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FOLHeAndo o ombudsman 

Daniel Liidtke


Numa calma manhã de domingo, 24 de setembro de 1989, um operário toma a Folha de S. Paulo e começa a folheá-la. Depara-se então como um nome que nunca havia visto antes: ombudsman. A coluna que o trabalhador lia trazia o título: "Quando alguém é pago para defender o leitor", e era assinada por Caio Túlio Costa. O texto iniciava-se assim:

Começa aqui a coluna semanal do ombudsman da Folha. O nome pode parecer esquisito, mas indica uma função que tem dado certo em outros países. Tanto na área pública (como na Suécia, onde o ombudsman é uma espécie de ouvidor geral), quanto no jornalismo (como nos Estados Unidos, onde ele serve de advogado do leitor).

(…)

Na Folha esta coluna irá ao mesmo passo. Vai comentar as notícias da semana e a maneira como a imprensa tratou os assuntos com um único objetivo: ler os jornais e escutar as notícias com olhos e ouvidos de leitor exigente. Informação correta é requisito para se ter opinião e decidir as coisas da vida.

Embora o ombudsman tenha sido institucionalizado oficialmente na Folha no final da década de 80, os primeiros passos desta profissão no Brasil foram dados por Alberto Dines, no mesmo jornal - só que em 1975. Com a coluna semanal "Jornal dos Jornais", este jornalista consolidou o chamado media criticism. Poderia-se dizer que Dines foi o precursor do atual ombudsman, ou talvez um pré-ombudsman, como o rotulou Caio Túlio Costa, primeiro a ocupar este cargo na Folha - e no Brasil.


Já em 1986, a Folha observava com interesse as experiências positivas na criação do ombudsman no jornal estadunidense The Washington Post e no espanhol El País. Esse, contudo, era um desafio ainda não conquistado na América Latina.

Finalmente, com muitas expectativas, a Folha "inaugura" oficialmente o ombudsman na terra de Cabral. O trajeto seria longo, desconhecido e, portanto, desafiador - assim como as grandes expedições marítimas dos séculos XV e XVI. Acontece que o jornal descobriu algo muito mais importante que as óbvias "Índias". Encontrou um grande método para a aprimoração do jornalismo.

Caio Túlio Costa foi audaz. Nos momentos apropriados elogiou a Folha. Em outros, teve pulso firme para dizer que ela foi "precipitada" e repleta de "desinformações". Talvez se esperasse que o primeiro ombudsman do País tratasse os erros de modo mais sutil. Afinal, a maioria dos terráqueos não gosta muito de críticas - muito menos certos jornalistas.

Rota definida

Seguindo a onda de Costa, os subseqüentes tiveram uma rota já definida; embora esta não deixasse de apresentar desafios constantes. Depois de dois anos, respectivos a dois mandatos, um novo ombudsman assume o cargo na Folha de S. Paulo: Mario Vitor Santos, em setembro de 1991.

O rebuscado Mário permaneceu no posto até setembro de 1993, quando então foi substituído por Junia Nogueira de Sá. Ela guiou a "caravela" do ombudsman da Folha durante um ano, quando então entregou a função a Marcelo Leite.

Assim como a maioria dos "ouvidores" do jornal paulista, Leite permaneceu no cargo durante dois mandatos, contudo um pouco mais prolongados: até janeiro de 1997. Isso se deu a um problema de hepatite, contraída pelo ombudsman seguinte - novamente Mario Vitor Santos. Este, por sua vez, desenvolveu as funções de ombudsman até o final de 1997, quando foi substituído pela destacada Renata Lo Prete, que vai até março de 2001. Daí em diante, o leme é legado às mãos de Bernardo Ajzenberg, atual ombudsman da Folha.

Com sua coluna "crítica diária", Ajzenberg tem provado a importância do cargo dentro do jornal. Sempre inicia seu texto com breve análise das manchetes dos principais jornalões paulistas e cariocas e, eventualmente, também das grandes revistas. Na seqüência, mostra no que a Folha acertou e no que errou - o ombudsman parece ser uma espécie de mãe para o jornalismo.

