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Pioneirismo
na América
Delton Unglaub
Tinha que ser nos Estados Unidos. Oficialmente, são os norte-americanos os precursores em institucionalizar função do
ombudsman na imprensa. O processo que levou os jornais estadunidenses a adotar essa nova função do jornalista ocorreu por ocasião de um artigo da revista Esquire, publicado no mês de março de 1967. Em seu livro
O Relógio de Pascal, Caio Túlio Costa conta que, Ben Bagdikian recomendou um
ombudsman para os jornais naquele ano.
Na edição de 11 de junho do mesmo ano, Abe H. Raskin, editor da The New York Times Magazine publicou um artigo que perguntava: "O que há de errado com os jornais americanos?". Ao avaliar a imprensa americana, Raskin propôs um
ombudsman para o leitor descrevendo o perfil ideal para a função. Alguém com experiência e autoridade para ouvir reclamações e solucioná-las.
Após a publicação do artigo, Norman Isaacs, editor-executivo dos jornais
Louisville Courier Journal e o Louisville Times, decidiu criar este cargo que escutaria as reclamações dos leitores. Para a função nomeou John Herchenroeder. Assim, em julho de 1967, surgiu o primeiro
ombudsman de imprensa.
Herchenroeder atendeu 400 reclamações logo em seu primeiro ano de serviço. Após quinze anos, o número de reclamações atingia mais de três mil. Porém, só a cúpula do jornal tinha acesso às críticas.
Contudo, o jornal japonês Yomiuri Shimbun, veículo com maior tiragem do mundo (15 milhões de exemplares e atualmente cerca de 10 milhões de exemplares diários), questiona o pioneirismo norte-americano na criação da função de imprensa. Os japoneses afirmam que em 1938, já tinham um profissional com as mesmas funções de um ouvidor.
Coluna pública
Japonês ou estadunidense, o fato é que a primeira coluna pública de ombudsman realmente ocorreu nos Estados Unidos, inaugurada em 1970. Richard Harwood, no
Washington Post, foi o primeiro ombudsman público. O Post também foi o primeiro jornal a ter um profissional apenas para esta função.
Michael Getler é atual ombudsman do Post. Antes de assumir esta posição em novembro de 2000, foi editor executivo da
International Herald Tribune, de 1996 até 2000. Antes, Getler trabalhou para o
Post durante 26 anos. Começou em 1970 como correspondente de negócios militares, cobrindo o Pentágono e atividades relacionadas com a defesa no Congresso e na Casa Branca. Em 1975, se tornou correspondente na Alemanha cobrindo a Europa Oriental.
O texto de Getler difere dos textos dos outros jornais. Sua crítica utiliza a característica constante da primeira e segunda pessoa para atingir o objetivo principal: dialogar com os leitores. Em qualquer veículo, mesmo os textos opinativos são escritos em terceira pessoa. Sua coluna é bem-humorada pelo fato de ironizar determinados fatos publicados.
Há muitas críticas sobre a cobertura de determinados assuntos. Notícias, comentários, títulos, fotos são comuns em sua coluna. Outras, contextualizam o leitor nos bastidores do jornal. Discussões sobre questões éticas do jornal e dos meios de comunicação são comuns também. A apresentação de reclamações dos leitores é feita por meio de transcrições de cartas. Não faltam elogios ao
Post e outros meios de comunicação.
Editor público é diferente?
Ao contrário do que acontece em outros grandes jornais norte-americanos - como o
Post e o Chicago Tribune - o New York Times não havia adotado a figura do
ombudsman. No jornal "queridinho dos americanos", a novidade do ombudsman é resposta aos recentes abalos sofridos pela redação.
Há cerca de três meses, foi descoberto que o repórter Jayson Blair copiava e inventava quase todas reportagens publicadas nas páginas do
NYT. Após Blair, o diário ainda sofreu com outra descoberta. O "confiável" Rick Bragg, vencedor de um Prêmio Pulitzer, assinou uma reportagem que na verdade havia sido escrito por seu estagiário. Bragg pediu demissão alegando que "todo mundo faz isso no
Times".
Assim, o NYT teve que adotar algumas medidas. Uma delas é o ombudsman, ou "editor público". Mesmo com estas mudanças, o novo editor executivo, Bill Keller, diz que o jornal normalmente resistiria a implantação de um
ombudsman. Eles se preocupavam que a aquisição deste profissional causaria fofocas e situações que prejudicariam a moral da equipe.
De acordo com um memorando de Keller, distribuído em seu primeiro dia de trabalho, o
ombudsman tem permissão para escrever sobre as matérias do NYT com total liberdade, sem censura. Já o "editor de padrões" manterá o padrão das reportagens do jornal e garantirá que contratações e promoções dentro da redação sejam mais transparentes. Assim espera-se.


criação: lisandro staut |
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