|
|
|
editorial |
especial | debate |
imprensa
em foco|
links| lambanças
mídia eletrônica |
cultura | perfil |
olho
vivo | canal do leitor
| e-mail |
expediente
anteriores | próximas edições | inicial
“Para onde
caminha a reportagem?”
Rômulo
Gomes
Paráfrase de um texto desconhecido: Anunciar, enunciar, pronunciar e denunciar. Revelar com exatidão superficialidades duvidosas. Gerar reflexões sobre banalidades factuais. Imergir nas profundezas da notícia. Tal enumeração não se trata da descrição de um discurso, uma teoria ou
metanarrativa, porém não remete a menos do que isso. Tratando-se de jornalismo, é impossível deixar de mencionar a reportagem, ícone máximo da imprensa, principalmente quando se fala em revistas. E escrever sobre isso não é um trabalho fácil.
A reportagem busca investigar, interpretar, entre outras funções não menos notórias no jornalismo. Sendo de alto valor jornalístico e, principalmente, social, ela já marcou seu espaço no mercado editorial e é considerada a
"menina-dos-olhos" de qualquer jornalista.
Aliada a diferentes formas de escrita, estrutura e conteúdo, a reportagem reúne aspectos nobres e ecléticos desde sua instituição. Ela surge apoiada por elementos da narrativa literária realista, conforme aponta Maria Alice Carnevalli em sua tese doutoral
intitulada
Indispensável é o leitor: o novo papel das revistas de semanais de informação no Brasil (USP-2003). Para ela, a dinâmica da literatura é inerente à "criação do estilo narrativo empregado na elaboração de matérias jornalísticas".
Por outro lado, após o período do estilo realista na literatura e o surgimento do
new journalism nos Estados Unidos, por volta dos anos 1940, faz com que o quadro se reconfigure. Desde então, isso criou condições para que sejam percebidos os rumos tomados pela reportagem no Brasil, como o alto número de imagens usadas, bem como os recursos gráficos e
a objetividade editorial marcada pela auto-ajuda e de um
marketing bem-sucedido que ocorre atualmente.
Justificativa da paráfrase
Como todo jornalista não se baseia em fatos infundados, as considerações acima não foram feitas de forma diferente. Elas foram fundamentadas em uma pequena amostra do que o meio acadêmico
possibilita aos profissionais de jornalismo, sem querer comprar briga com os práticos de plantão. Analisando o processo histórico da reportagem, uma proposta de estudo preocupada em descrever a mudança conceitual de reportagem em revistas acaba de ser
lançada no Brasil.
A monografia intitulada O Processo de Transformação do Conceito de Reportagem em Revistas de Interesse
Geral, defendida em novembro deste ano sob a forma de trabalho de conclusão de curso por Fernando Marcondes de Torres, reflete esses conceitos. Estudante de Jornalismo do Centro Universitário Adventista de (Unasp), Torres analisa o assunto desde 2003 e agora tem a sua obra concluída.
Além dos fatos já mencionados, o estudo revela as mudanças ocorridas no modelo conceitual
brasileiro de reportagem desde a década de 1940 até os dias atuais. Para esclarecer o assunto e explicá-lo, foram escolhidas três revistas de relevância nacional num período de 60 anos. As revistas
O Cruzeiro, Realidade e Veja se tornaram os objetos de estudo de Torres desde então.
Entretanto, uma obra como esta, quando mensurada pela sua amplitude teórica e extensa em sua linha histórica, deve estar bem-estruturada para evitar equívocos constrangedores. Para que tais infelicidades não ocorressem, Torres se baseou em planos teóricos relevantes e usou de uma metodologia muito contundente. Os autores em que se fundamentou na monografia são nomes de destaque
como Edvaldo Pereira Lima, José Marques de Melo, Cremilda Medina, Mário Erbolato, Muniz Sodré, Helena Ferrari, Sérgio Vilas Boas, José Salvador Faro, Terezinha Fernandes, Nilson Lage, entre outros.
O método escolhido foi o de analisar as formas de apuração, observação e investigação de campo, fontes de pesquisa, além de outras características dos veículos, a fim de perceber as diferenças que permearam os períodos estudados. Com isso, Torres pôde demonstrar
a mudança do conceito de reportagem durante sua história como era sua proposta.
Orientações necessárias
Alexandre III Magno ou Alexandre, o Grande, o rei da Macedônia que viveu entre 356-323 a.C., teve sua história marcada por várias conquistas e credita-se a ele o domínio territorial de todo o mundo civilizado de sua época. Era tutelado pelo filósofo Aristóteles, que estudou na
academia de Platão. Analogamente a esta situação, toda obra tem contribuições necessárias para sua realização, e com isso um trabalho como o de Torres, este, ensaiando seus primeiros passos no meio acadêmico, precisava de um orientador que lhe fosse idôneo. Alguém que o guiasse em suas pretensões e o aconselhasse. Assim, encontrou o seu preceptor alexandrino.
