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Escrito nas estrelas

Débora Carvalho

Quando alguém se recusa a responder algo sobre os planos pessoais para o futuro, sempre argumenta que "o futuro pertence a Deus". Porém, quando o assunto remete à curiosidade, o antigo provérbio raramente é lembrado. 

O mercado de previsão do futuro cresce. E não são apenas pessoas "ingênuas" e pouco esclarecidas que recorrem ao horóscopo, numerologia, jogos de cartas, tarô, búzios e similares. Os maiores consumidores pertencem à classe A, de artistas a empresários. A publicidade utiliza nomes de famosos que utilizam os "serviços" destes "profissionais" como garantia de que o trabalho é mesmo "sério".

Opções não faltam. Coluna diária no jornal, ou seção especial do caderno de domingo contendo a previsão para a semana. Existem até algumas revistas especializadas nesse tipo de assunto. Longe de ser uma simples brincadeira, a astrologia parece ser um modismo do movimento New Age ou uma tolice criada por supersticiosos da Antiguidade. Mas não é.

Muitos recorrem a ela religiosamente, têm fé e nutrem a alma, regendo sua vida conforme dita a seção de horóscopo do jornal ou outra fonte. Da cor de roupa ao pé que primeiro deve pôr no chão, muitas pessoas realmente acreditam nas previsões da astrologia. Mas será que todas as informações ali contidas são transmitidas conforme ditam os "astros"?

O jornalista Ruben Dargã Holdorf, ex-editor online de O Estado do Paraná, conta que dentro das redações, "a maioria dos colunistas nem são ligados à astrologia". Segundo ele, o responsável pela coluna faz uma série de textos dando orientações sobre como deve ser o dia, e no decorrer do ano, vai trocando as informações e invertendo a posição dentro de cada signo. Muitas vezes a coisa é feita na gritaria:

  - Ruben, diz aí uma coisa pra eu colocar aqui.

  - Diz pra ele não usar verde amanhã!

Acreditar que movimentos planetários, eclipses ou fases da lua influenciam a vida é algo que atinge até mesmo os jogos de futebol. Numa ocasião, um técnico de futebol de certo time branco e preto, ao saber que seu amigo de infância estava na cidade, fez-lhe uma visita no hotel. Depois de conversarem, o amigo pediu ao técnico uma camisa para seu filho. Ficou surpreso com a resposta: 

  - Você pode passar no clube depois, que eu te dou uma. Estas camisas do jogo não posso dar, pois todas foram benzidas. 

No futebol, a influência dos "astros" é grande. Houve um time cuja cor do uniforme era marrom. Como o time nunca ganhava de ninguém, recorreram à astrologia que diagnosticou a cor. A partir da mudança de cor, a equipe passou a ganhar. Até hoje, o pessoal do futebol acredita piamente que o marrom é a cor do azar, sendo associada ao preconceito ético, à bruxaria e à morte. Nunca mais se viu marrom em uniforme de time. Ora, se a sorte está ligada a esse tipo de informação, então qual a razão de toda a aparelhagem tecnológica de ponta para treinar melhor os jogadores?

Analisando a seção de horóscopo do Diário de S. Paulo, podemos verificar uma certa incoerência quanto às previsões. As idéias são aleatórias e generalizadas, abrangendo um grande número de pessoas que provavelmente são daquele signo. No horóscopo de 9/12/02, o colunista começa dizendo que a Lua Nova aumenta a energia vital, "estimulando a aspirações e motivações voltadas para construir um futuro renovado". Nas previsões para cada signo, todas são alusivas à aceitação do "novo" libertador e abandono do "velho" que não serve mais.

Qualquer pessoa com o mínimo de percepção pode notar que tais palavras sequer podem ser consideradas personalizadas, que dizer de previsões. É óbvio que todas as pessoas anseiam mudar alguma coisa. Quem não tem antigas mágoas familiares? Quem não deseja abandonar o que atrapalha a vida? E quanto a morrer para aspectos indesejados da personalidade ou deixar florescer novos amores com alegria renovada, abandonando as feridas de amores passados? Tudo isso é muito óbvio. Qual o crédito então?

Com tanto charlatanismo fica difícil acreditar em destino programado pelas estrelas. Melhor seguir um roteiro de viagem turística ou de uma nova receita culinária. Talvez, utilizar a razão para desenvolver uma percepção própria da realidade traga muito mais discernimento e segurança sobre qual pé levar primeiro ao chão - o que passará a ser uma questão de conforto, e não de desespero.

A propósito, é tempo de aprender utilizar melhor os potenciais. E isso vale para todos os "signos".

                                        



criação: lisandro staut