem o jornal que quer do jeito que quer sem sair de casa. Com toda essa tecnologia, para que serve um jornal mesmo, se não para atirá-lo ao lixo antes que suje suas mãos?
Essa alegoria, criada pelo jornalista Antonio Caetano em artigo para o Observatório da
Imprensa, intitulado "O futuro dos jornais impressos", assusta. Mesmo sendo escrito há algum tempo, o artigo de Caetano já antecipava uma realidade alternativa, porém não improvável: a hegemonia da internet, substituindo os diários impressos por suas versões eletrônicas.
Para Ricardo Noblat, os diários assinaram seu atestado de óbito pelo menos quatro vezes no século passado. Em seu livro
A Arte de Fazer Um Jornal Diário, o ex-diretor de redação do Correio Braziliense teoriza que a primeira vez foi quando inventaram o rádio; a segunda, quando a televisão entrou no ar; o surgimento da internet foi a terceira; e a quarta quando a revolução digital uniu a escrita, o som e a imagem.
Algoz dos impressos, a internet é motivo de preocupação para jornais e jornalistas. Noblat relata em sua obra uma pesquisa realizada pela Associação Americana de Jornais. Cerca de quatro mil adultos com mais de 18 anos, foram entrevistados no início de 2000. Setenta e cinco por cento das pessoas afirmaram que a internet "mexe" com a imaginação deles, contra apenas 45% dos indivíduos que disseram a mesma coisa em relação aos
jornais.
A pesquisa revela ainda, para desespero dos donos de jornais, que o uso da internet como fonte de notícias aumentou 127% entre 1997 e 2000. Nesse mesmo intervalo de tempo, a compra de jornais despencou 12%. Como se não bastasse, estima-se que os jornais irão perder, até 2010, 30% de seus lucros com publicidade para a web, segundo executivos da Innovation International Media Consulting
Group.
Noblat não pára com seu relato e análise pessimistas. Eis os dados: a receita de publicidade dos jornais em 2001 foi 7,2% menor do que a do ano anterior; os jornais venderam 0,46% a mais de exemplares em 2001 se comparado com 2000 (só que desde 1977 eles cresciam a uma taxa média anual de 4,8%); a participação dos jornais no bolo publicitário caiu de 28% em 1995 para 21% em 2001. Segundo as estatísticas, o futuro dos impressos é sombrio e desanimador. Para que serve um jornal mesmo?
Ainda há esperança
Contudo, mesmo diante da cruel futurologia de Caetano e das frias estatísticas de Noblat, ainda há esperança para os diários. Sim, é possível fazer que o jornal sobreviva a essa onda digital e aos números do enfraquecimento.
Ex-editor do Correio Braziliense, TT Catalão criou um dos mais vigorosos e contundentes conceitos da função do jornal em todo o Brasil. O texto, do qual o título desse artigo se baseia - "Para que serve o jornal" -, esteve presente na capa do Correio de 17 de setembro de 1999. Desse texto e das soluções que Noblat apresenta em seu livro tira-se a maior parte dos passos a serem seguidos para se evitar a morte dos jornais. São dez os princípios.
1) "Um jornal se for só papel serve para cobrir o chão quando pintamos a casa ou embrulhar peixe no mercado."
Por incrível que pareça, o conteúdo vende o jornal. Surpreender o leitor com informações que ele desconheça e que sejam perfeitamente aplicáveis ao seu cotidiano é indispensável.
2) "Um jornal se for mero símbolo, tradição e história servem para discursos pomposos, mas ocos de compromisso com a vida." Nome e história não dizem mais do que o jornal pode oferecer. O leitor espera que os textos sejam escritos para eles e segundo o gosto deles. Jornalistas que escrevem para si ou que se prendem a manuais de redação que se chocam contra os interesses do leitor são venenos lentos, mas fatais aos diários.