Ajzenberg não deixa escapar as "gafes jornalísticas". Com bom humor, muitas vezes, ele corrige colunas, manchetes, notícias, notas e até legendas. Em 23/4/03, por exemplo, ele criticou a seguinte legenda de uma foto da revista Dinheiro, que trazia Antonio Palocci Filho de muletas: "O ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho, de muletas". Então o ombudsman fala: "O 'de muletas' é absolutamente dispensável, burocrático, um insulto à inteligência do leitor. No texto a ela relacionado, aliás, faltou a idade do ministro acidentado".

O que você acharia do título "Israel relaxa, mas mantém estado de alerta"? Bem, na coluna de 28/3/03, Ajzenberg catalogou-o como "uma contradição em termos". Contudo, além de corrigir detalhes noticiosos e erros de português, o ombudsman corrige o jornal quando o problema está ligado à tendenciosidade político-ideológica; isso já é um pouco mais complicado. Em 1.º/4/03 Ajzenberg perguntou à Folha: "Jornal de oposição?". Veja:

Acho bastante discutível o chapéu "Caindo na real" adotado hoje nas coberturas sobre o salário mínimo e sobre as reformas, em Brasil. Ele me parece ter um tom de política oposicionista, o que é diferente de fazer jornalismo crítico e independente em relação ao novo governo. Não por acaso, Tasso Jereissatti afirma, na retranca "FHC evita fazer críticas, e PSDB cobra promessas" (pág. A5): "O PT sempre lidou com a coisa que era irrealidade. Hoje, o partido enfrenta a realidade da vida". Faz todo o sentido na boca de um tucano, e ele pode até estar certo - não é essa a questão. O problema, a meu ver, é o jornal incorporar no noticiário esse discurso. Para reflexão.

Bússola das "expedições"

Entretanto, em meio a tantas propostas de "reforma jornalística" indicadas pelo ombudsman, muitos podem perguntar se isso realmente tem produzido frutos positivos. Seria esse cargo realmente válido e produtivo dentro de um jornal? 

Deixemos que os próprios ouvidores da Folha respondam a indagação.

Segundo Caio Túlio Costa, "o atestado de eficácia mais visível é o de que [a Folha] se transformou no jornal que mais admite erros no Brasil". De acordo com ele, as ratificações do jornalão paulista passaram de uma media mensal de 12, antes de existir ombudsman, para 118, no último ano de seu mandato (1991).

"Reconhecer erros, porém, não é tudo. Nem proporciona atestado definitivo de qualidade. Muito mais importante é deixar de cometer erros. Ou garantir o direito de resposta a quem o requer por sentir-se injustiçado", afirma. "O maior mérito do cargo foi ter facilitado a comunicação do leitor com a redação", propõe Costa, embora saliente que em sua época um terço dos leitores não sabia o que era ombudsman - isso não parece ter mudado muito.

Mario Vitor Santos, segundo ombudsman da Folha de S. Paulo argumenta: "Será bem-sucedido o ombudsman que em algum grau relevante conseguir realizar quatro compromissos sagrados: aumentar a precisão, confiabilidade e responsabilidade do jornal; incrementar sua credibilidade; elevar sua qualidade e alertá-la para as preocupações da comunidade." E essa foi a meta desenvolvida.

Junia Nogueira de Sá, por exemplo, dizia: "Só não acusem a Folha de ter medo de encarar suas fraquezas. Porque o jornal tem coragem de ter um ombudsman." É improvável que as discussões e críticas deste profissional não tenham impulsionado, direcionado e corrigido o rumo do maior jornal do País.

Por fim, Marcelo Leite declara o que é ser um ombudsman, qual a sua finalidade e resultados. Para ele, a função principal é incomodar a redação, "no sentido de tirar os jornalistas da situação cômoda em que muitos se imaginam, a de não ter de prestar contas a ninguém, mesmo exigindo-as de todos".

Conclui-se então que o ombudsman é a bússola das "expedições" jornalísticas. Talvez sem ele, a Folha estivesse afogada em muito mais erros gramaticais, de informação e parcialidade. Não resta dúvidas de que ao se folhear a história do ombudsman no Brasil, a Folha conterá as primeiras páginas; e, provavelmente, as de maior destaque.

                  


criação: lisandro staut