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Braziliense-já, alegoria sobre um estilo
Allan Novaes
"O
Correio Braziliense é o jornal brasileiro que mais respeito. De longe. Entre todos os diários do país, considero o
Correio o mais bem feito - falo de texto, diagramação, de qualidade de informação, de acabamento em geral - e o mais independente - falo de credibilidade, de exercício de espírito público. Insisto: de longe o melhor."
[Mino Carta, diretor de redação da Carta Capital referindo-se ao
Correio da gestão de Ricardo Noblat e não ao atual diário brasiliense.]
Embora nem todos concordem com Mino Carta, não são poucos os jornalistas que reconhecem a autenticidade e eficácia da reforma editorial e gráfica do
Correio Braziliense - o Correio dos tempos de Noblat. O alvoroço em torno das conquistas do diário é grande, desde o lisonjear dos partidários ao praguejar dos enciumados. A contenda tem seus motivos: o texto sem lide, muitas vezes beirando o literário; o uso intensivo de cores; e o visual atraente e leve.
Por ter conquistado 156 prêmios de jornalismo - 69 de artes gráficas, 63 de reportagem e 24 de fotografia -, o diário da capital federal fez por merecer elogios. O veículo alcançou a posição de oitavo jornal que mais cresceu entre os 41 maiores do Brasil, de 1994 até 2002. No mesmo período, aumentou sua circulação em 64%, enquanto a maioria dos concorrentes perdia mercado. Os números, "evidências" do êxito da cruzada do jornal, são difíceis de engolir, especialmente para o eixo Rio-São Paulo. Números são números.
No entanto, mais preocupante do que assumir ou não o poderio do diário brasiliense é antecipar um futuro alternativo, distante, mas nem por isso inviável: o que aconteceria se os grandes diários do País seguissem a reforma do
Correio?
Diante da influência do projeto gráfico do
Correio em alguns jornais do Centro-Oeste e até do Sudeste, brincar com realidades paralelas pode ser uma das melhores maneiras para avaliar as conseqüências (más ou boas) dessa expansão. A especulação, bem fundamentada, é claro, dá ao leitor uma sensação de estar segurando em suas mãos uma bola de cristal, cuja verdade se encontra ali, possível de ser antecipada - e por que não modificada?
Uma boa dose de ficção e humor não fazem mal a ninguém. Às vezes, é na ficção despretensiosa que a realidade se torna mais clara e nas narrativas mais inverossímeis que a coerência se esconde.
Nasce o movimento
Ao assumir essa linha futurista, a primeira premissa a admitir seria a extinção das obras-primas do jornalismo didático. Exemplares de Mário Erbolato, Muniz Sodré, Cremilda Medina e de outros ícones do jornalismo certamente seriam tachados como ultrapassados e talvez queimados em salas-de-aula.
O livro A Arte de Fazer um Jornal Diário, de Ricardo Noblat, emergiria como manual adotado nos centros de ensino e em pouco tempo seria a nova bíblia para a formação universitária em jornalismo. O próprio Noblat seria transformado em ídolo, com Paulo Cabral de Araújo, ex-diretor-presidente do grupo Diário Associados.
O governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, por sua vez, seria alvo de caras-pintadas da Universidade de Brasília e demais faculdades que abraçariam a causa. Seu nome estaria estampado em faixas e cartazes pelas instituições de ensino superior da capital federal de maneira bem sugestiva: "Abaixo o terRoriZmo". Logo o movimento se espalharia por faculdades e universidades de todo o Brasil e ganharia as ruas das principais cidades brasileiras.
Provavelmente, o Jornal Nacional seria o primeiro telejornal a chamar o movimento estudantil de
"Braziliense-Já", nome assimilado sem dificuldade. O ministro da Educação Cristovam Buarque, um dos primeiros a vestir a camisa da causa, daria novo vigor ao movimento. Seguido por intelectuais, jornalistas de peso e políticos - por envolvimento ideológico, adesão do partido ou simplesmente autopromoção. Essa atitude provocaria grande indignação entre os adversários, que logo despejariam enxurradas de acusações sobre o ministro - e ex-governador do DF -, de retribuir antigos favores do jornal.
No âmbito acadêmico, alertas e acusações partiriam de estudiosos da comunicação, como José Arbex Jr. e Eugênio Bucci. Segundo a facção opositora, os impressos correriam o risco de contaminação pelo vírus do sensacional e espetacular da TV - a adoção de cores, diagramação leve e sedutora, a utilização de mapas e boxes didáticos e o aumento do corpo dos caracteres seriam evidências "sintomáticas" da doença da
"televisionização" dos diários. Essa doença tem como sintoma principal a vontade incontrolável de entreter o leitor, custe o que custar.
