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"Provedor"
da qualidade jornalística
Gabriel Ferreira
Os meios de comunicação lusitanos estão cada vez mais refinados. A preocupação para com a opinião dos leitores e o melhoramento interno da qualidade dos veículos levou dois jornais de peso em Portugal a criar um cargo que criticaria o jornal em sua própria página impressa.
Ao redor do mundo, esta função atende pelo nome de ombudsman. Em Portugal, optou-se por chamá-lo de "Provedor dos Leitores", o que corresponde ao
news ombudsman. Os portugueses argumentam que a nova roupagem traz mais independência, autonomia e representatividade diante do jornal.
Em 1997, o jornal Diário de Notícias (DN) institucionalizou o "Provedor". O
Jornal de Notícias (JN), seu concorrente, não ficou atrás e também iniciou a função pouco tempo depois.
Em ambos os jornais portugueses, cabe exclusivamente à mesa de diretores ou editores a escolha de quem irá comandar o "Provedor". No
DN, a decisão de escolher o jornalista para a função cabe exclusivamente ao diretor do jornal. Já no
JN, quem decide é a administração, tendo em vista um jornalista de reconhecido prestígio, credibilidade e integridade pessoal e profissional.
Mário Mesquita foi o primeiro a ocupar a função de "Provedor" no DN em 1997, escrevendo na coluna por um ano, seguido de Diogo Pires Aurélio, que participou por três anos. Atualmente, o cargo é efetivado pela professora Estrela Serrano, que em abril de 2004 conclui os seus três anos de contrato. No
JN, quem hoje trabalha como "Provedor" é o jornalista Fernando Martins.
Função e intenção
"O 'Provedor' funciona como elemento de captação de falhas deontológicas (ciência que estuda a aplicabilidade dos conceitos éticos) e éticas por parte dos jornalistas", declara Estrela Serrano, do
Diário de Notícias, em entrevista ao Canal. "Tal como eu encaro a função, o 'Provedor' é uma espécie de 'consciência ética' do jornal", completa.
Adiante, a colunista afirma que, ao fazer isto, o jornal está demonstrando um funcionamento democrata, pois permite ser criticado por seus próprios jornalistas numa coluna reservada para tal. Cabe aos jornalistas escolherem seguir ou não os conselhos dados na coluna, que tem como principal objetivo garantir a qualidade do jornal.
Segundo a colunista, o DN dá-lhe sempre total liberdade quanto ao tema que será explanado, não esquecendo do respeito pelo estatuto do "Provedor" e pela linha editorial adotado pelo jornal.
O "Provedor" é quem analisa as queixas e sugestões enviadas pelos leitores e chama a atenção dos jornalistas para os seus deveres para com a sociedade e necessidade de humildade e atenção perante os leitores e suas críticas.
Fernando Martins, do
Jornal de Notícias, explica (no artigo "As muito grandes pequenas incertezas",
JN, 22/6/03) que "hoje, mais do que nunca, os consumidores dos 'media' necessitam de ser esclarecidos - às vezes sobre questões aparentemente insignificantes". Para ele, as dúvidas que os leitores possam vir a ter, mesmo sendo simples às vezes, acabam por ser um instrumento de credibilidade muito importante para o jornal. Erros ortográficos e compreensão do delicado estado econômico da nação (entre outras) são as questões que o "Provedor" deve esclarecer.
Levando a uma melhor compreensão da atividade jornalística, Estrela Serrano, paralelamente às críticas dirigidas ao funcionamento interno do veículo, tenta dar a conhecer aos leitores trabalhos e estudos acadêmicos que se publicam sobre o jornalismo. Sua intenção é que o crítico de mídia possa o fazer consciente que o jornalismo é um campo que deve ser fruto de muito estudo, e de não apenas ter um certo jeitinho para a escrita.
Resultados visíveis
Resta saber se o espaço ocupado pela coluna "Provedor dos Leitores" no Diário de Notícias
e no Jornal das Notícias tem realmente ou não efeito. Estrela Serrano e Fernando Martins acham que sim.
Estrela ressalta que a insistência de suas críticas produz efeitos satisfatórios. O que mais lhe agrada é ver a receptividade dos leitores que entram em debates fora da filosofia norte-americana do
ombudsman, que insiste muito nos erros técnicos (ortográficos e outros) também muito importantes. O
ombudsman de Portugal visa a importância do jornalismo como elemento estrutural das sociedades democráticas e sua responsabilidade social.
O "Provedor" trouxe à mídia impressa portuguesa, desde a sua implantação, uma maior interligação do veículo com os seus leitores. A evolução das suas preferências, sugestões e críticas, fizeram do
DN e do JN uma maior fonte de esclarecimento de notícias que poderiam suscitar perplexidades junto ao público.
Na maior parte das vezes, a função foi vista como nada mais do que um meio para autoproteção da imagem da instituição ou empresa. Contudo, o "Provedor dos Leitores" preocupa-se com muito mais do que isto: tenta sempre construir uma linha de proximidade entre leitores, jornalistas e interessados com a qualidade de informação que um jornal deve transmitir.


criação: lisandro staut |
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