3) "Um jornal não tem senhores, domínios, posses ou possessões." Um jornal serve quando não é escravo até do seu próprio sucesso. Desvencilhar-se das amarras do mercado, impedir a imposição editorial do patronato é dever do jornal. Desprezar favores da política local também. Até o próprio sucesso do jornal pode tornar-se um fator que comprometa seu serviço ao leitor.
4) "Um jornal serve para publicar o que se fala, refletir o que se publica, aprofundar o que se opina sobre o publicado e ampliar todas as opiniões sobre o dito e o refletido."
Assegurar a liberdade de imprensa é um estandarte que o jornal nunca deve envergonhar-se de defender. Além disso, é importante saber a reação do leitor sobre o que foi publicado. É preciso interagir com os leitores. Fazer com que eles também façam o jornal. O leitor tem de ser, guardadas as devidas proporções, revisor, diagramador, repórter, articulista e editor. Tem de haver mais espaço para falarem e para serem ouvidos.
5) "Um jornal serve para ir além da notícia quando busca suas relações, seu contexto, as circunstâncias que geraram o fato e até avaliar suas conseqüências." Estabelecer menos espaço para as notícias de ontem e ocupar-se em antecipar as notícias do amanhã. Deter-se menos na notícia meramente informativa e empenhar-se nas matérias interpretativas e investigativas. Competir com o imediatismo da web é inútil. Cada macaco tem de ficar no seu no seu galho.
6) "Um jornal serve para pensar." Fugir da influência da televisão nos impressos é evitar o superficialismo, o entretenimento e a busca inconseqüente da audiência. Para que o leitor reflita, faz-se necessário ouvi-lo; ele diz: "Por favor, não me conte o que já sei. Topo ler o que já sei se vocês acrescentarem informações que desconheço ou se me explicarem o que não entendi direito". Respeite isso.
7) "Um jornal serve quando despertam atitudes." A informação que provoca barulho não é informação importante para a vida das pessoas. Importa a informação que produz mudanças na vida das pessoas. Mudanças para melhor, por favor.
8) "Um jornal serve como serviço público, que é a definição mais básica de imprensa como instituição!"
Nunca temer o poder nem o dinheiro. Fiscalizar os três poderes é o que se espera do jornal. A imprensa existe para satisfazer os aflitos e afligir os satisfeitos.
9) "Um jornal serve também para emocionar, dar prazer, informar por inúmeros suportes do fato além do texto, deleitar, entreter, indignar, comover e demonstrar que vive intensamente o seu tempo e a sua região." O jornal precisa ser visualmente atraente. Tem de haver a valorização da imagem, mas nunca em detrimento do conteúdo. Nota zero para a exposição sensacionalista da imagem. Nota zero para a exposição maciça e sem vida de textos e mais textos. Nota dez para a simbiose perfeita entre imagem e conteúdo. Se tratando de textos, publicar mais reportagens do que notícias - são elas que diferenciam um jornal do outro. Não é nem preciso falar de quão é importante humanizar o noticiário e abordar os temas pela ótica dos leitores. O lead é indispensável somente quando for indispensável. Nas demais ocasiões, o texto com boas doses de criatividade, com pitadas éticas e consciente do literário não fazem mal a ninguém. Só ajudam.
10) "Um jornal serve para servir ao seu eixo principal de credibilidade: o
leitor." É para ele que o jornal é feito. Ele quem lê, ele manda. Os dez preceitos acima confirmam isso. E se o leitor se equivocar em relação ao que quer ou quiser mal, é dever do jornalista orientá-lo e nivelá-lo sempre por cima, nunca por baixo. Mas ainda assim ele continua mandando, pois o freguês, de uma forma ou de outra, tem sempre a razão.
Seguindo esses passos, o jornal dificilmente sucumbirá a sua cria virtual e às estatísticas desanimadoras. Ainda há esperança. Mas, para que serve um jornal mesmo?
Um jornal serve para servir.


criação: lisandro staut |
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