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Amigos,
amigos; críticas à parte
Darley Melo
São poucos os jornais brasileiros que carregam a função de
ombudsman em suas edições. Alguns já tentaram, mas poucos persistiram. O cearense
O Povo foi um jornal que conquistou seu espaço, num país de preconceitos regionais. Ele é um entre os dois remanescentes.
No decorrer de seus 65 anos, O Povo conquistou aceitação no mercado. A própria história do jornal e sua relação com o leitor e aspectos importantes da sociedade, impulsionaram a implantação de um cargo que atendesse ao público em suas necessidades. Então em 1994, o diário implantou o
ombudsman, por meio da professora e jornalista Adísia Sá, a precursora da função no jornal.
A inovação indicava que o ombudsman era instrumento eficaz de ligação entre transmissor (o jornal) e receptor (o público). Seguindo o modelo da Folha de S. Paulo, precursora no Brasil,
O Povo construiu algo como "amigos, amigos; críticas à parte". Isso se deu por desenvolver um trabalho cheio de conflitos em que jornalistas, até mesmos companheiros de trabalho, tomavam o papel de ouvidor e denunciavam, de forma reveladora, a opinião do público.
Essa não é uma tarefa muito fácil, ainda mais quando surgem ameaças. Lira Neto e Adísia de Sá, ambos ex-integrantes do cargo em
O Povo, sofreram este tipo de reação. Neto foi alvo de uma campanha dos colegas de redação que fizeram um abaixo-assinado em solidariedade a um jornalista que havia sido criticado por ele no jornal.
Já Adísia recebia telefonemas do tipo: "vai explodir uma bomba em seu prédio...", "cuidado você vai ser atropelada...", "seu carro vai pegar fogo...". Ela também sofreu um atentado quando jogaram ácido em seu carro.
Outros nomes fizeram parte da história do jornal. Adísia de Sá - ombudsman por três mandatos -, Márcia Gurgel, Gibson Antunes, Lira Neto, Débora Cronemberg e Regina Ribeiro.
Interesse em melhorar
Roberto Maciel, atual ombudsman de O Povo, está no cargo há sete meses. Sempre acompanhou o trabalho de seus antecessores nos dez anos da instituição do cargo, notando algumas mudanças. "Tenho percebido, ao longo desse período, um crescente interesse de jornalistas em buscar oferecer um produto melhor ao leitor, com mais precisão", ressalta Maciel em entrevista ao Canal.
Geralmente as pessoas costumam seguir exemplos. Exemplos de coisas que dão certo, que atingem suas metas. O
ombudsman de O Povo exerce uma função de grande importância na sociedade e na liberdade de expressão cearense.
"Lamentavelmente, os ganhos institucionais que se tem obtido em O Povo não sensibilizaram outros jornais locais ou da região a adotar a figura do ouvidor, e isso acaba sendo ruim para a sociedade, que não se vê representada nos jornais", declara Roberto Maciel.
Ele completa dizendo que "quanto ao exercício da função, esta tem se mostrado um instigante momento de reflexão - pessoal, mas aberta à apreciação de leitores e de demais funcionários do jornal - sobre o jornalismo que se faz e o que o público quer".


criação: lisandro staut |
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