editorial | debate | imprensa | mídia
 cultura | perfil | nostalgia | opinião
  cotidiano | leitor | e-mail | expediente
anteriores
| próximas edições
| inicial

Dividindo o "bolo"

Jairo Souza

Embora existam versões distintas quanto ao surgimento do automóvel, pode-se afirmar que a era dos veículos motorizados foi inaugurada em 1771, pelo francês Nicolas Joseph Cugnot, construtor do primeiro veículo de autopropulsão. Mais de dois séculos se passaram e o invento tornou-se mania, principalmente para o público masculino.

Independente de classe social ou faixa etária, possuir um automóvel tornou-se mais que uma necessidade, um fetiche do capitalismo. Aliás, a máquina capitalista tem se mostrado uma exímia criadora de fetiches tecnológicos à sociedade pós-moderna. Só no Brasil, circulam 18 milhões de veículos - é a segunda maior frota de automóveis do planeta, perdendo apenas para os Estados Unidos. 

Filosofias à parte, o fato é que a demanda de automóveis tornou-se "apetitosa" para a mídia. Até o final da década de 1980, o mercado brasileiro estava fechado às marcas estrangeiras. Após a abertura proporcionada pela "Era Collor", a venda de automóveis explodiu, chamando a atenção de alguns veículos de comunicação.

Pouco se explorava este mercado. O "bolo" era quase que propriedade da revista Quatro Rodas, da Editora Abril. Entretanto, mediante o aumento na movimentação de capital no setor, novas revistas e sites começaram a aventurar-se no mundo automotivo. 

Não só novidades surgiram, como alguns veículos já existentes ganharam força. Um exemplo é a revista Auto Esporte, da Editora Globo, que nos últimos anos tem ganhado precioso espaço junto aos "fanáticos" consumidores.

Identidade própria

Criada em 1964, a Auto Esporte caminhava à margem das prioridades da editora global, não representando ameaça à soberania da Quatro Rodas. Contudo, nos últimos anos, houve uma sensível evolução - tanto editorial quanto gráfica -, aumentando a competitividade e conseqüente lucratividade do veículo.

Sob a coordenação de André Jalonetsky, diretor de redação, e Marcus Vinicius Gasques, editor-chefe, a revista global inovou no conteúdo, buscando claramente uma "identidade própria". A dupla criou as editorias "Automercado", destinada a avaliar o "sobe e desce" do mercado automotivo, "Autonews", notícias e bastidores das fábricas de automóveis e "Competição", eventos esportivos do gênero.

A Auto Esporte buscou criar um novo conceito de revista de automóveis. Mas, pelo visto, nem toda a criatividade e esforço foram suficientes para dar singularidade ao veículo: ela ainda é desconhecida quando comparada à Quatro Rodas

Ainda assim, pode-se afirmar que a revista tem uma forma peculiar de publicar o pautado. Ela trata de assuntos burocráticos relativos a automóveis, como licenciamento, IPVA e legislação, temas não muito explorados pela concorrente. A Rede Globo de Televisão deu uma "forcinha" ao veicular o programa Auto Esporte, a versão televisiva da revista - que vai ao ar aos domingos, às 9 horas -, o que tornou a revista mais popular.

Publicidade ou jornalismo?

A despeito das inovações - ou pelo menos tentativas -, não só a Auto Esporte como as demais revistas do segmento, possuem algo em comum: conteúdo estritamente comercial. 

Pode-se argumentar que se trata de uma revista que aborda, como pauta principal, veículos que são produtos de consumo. Entretanto, isto não justifica o fato de cerca de 50% do conteúdo da revista, em quase todas as edições, seja de pura publicidade, privando o público de questões como: "automóveis e meio ambiente", ou "segurança ao volante".

É verdade que a Auto Esporte, devido à exposição televisiva e nova proposta editorial, tem divido parcialmente o "bolo" mercadológico com a Quatro Rodas. Espera-se, no entanto, que a inovação não se limite no que pode fazer dela uma revista mais comercial, mas que as mudanças estendam-se ao "respeito pelo consumidor", que deseja conteúdo, atualização e não mera publicidade.

                                       


criação: lisandro staut