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Artistas ao avesso

Allan Novaes


Suzane, o namorado e o cunhado (D/E): artistas ao avesso.Novos episódios que comprovam o domínio midiático exercido pelo fenômeno migratório - o grande número de veículos e profissionais de comunicação que deixam para trás a esfera da opinião pública a fim de explorar a esfera privada - motivaram-me a escrever um adendo ao livro chamado Urna dos Artistas, em artigo de mesmo nome escrito na edição anterior. O apêndice, intitulado Artistas pelo avesso, faria grande sucesso, a exemplo da repercussão causada por acréscimos feitos após a publicação do livro Sobre a televisão, de Pierre Bourdieu.

O fundamento da obra, para quem não lembra, reza que a demanda do grande público para penetrar na intimidade alheia e sua obsessão pelo sensacional são auxiliadas pelos interesses da mídia em focar o pessoal e proporcionar o espetáculo. Essa aliança entre os meios de comunicação e o público move a engrenagem do culto moderno ao espetáculo e é favorecido pela relação emocional criada entre espectador e personagem.

A linha argumentativa do apêndice, entretanto, se diferiria da apresentada na obra, apesar de ter como idéia-chave a espetacularização. No livro, os artistas são ícones sociais e produtos perfeitos da mídia. Eles tornam reais as aspirações da massa, sendo ferramentas indispensáveis para o andamento da tendência sensacional da comunicação.

Por causa da identificação entre o artista e o indivíduo comum, há absorção de conceitos e adesão a modismos. Dessa forma, os político-artistas arrebatariam milhões de votos e acabariam por contaminar a seriedade de campanhas eleitorais futuras. Sob a atuação melindrosa da espetacularização, as eleições pareceriam mais uma disputa pelo Oscar ou pelo Cannes do que com o exercício da cidadania.

No adendo do livro, eu não trataria mais dos políticos-artistas, mas sim dos artistas ao avesso. Aqueles que não despertam a apreciação ou identificação do público. Pelo contrário. São ícones da repulsa, vilões cruéis e bandidos sagazes. Alguns são até caracterizados como monstros e feras bestiais. Se os artistas representam a conquista dos sonhos materiais e sociais, os artistas ao avesso acumulam sobre eles todos os insucessos, problemas e infelicidades da sociedade.

O quarteto Max, Tomás, Antônio e Eron, jovens que atearam fogo no índio Pataxó em Brasília, seriam mencionados na introdução do apêndice, por representarem bem o título do mesmo. Tornaram-se, ao riscar de um palito de fósforo, símbolos da derrocada da educação permissiva e acovardada. Neles a população via o ápice dos frutos da violência transmitidos pela mídia. De jovens rebeldes da classe média brasiliense, os quatro passaram a ser considerados como monstros da classe média nacional - ícones da ojeriza da opinião pública contra a complexidade ineficiente do sistema social. A indignação popular contra a desestruturação da família, contra o uso drogas e o narcotráfico, contra a exibição da violência na mídia e contra o sistema de ensino do Brasil foi toda direcionada e concentrada nos rapazes de Brasília. A mídia, é claro, foi uma das grandes promotoras desse movimento. A prisão dos rapazes parecia a solução para os problemas sociais da cidade e do País.

Na atualidade, o papel de protagonistas do mal é representado por Suzane von Richthofen e Napolitano. A primeira, por participar do assassinato dos pais. O segundo, por matar a avó e a empregada doméstica. Pode-se incluir também Vilma Costa, senhora que raptou Pedrinho de uma maternidade no Distrito Federal. Por meio desses, voltam à tona problemas estruturais da sociedade brasileira: as drogas, a educação, a família, a segurança pública, as disparidades entre classes sociais.

Assim como no palco da espetacularização os artistas transmitem idéias e conceitos, os artistas ao avesso detêm o poder de criar na mente do público uma repulsa a toda idéia ou conceito que a ele está agregado. Quando um escândalo explode e um novo artista ao avesso surge, a cortina que cobria os problemas sociais cai, e estas, que antes eram vistosas silhuetas, mostram-se em suas verdadeiras formas: purulentas e deformadas. A imprensa, então, recupera sua noção de dever somente após a exposição das mazelas sociais que, por conseguinte, serão discutidas como nunca se discutiria se não fossem o alarde e a comoção do momento.

