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Descrença no santo

Grace Spínola

Um homem anda pela rua. O trânsito pára. Uma multidão o segue. Pessoas gritam seu nome e esperam maravilhas, graças. Algumas se jogam a seus pés e com perfume os lavam. Ele faz prodígios com suas próprias mãos, e são elas mesmas que acalmam o mar. Os paralíticos e enfermos são curados com suas palavras; elas têm poder. Uns dizem que ele é um mágico, outros que ele é o filho de Davi. E muitos não sabem que ele é o próprio Deus. 

É sobre a vida deste homem que a revista de divulgação científica Galileu dedica cada vez mais espaço. São páginas e mais páginas gastas para desvendar o misterioso Jesus.

Na edição de abril de 2001, a chamada é "O que aconteceu depois da páscoa", diz que, "para criar uma religião mundial, o Jesus libertador do povo judeu foi transformado no Filho de Deus e ganhou o nome de Cristo". A matéria é assinada por Maurício Tuffani e procura mistificar o relato bíblico.

A revista traz um invólucro imparcial, um manto descobridor de verdades para impressionar o leitor com a veracidade e imparcialidade. Leitores mais atentos percebem a tendência da matéria em influenciar a aceitação do Jesus histórico em detrimento do Jesus bíblico. 

Em dezembro do mesmo ano, Galileu trazia Jesus novamente à sua capa. A matéria "A nova fé", também foi assinada por Tuffani - ao que parece, mestre no assunto.O teólogo Rochus Zuurmond, usado como fonte, diz que "as histórias da Bíblia foram contadas com base nos pressupostos de quem as contava e de acordo com a função que queriam dar a elas". 

Mediante a roupagem flexível, a reportagem ataca os dogmas da Igreja Católica e a crença literal na Bíblia. Na entrevista com o jornalista espanhol Juan Arias, essa propensão fica explícita. O repórter usa generalizações fortes do entrevistado para abalizar seu ponto de vista, como: "A Igreja sabe coisas que não diz aos fiéis"; "No fundo, todas as religiões monoteístas são fundamentalistas. Quando uma crença vê seu deus como único, as demais passam a ser falsas para ela".

O texto termina com a declaração do padre Ivo Storniolo: "Em sua pregação, Ele (Jesus) sempre levou muito a sério o que a religião de seu povo pedia. E foi na sua experiência humana que ele aprendeu isso. Para Jesus, 'Shalom' (paz em hebraico) era cada um ter sua terra, sua cultura, poder sentar sob sua figueira ou videira e viver em paz na comunidade".

Na edição deste mês, Galileu novamente direciona seus holofotes sobre Jesus. Desta vez, a chamada é "A guerra do sudário"; a matéria discorre sobre o conflito entre religiosos e céticos, que brigam pela santidade ou não do pano. 

O cientista americano Walter McCrone (1916-2002), um dos maiores especialistas na área de análise microscópica, examinou amostras coletadas da Síndone (outro nome pelo qual o Sudário é chamado) em 1978 e concluiu que a imagem era uma pintura medieval. Já o químico italiano Baima Bollonze afirma não só ter encontrado sangue, mas também conseguido determinar que pertencia ao grupo AB. O mexicano Leoncio Garza Valdes teria usado o mesmo sangue para extrair DNA que, segundo ele, pertenceu a Jesus. A matéria termina de forma ética, não apoiando nenhum dos lados.

Mais do que polêmica, Jesus gera paixão. São romarias, missas, cultos, palestras, milagres. Fé incondicional. Coragem para se fazer o que parece impossível. Exercendo um papel fundamental, as matérias da Galileu que abordam Cristo procuram desvendar, por mais sutil que pareça, a lógica dos fatos. Infelizmente, nem sempre conseguem.

                                       


criação: lisandro staut