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Está na hora de fugir do óbvio

Gladiston do Nascimento e Victor Drummond

Abordar os acontecimentos esportivos não é tarefa tão fácil como se possa imaginar. É preciso tato, criatividade e procurar um bom ângulo de abordagem para não cair no óbvio.

Acontece que é justamente esse erro que todos cometem. Quando há um grande acontecimento no esporte, é quase certo que qualquer veículo apresentará praticamente as mesmas informações - óbvias, por sinal. Que o jogador fulano de tal contundiu o joelho, que cicrano foi expulso no segundo tempo e que determinada falta passou despercebida ao olhar do juiz.

Concordamos que estas informações precisam ser transmitidas. Mas quando o jornalista se prende somente a elas, acaba deixando de lado a criatividade e até mesmo o bom jornalismo, que deve contar uma história da forma mais criativa possível, sem perder a seriedade, é claro.

No Brasil existem duas grandes revistas voltadas para a editoria esportiva: a Placar e a Lance!. Elas dominam as maiores fatias do mercado editorial. Acontece que não há boas sacadas jornalísticas em nenhuma delas. Na Placar, por exemplo, há uma supervalorização do futebol como se esse fosse o único esporte do mundo. Já a Lance!, possui uma abordagem pouco mais diferenciada. Mas ambas caminham na linha do senso comum.

Estratégias múltiplas

A revista Placar nasceu com a intenção de se especializar em futebol. Seu surgimento se deu em 20 de março de 1970, às vésperas da Copa do Mundo no México. Em seu primeiro número teve a foto estampada daquele que foi considerado um dos melhores jogadores de todos os tempos, o rei Pelé. O motivo é claro: Pelé estava vivendo um momento ímpar de sua carreira, e a revista investia nessa imagem para conquistar o País como um veículo que surgia para ser um expoente em informação sobre futebol.

Durante os anos 70, a revista vai ganhando o terreno e passa a ser a principal referência informativa e futebolística do País. A cobertura do campeonato brasileiro (naquele ano se chamava Torneio Roberto Gomes Pedrosa) foi um ponto alto nessa primeira década de vida da revista. Depois, já instituído o Campeonato Brasileiro (com esse nome mesmo), o futebol nacional é foco principal da revista e marca registrada dela até os nossos dias.

Os anos 90 chegaram repletos de mudanças. Os ares mudam como da "água pro vinho". Em abril de 1995, a revista renova o foco, tamanho, slogan e outros mais. "Futebol, sexo e rock'n roll" era o novo slogan, apostando na tentativa de ganhar público e abranger o maior número de leitores.

A tática aos poucos foi sendo notada como uma frustração e não inovação. Um ano depois a revista faz nova mudança sendo a principal o tamanho, que volta a ser como antes. Esse padrão vai até meados de 2000, quando o veículo completa 30 anos de existência. O slogan é retirado e o foco volta a ser o futebol brasileiro.

A revista semanal Lance! conta com um grande nome do jornalismo esportivo impresso: Juca Kfouri. Possui reportagens de qualidade e é1 eclética na abordagem e dando grande cobertura a outros esportes. Entretanto, parece se impor com textos opinativos que mais parecem um monólogo ideológico. Isso deixa a idéia de que a revista está falando sozinha, sem se preocupar com o leitor.

Como dissemos anteriormente, esses dois veículos não buscam novidades dentro da área esportiva. É mais fácil encontrar curiosidades sobre esportes em veículos direcionados para turismo do que em revistas como Placar e Lance!. Aliás, jornalistas que trabalham nessa área encontram um sério problema em inovar.

Obviedade

O Canal da Imprensa participou de uma coletiva de imprensa com o jogador Ronaldo, o fenômeno. A coletiva ocorreu em ocasião da contratação de Ronaldo pelo time espanhol Real Madrid e girou em torno do senso comum: a contratação do jogador e uma contusão que ele enfrentava no joelho.

Todos os jornalistas, dos principais veículos esportivos do País - incluindo aí a Placar e a Lance! -, faziam praticamente as mesmas perguntas. Parecia um processo em cadeia. "Ronaldo, o que você espera da sua estréia no Real Madrid?"; "Ronaldo, você vai conseguir jogar com o joelho contundido?"; "Ronaldo, o que te levou a ir para o Madrid?". 

As perguntas se repetiam com construções um pouco diferenciadas (para não se mostrarem tão medíocres assim) e seguidas de respostas praticamente iguais. É claro que as respostas de Ronaldo devem ter sido todas combinadas com seu assessor de imprensa. Um jogador de futebol raramente tem a capacidade de se virar sozinho.

O Canal tentou ir um pouco além. Estávamos vivendo o primeiro turno das eleições e procurávamos um ângulo de abordagem diferente. Perguntamos ao "astro futebolístico" se o recém conquistado título na Copa do Mundo iria interferir no resultado das pesquisas eleitorais, fazendo com o brasileiro ficasse satisfeito com o sistema e acabasse votando no candidato do partido governista.

Ronaldo, sem entender nada de história e de política, é claro, respondeu: "Amigo, futebol não tem nada a ver com política. Se tivesse, o Brasil é cinco estrelas e não estaria na situação que está hoje".

Pobre Ronaldo, pobre jornalismo, pobre Brasil. Será que ele não sabe que o futebol já foi (e é) usado para esconder muitos dos problemas brasileiros?

É triste detectar que quando se tenta ser inteligente e sair do óbvio, acaba-se sendo visto com maus olhos pelas pessoas. Joey Reiman, considerado um dos homens mais criativos do mundo e dono da Bright House, agência publicitária que faz as campanhas da Coca-Cola, afirmou que, por trás de cada idéia inovadora e brilhante há uma pessoa dizendo que não vai dar certo.

Parece que isso acaba acontecendo no jornalismo esportivo. Os repórteres só estão preocupados em entreter com informações óbvias, iguaizinhas em todos. Receiam inovar por medo de não serem bem interpretados. Ou pode ser que existem editores afirmando que qualquer idéia fora das pautas não será bem-vinda.

É válido misturar o jornalismo esportivo com o entretenimento, afinal, os leitores não estão interessados em informações substanciais. Porém, há outras há outras pautas, que deixam de ser abordadas por causa do entretenimento, como violência nos estádios, corrupção, situação dos campos, etc.

Uma exceção foi a edição de 1.º de fevereiro de 2002 da Placar (veja foto). A matéria de capa analisou os principais estádios do País e classificou-os entre piores e melhores, apontando problemas e sugerindo soluções. Uma pérola no meio da lama.

No geral, os jornalistas esportivos subestimam a inteligência do público que possui cultura e está ávido por histórias bem contadas e inéditas. Se bem que, infelizmente, a maioria do público vidrado em esporte parece não entender de outra coisa.

                                       


criação: lisandro staut