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Manuais
de sobrevivência
Isadora Schmitt
Existem revistas femininas para todos os gostos. Voltadas para diferentes faixas etárias e níveis sociais, elas prendem a atenção de muitas mulheres ao redor do mundo. No Brasil, a concorrência entre os veículos desta categoria é muito grande. As Organizações Globo - poderosas também na área do impresso - apresentam três revistas significativas deste segmento.
O carro-chefe das revistas femininas da Editora Globo é a Marie
Claire, que circula mensalmente na média de 280 mil exemplares. Com um texto mais "sofisticado" e adulto, ela mostra um conceito editorial diferenciado de suas concorrentes. Mesmo editando matérias de beleza, moda e comportamento, ela dá espaço para reportagens que não necessariamente estejam ligadas ao universo feminino.
Ao contrário do que muitos pensam, as revistas Claudia e Nova não são as principais concorrentes
de Marie Claire. A primeira, por ser uma revista para mulheres de 20 a 40 anos, é um manual de como as esposas podem agradar melhor seus maridos. A segunda, por ter um público mais jovem, tem como objetivo "ensinar" as moças a arte da conquista.
A leitora da revista Marie Claire é em geral mais velha e mais moderna. O slogan da revista no passado foi: "Não ensina fazer renda e nem ensina a namorar", ou seja, ela quis mostrar que o seu objetivo editorial era diferente dos impressos femininos do Grupo Abril. Recentemente partiu para: "Chique é ser inteligente". Tratou do mesmo tema, só que de uma forma diferente.
Na verdade, o impresso que mais se aproxima ao estilo da Marie Claire é a revista
Elle. As duas foram feitas para mulheres maduras, independentes e que necessitam de algumas horas de entretenimento. Apesar do nível ser um pouco mais elevado, poucas matérias são realmente jornalísticas.
A edição de abril de 2003 apresenta uma matéria muito interessante sobre mulheres que são abusadas em tempos de guerra. Muitas são seqüestradas para serem escravas, e outras traficadas para o sexo. Porém, a reportagem não cita atos de violência contra a mulher por soldados americanos.
[(...) O estupro é praticado como forma de humilhação ou método de "limpeza étnica". No primeiro caso, mulheres chegam a ser violentadas diante do marido e até dos filhos. Nas sociedades em que a etnia é transmitida pelo homem, são, muitas vezes, engravidadas à força. Crimes assim ocorreram na Bósnia, Ruanda, Libéria e Uganda (...).]
Na mesma edição, uma matéria com depoimentos de homens sobre seus sentimentos e fantasias mais íntimas foi um dos destaques. Apesar de apresentar uma linguagem mais adulta,
Marie Claire provou que na essência as revistas femininas são todas iguais.
[(...) Hoje não tenho nenhum problema em mostrar o que sinto, mas antes dava uma de durão. Na adolescência, eu não queria compromisso mesmo. Só testava minha capacidade de sedução. Queria ter várias e poder optar; essa beija bem, essa é mais gostosinha, essa gosta mais de mim. Às vezes, uma gostava mais de mim do que as outras, eu me sentia mais seguro e optava por ela (...).]
E, pra variar, sexo!
Criativa
é mais uma revista feminina da Editora Globo. Não é difícil caracterizar o seu gênero "jornalístico", pois ela é uma mistura de revista
Capricho, Claudia e Nova. Capricho, pela linguagem adolescente,
Claudia pelas dicas de culinária e beleza e Nova pelas inúmeras matérias sobre sexo e conquista.
Sua linguagem é mais simples, por isso o seu público-alvo se compõe de mulheres menos escolarizadas. Suas matérias são superficiais e extremamente repetitivas.
À seguir, excertos retirados da edição de março deste ano:
[(...) Aconteceu na primeira noite deste ano (2003), numa ilha. Chamei meu noivo para irmos ao quarto. Pedi a ele que fechasse os olhos, pois ia fazer uma surpresa. Coloquei uma roupa de enfermeira, subi na cama e pedi que ele abrisse os olhos. Quando me olhou, ficou louco de desejo. Meu corpo estremeceu. Nos amamos como se nunca tivéssemos feito antes. Essa foi, sem dúvida, a situação mais excitante que já vivi. Vamos nos casar em maio (...).]
["Eu, meu marido e alguns familiares fomos para o Pantanal. Éramos 15 pessoas entre homens e mulheres (dormíamos em quartos separados). No sétimo dia de passeio, meu marido me convidou para ver um ninho de araras no mato. Na verdade, era só um pretexto para ficarmos sozinhos. Foi muito excitante andar por aquelas trilhas com mosquitos e formigas nos atacando. Acabamos fazendo amor em pé, encostados numa figueira com vários macacos nos olhando. Foi muito excitante, valeu a pena!".]
Sexualidade é mesmo o forte de
Criativa. A revista até tenta disfarçar com outros assuntos, porém acaba voltando a mesmice. Mesmo numa uma época em que as mulheres estão ativas no meio intelectual, ainda existem muitas que se movem por esse tipo de leitura, tanto que a revista tem, em média, 160 mil exemplares por mês.
Decoração
No âmbito de decoração, a Editora Globo também possui seu material.
Casa e Jardim é uma revista de qualidade e bem completa. Todavia, não consegue ultrapassar em nível de vendas a concorrente,
Casa Claudia. É um dos periódicos mais inexpressivos do grupo, apenas 77 mil exemplares por edição.
O Padrão Globo de jornalismo é evidente até mesmo nesta categoria de impresso. Em dezembro de 2002, uma matéria com 20 famosos falando sobre o presente de natal de seus sonhos, mostra o estilo glamouroso da revista.
De todos os setores das Organizações Globo, a editora é a única que não é soberana. Os impressos da empresa não são os favoritos dos leitores. Diferente dos jornais diários, televisão e rádio, que são líderes da preferência do público em geral. Mesmo assim, a rede cumpre seu papel com as leitoras. Por mais que existam matérias de péssima qualidade, há impressos para todos os gostos e níveis sociais.
As mulheres devem ser ecléticas em suas leituras. Usar esses tipos de revistas como cultura de entretenimento não há problema algum. O problema é quando as mesmas se tornam manuais sagrados de sobrevivência para a condução de seus atos.


criação: lisandro staut |
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