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A revista em revista

Fabiana Amaral

Quando o assunto em pauta é analisar uma coisa que não existe ou que dá apenas traços de existência, não dá outra: a possibilidade de erro e belas "barrigadas" é muito grande. Mas - fazer o quê? -, não há outra saída quando se fala sobre o futuro das revistas.

Para entender melhor o contexto e poder traçar suas possíveis tendências, é necessário lembrar o poder de influência que uma revista tem. Algumas foram bastante significativas na vida pública e social da nação, lá por meados de 1930. Podemos destacar o papel da revista O Cruzeiro, dos Diários Associados de Assis Chateaubriand ou Realidade, veiculada nas décadas de 60 e 70 pela Editora Abril.

Essas publicações se tornaram a fonte de referência mais comumente recorrida quando se fala de revista no Brasil, e não fazem por menos.

O Cruzeiro começou a se destacar e diferenciar das outras pelas fotos, feitas pelo renomado fotógrafo francês Jean Manzon. Podia agora ser vista não só a matéria e uma boa - ou razoável - diagramação, mas grandes e estouradas fotos que ocupavam considerável parte da revista.

O gênero se disseminou. Uma coisa que não se pode olvidar é o fato das revistas serem reconhecidas - também pudera, nessa era da imagem - pelas imagens. Hoje, a tendência é que esse estilo de fazer jornalismo em revista, baseando-se fortemente na imagem, ganhe ainda mais espaço. Fotografias normalmente caprichadas, que contam tudo ou quase tudo do acontecimento e ocupam praticamente maior espaço que a matéria propriamente dita.

O colunismo social, para falar só de um, é um caso típico. Chegam-se a se fazer edições completamente recheadas com a festa de determinado artista, simultaneamente com capas de estrelas de televisão e teatro convenientemente seminuas. O texto, nessa hora, é só mais um complemento.

A maioria das revistas fala mais de gente e se volta para gente. Não que outros tipos de jornalismo e outros veículos não o façam, mas a revista se prestará com mais veemência a isso.

Por mais que esse perfil se modifique, as revistas possivelmente continuarão sendo vistas como um veículo que pode ser consultado para pesquisas ou pura e simplesmente para comparação: "Olha como fulana engordou de dois anos para cá", "Menina, como os cabelos dele ficaram brancos desde sua última festa de aniversário!".

Especialização

Junta-se a tudo isso o fato de que há cada vez mais revistas especializadas em determinadas áreas. Chega ser seguro afirmar que é justamente essa a tendência das revistas, não só no Brasil. Quando um periódico pretende abranger todos os públicos acaba por não chegando perto de nenhum. É fácil explicar o porquê.

Com assuntos muito variados, que não têm um alvo, é difícil que um determinado público se familiarize com a publicação. Ao passo que quando a publicação é mais direcionada ela pode até não atingir enormes tiragens, mas tem um público fiel e uma tiragem garantida. Isso porque criou envolvimento com o leitor, que se sente parte e "cliente" da revista, sempre preparada pensando em seus gostos e vontades individuais.

Uma revista pra adolescente, por exemplo, poderia ser dividida em várias outras. Talvez uma só para as "patis" da vida ou outra só ensinando truques para as baladas, voltada para as adolescentes mais "saidinhas". Também poderíamos ver revistas sobre esportes radicais divididas em outras tantas, como uma só de patins ou skate. Não seria improvável que elas se multipliquem ainda mais com assuntos mais afunilados.

A isso se soma o fato de que a notícia, no sentido estrito da palavra, é algo que não perdurará, salvo algumas notinhas sem muita importância. As revistas tendem - já se nota - a ser cada vez mais permanentes e interpretativas. Não é a morte de Cicrano ou o aumento do dólar por culpa dos beltranos que serão capa, mas a importância que isto tem na sociedade. É como a notícia altera ou não o modo de vida das pessoas e as leva a uma ação.

Enfim, por ora é só especulação, mas especulação com alto teor de consistência. Trocando em miúdos, seria prever que as revistas serão basicamente mais voltadas a nichos específicos, priorizando matérias de caráter interpretativo, investigativo e com muitas imagens.

Sempre que se fala em mudanças já começam os cadavéricos de plantão sugerir a morte deste ou daquele tipo de mídia. Contudo não parece ser este o caso das revistas, que, ajustadas aqui e ali, prometem vida longa.

                                       


criação: lisandro staut