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O sol não brilha para todos

Ruth Pimentel


Com mais de quatro décadas de muitas polêmicas, o jornal The Sun faz parte do patrimônio do magaempresário australiano Rupert Murdoch. Sua fortuna, avaliada em mais de sete bilhões de dólares, é decorrente dos lucros do Grupo News Corp, que é formado por revistas, redes de televisão (Fox News), setor de entretenimento (20th Century Fox), time de beisebol (Dodgers e Los Angeles) e jornais (The Sun e New York Post, entre outros). Até grandes marcas como Renault e Nokia fazem esse investimento ser cada vez mais lucrativo para Murdoch. Após lutar contra o câncer de próstata em 2000, e vencer, o que mais Murdoch pode esperar da vida? Sucesso? Fama? Reconhecimento?

Um tablóide de grande circulação em que o preço ínfimo (25 pences por edição, ou 1/4 de libra) não dá para pagar o papel, o jeito é investir no sensacional - e nos anúncios, claro. O jornal The Sun procura fazer suas notícias baseadas nas futilidades mais gritantes. Dentro do conceito de passar informações, o conteúdo duvidoso é contínuo e parece que foi treino passado de geração para geração.

Invadir a privacidade, não apenas dos protagonistas das notícias, mas também de todos os espectadores, tem sido um processo normal no plantão do tablóide inglês. A estratégia fez do jornal de Murdoch um dos mais poderosos do mundo. O jornal só angaria fãs assíduos, que esperam ansiosos por novas "informações".

Freqüentemente, o The Sun expõe mulheres seminuas, fotonovelas eróticas, bebedeiras, brigas e alfinetadas, fofocas. Merece louvor apenas o setor de esportes, que faz a cobertura diária e precisa, com destaque para o torneio de Wimbledon e a cobertura da Fórmula 1. Mas que importa? Dentro do público masculino, que é a maioria, as informações já estão de bom tamanho.

Sexo e futilidades

Britney Spears engordando cinco quilos e a notícia que o ex-ministro da Irlanda, Ron Davies, foi "flagrado" fazendo sexo em local público defende a tese de que o The Sun joga com cartas marcadas. A justificativa do jornal para destruir a cultura, substituindo-a por "alegria, conforto e tranqüilidade", é a simples distração da rotina maçante e a constante busca por descanso.

Em março deste ano, até um brasileiro chegou às manchetes do The Sun - não há motivos para orgulho. O dito cujo era o garoto de programa José Gasparo, amante do deputado Clive Betts, do Partido Trabalhista Inglês. O romance chegou às capas do jornal por Betts ter empregado Gasparo como seu assessor apenas para facilitar os encontros. Pior de tudo: o brasileiro procurou o The Sun, contou tudo e ainda forneceu fotos pessoais com o deputado. O tablóide pagou pelas informações (veja foto).

Outro nicho explorado pelo jornal é a vida atrás da telinha. É o caso do Big Brother deles, que mesmo na 50.ª semana continuou sendo noticiado pelo The Sun, como se fosse sua estréia no ar. Ainda falando do reality show, o tablóide chegou a noticiar a ereção de um dos participantes da casa. Que importância tem para a população esses "fatos"? A informação é relevante?

Eventualmente, a sociedade sofre com essa degradação da notícia. Também regride em seus conhecimentos pela qualidade adquirida com o entretenimento. O simples fato de não terem contato com a notícia real e verdadeiramente importante, faz com o povo pense que está informado.

Enquanto você lê esse texto, o que será que vê nas entrelinhas? Essa pergunta você deve se fazer enquanto é bombardeado por informações de importância superficial, que não o levarão a nada. Se estiver se prendendo apenas a todo e qualquer tipo de informação por acréscimo de cultura, é melhor começar validar as razões que te levam a submissão ante tanta hipocrisia. Tenha paciência, você vai conseguir filtrar muita coisa inútil.

                                       


criação: lisandro staut