A teoria adversária, então, seria simples: mostrar que a celeuma em torno da reformulação gráfica e editorial dos jornais não passava de desculpa para entreter o leitor. Entretendo o leitor, o jornal venderia mais. Dessa forma, o movimento estaria pregando um jornalismo de entretenimento que desviaria a capacidade de reflexão do leitor para a satisfação de seus sentidos, unicamente por dinheiro.
Argumentos fortes e evidências contundentes. Uma CPI seria formada para investigar o caso. Mas, enquanto os trâmites no Congresso ocorriam, a implantação do projeto continuava. Logo as acusações de políticos seriam consideradas impropérios e as críticas dos intelectuais abafadas pela comoção estudantil e por articulistas do Braziliense-Já na imprensa e no Congresso.
O diferente se torna igual
Tão logo fosse implantado o "Projeto Correio" nas redações, os textos jornalísticos receberiam forte golpe: a morte do lide convencional. A abertura tradicional da notícia e da reportagem seria abolida e o falecimento do lide publicado no
Diário Oficial.
E ai daqueles que quisessem retornar às velhas práticas! Acusado de estimular a preguiça e inibir a criatividade dos jornalistas, além de estragar o prazer pela boa leitura, o lide não morreria sem levar consigo todos os profissionais que o idolatravam. Bateriam as botas também os jornalistas sem imaginação.
A comemoração pelo falecimento do lide seria acompanhado de êxtase, fruto da falsa sensação de liberdade. Contudo, o passar do tempo revelaria ser a liberdade a mais atroz escravatura. O apreço pelo diferencial e pela liberdade no texto levariam os jornalistas a uma exaustiva cruzada contra as limitações da criatividade.
Por serem proibidos de escrever textos parecidos, a obsessão pela originalidade diminuiria a cada dia as opções para usufruí-la. Em poucos anos, todos os textos diferentes se tornariam iguais. E o primeiro texto a reviver o lide seria considerado o mais original, mas sem durar muito tempo nessa condição. Essa "descoberta" seria rapidamente assimilada por outros jornalistas e os textos seriam todos iguais novamente.
Grande contingente de designers e publicitários seria contratado pelos jornais para reformular a diagramação dos respectivos impressos. O resultado imediato? Dezenas e dezenas de diários com cara de revistas semanais. O resultado em longo prazo? A competição por prêmios da SND (The Society for News Design) seria muito mais acirrada.
Obviamente, o número de assinantes e vendas avulsas iria aumentar. Mas logo depois despencaria: até o novo e visualmente atraente cansa. O planejamento gráfico arrojado já não surtiria efeito com a repetição. O sensacional viraria rotina. Rotina diária. E entre rotina diária e rotina semanal, os leitores escolheriam a de maior intervalo de tempo para descanso.
Veja, IstoÉ e Época entrariam nos anos das vacas gordas. Sobrariam, portanto, vacas magras para os diários. Magérrimas, por sinal.
Queda
Com a derrocada dos diários, o movimento Braziliense-Já não conseguiria conter a influência da oposição. Como as sucessivas invasões dos germânicos e hunos fustigaram o Império Romano até sua "morte", as críticas de saudosistas e intelectuais minariam os fundamentos da causa. Com o falecimento dos líderes do movimento, seus adeptos iniciariam a debandada. Novas reformulações e reformas editoriais e gráficas nos jornais aconteceriam.
Por fim, os diários voltariam a ser como eram. O Correio, outrora sede do império, fecharia as portas. Seu rival, o
Jornal de Brasília, assumiria a preeminência do jornalismo local. A
Folha, por sua vez, novamente tomaria a frente do projeto de reconstrução jornalística do País. Era preciso recuperar a credibilidade perdida e arrebatar milhares de leitores das revistas semanais de volta para a fileira dos diários.
É. Os intelectuais estavam certos. Por um momento os jornais adoeceram e tentaram a todo custo entreter o leitor com o diferente, o sensacional, com o visual arrojado e os textos atraentes. Mas não deu certo.
Ao apoiar o Braziliense-Já, a TV foi o único meio de comunicação que legitimamente se fortaleceu com o processo e assumiu a hegemonia midiática nacional. A todo-poderosa provou de uma vez por todas ser a mais forte ferramenta da mídia para impor conceitos e mobilizar massas. A única que brinca com fogo e não se queima. A única que explora a imagem em detrimento do conteúdo e que utiliza o sensacional para anular a reflexão, sem sequer se chamuscar. A única que detém o real poder do entretenimento, porque, ao contrário dos jornais, une escrita, som e imagem.
O Braziliense-Já estava destronado e a "conspiração televisiva", descoberta. Mas quem teria a coragem de guerrear contra a TV e sua ideologia do entretenimento sem ser fulminado?
Moral da história: hegemonia visual moderna afeta a tudo e a todos. Até mesmo ao autor desse texto, cujo apelo à imaginação e o uso do sensacional foi a maneira - descarada e contraditória - encontrada para estimular a reflexão e criticar o jornalismo de entretenimento.


criação: lisandro staut |
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