Criticaria veementemente veículos que, como dois grandes semanários do País, a saber Istoé e Época, traziam extensa reportagem sobre a intimidade da família Von Richthofen e a brutalidade do matricídio e parricídio. Não falaria dos veículos televisivos por achar que os impressos teriam muito mais oportunidades para priorizar o debate de idéias em detrimento do relato sádico e das imagens sensacionalistas. Deixaria claro aos leitores que os títulos de capa das revistas, respectivamente, "Jovem, rica, bela e cruel" (esse último adjetivo em letras garrafais) e "Matou os pais e foi para o motel", remontam ao renomado periódico cujo slogan - "espreme que sai sangue" - explorava os aspectos grotescos e bizarros da natureza humana e da sociedade.

Como que em uma tentativa de assimilar a revolta da população contra a barbárie, identificando-se com os leitores, os veículos apresentaram reportagens que se assemelhavam a meros manifestos de reprovação contra o crime, sem, no entanto, analisar suas causas e conseqüências sociais - e não-pessoais. Assim, assumiram a mediocridade da massa e limitaram-se, como ela, a defender a moral e os bons costumes, sem aprofundar a discussão em termos conjunturais e sociais. Diria aos leitores que o papel dos veículos seria abordar esse aspecto superando o óbvio e aprofundando o fato de uma forma que o leitor comum não poderia fazer por si só. Obviamente, seria bastante didático ao afirmar que não sou contra o simples noticiar, mas que exijo de um semanário mais do que os jornais diários podem oferecer, afinal de contas, o estímulo à reflexão social deveria ser regra para tais veículos.

Fugindo de uma visão estritamente pessimista da atuação da mídia, parabenizaria àqueles veículos que se propuseram a fugir do lugar comum e do sensacionalismo. Àqueles que escaparam das garras da espetacularização e da exposição do íntimo, algumas páginas do apêndice seriam dedicadas. Istoé, por exemplo, como que se redimindo da edição anterior, ganharia uma página inteira sobre sua percepção ao analisar a tarefa da educação familiar motivada pelo caso Von Richthofen.

No entanto, logo voltando a crua realidade, trataria, nas últimas páginas do adendo, sobre a tendência da mídia ao abordar barbáries sociais. Minha crítica se dirigiria à incapacidade dos veículos de comunicação ao discorrer sobre assuntos desse naipe sem explorar a intimidade dos envolvidos e sem exibir minúcias do horror. Apontaria meus mísseis para a inaptidão da imprensa ao diferenciar o interesse público da curiosidade perversa do público, que implora o escândalo pelo escândalo, custe o que custar.

Diria que, inevitavelmente, a reflexão crítica da imprensa nunca precede o escândalo, mas necessita dele para existir. O leitor concluiria que a imprensa não possui caráter preventivo, mas corretivo. O papel dos artistas ao avesso seria bem definido: sob o prisma da mídia, bode expiatório para a discussão dos problemas do País; e para as lentes da sociedade, ícones de repulsa a quem a sociedade despeja a culpa pelas feridas sociais. 

Após constatar a gravidade das minhas descobertas, o leitor provavelmente assumiria uma posição tão pessimista como a minha e pensaria em nunca mais confiar na imprensa. Embora seja essa minha opinião, não deixaria mais pessoas decepcionadas com uma imprensa que exige a aparição calamitosa de artistas ao avesso para suscitar o debate de idéias, ainda assim sem abandonar a invasão da privacidade e o sensacionalismo.

Enoja-me pensar em ler, ouvir e ver profissionais que acreditam ser a espetacularização um mal necessário. Ainda mais sendo forçado a concordar com eles. Em uma sociedade movida por fortes emoções e satisfação dos sentidos, o escândalo pode ser a única oportunidade para forçar o indivíduo a analisar e refletir sobre o mundo ao redor. E os artistas ao avesso seriam a oportunidade da mídia para fazer seu trabalho mediante a atração maciça que a espetacularização provoca. Mas mesmo deparando-me com essa realidade, não a transmitiria ao leitor. A ele daria um bom bocado de esperança. Poucos compram livros sem finais felizes.

                    



criação: lisandro staut