Neste ínterim, o mestre em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), de São Bernardo do Campo, Vanderlei Dorneles, forneceu os subsídios necessários para a construção deste trabalho. Segundo Dorneles, a temática foi bem-escolhida e seu orientando "teve uma boa leitura bibliográfica", afirma. Podendo, este trabalho feito, servir ainda como extensão para sua carreira em pós-graduação.
Dorneles também ressalta a dificuldade e louvável percepção de seu aluno sobre os estudos de David Berlo, em
O Processo da Comunicação, quando este define a transformação do conceito de reportagem como um processo. A justificativa de Torres em Berlo é a seguinte:
"Quando chamamos algo de processo, queremos dizer também que não tem um começo, um fim, uma seqüência fixa de eventos. (...) Os ingredientes do processo agem uns sobre os outros; cada um influencia todos os
demais."
Segundo seu orientador, Torres foi neutro, enquanto a maioria das pessoas ao tratar do assunto é crítica e dualista. Esta neutralidade e a escolha do tema creditaram grande valor acadêmico e validade para sua obra. Mesmo porque, durante a apresentação da monografia para a banca avaliadora, Torres explicou que "é muito difícil definir (a reportagem) como processo de evolução ou
retrocessos". Por isso ele menciona transformação.
Hipoteticamente, ele atribuiu a transformação deste conceito, causada principalmente
por mudanças nas fontes anônimas pelas especializadas, nas pesquisas de campo para as de gabinete, na escrita pessoal para a impessoal, no uso de imagens factuais para as ilustrativas, entre outros fatores. Podem parecer um pouco
rápidas as ocorrências estudadas, mas elas aconteceram ao longo de muitos anos de publicações, por
isso a mudança paulatina. Ao término do trabalho, ele conseguiu comprovar suas hipóteses.
A análise
Durante o trabalho, Torres percebeu a importância das imagens e da proximidade do repórter
com o fato. Estas inferências foram feitas com relação à revista
O Cruzeiro sobre as fotorreportagens, bem características do estilo das revistas ilustradas.
O Cruzeiro fazia parte do grupo dos Diários Associados e vale ressaltar que Assis
Chateaubriand, dono deste império, foi o primeiro a instituir a reportagem em revistas. Tais inferências são feitas por Torres, acalentadas por seu embasamento teórico.
Tais propostas eram o que o público ansiava. Torres cita Fernando Morais em
Chatô, o Rei do Brasil (2002), quando reafirma a origem das pautas de
O Cruzeiro, como oriundas do "convencional para o fantástico, reportagens que mexiam
com o imaginário popular", paráfrases de Morais por Torres em seu trabalho.
Quando estudou a revista Realidade, da Editora Abril, o autor a classificou num momento de transição entre o que seriam as revistas ilustradas e as
newsmagazines, revistas de informação. Estas análises eram decorrentes da forma como o texto era tratado em
Realidade e sua relação com o público e o momento em que vivia o País. Temas que tratavam da liberdade sexual, movimentos feministas eram constantemente pautados na revistas.
Um pouco diferente da realidade anterior, este processo mediano nas transformações estudadas por Torres puderam
lhe fornecer o viés que pretendia chegar até estudar a revista Veja, também do Grupo Abril,
esta já consolidada como revista de informação. Torres visava chegar ao "processo".
Os problemas
Apesar de destacar a problemática da pesquisa, Torres deixa bem claro que não pretendia chegar a uma conclusão de avanços ou retrocessos nas reportagens brasileiras, não procurava seus "problemas", e sim definir suas transformações ao longo do tempo. Quando destaca a problemática da pesquisa, ao mesmo tempo a faz primorosamente, quanto a justifica mencionando que na bibliografia estudada percebe uma "ausência de análises que tracem este percurso histórico especificamente do ponto de vista da reportagem nas revistas brasileiras de interesse geral", explica.
Este processo de transformação no conceito de reportagens está intimamente ligado às mudanças contextuais em que eram escritas. Torres verifica estas ocorrências ao longo dos mais de 60 anos de periódicos estudados. As mudanças sociais, políticas e culturais que ocorreram neste período foram determinantes para este estudo.
Concluindo o trabalho, ele cita a verificação de suas hipóteses e afirma que realmente houve um processo de transformação no conceito de reportagem desde 1940 até os dias atuais. Torres, a partir daí, faz suas projeções para o que aconteceria com a reportagem no futuro.
Como os nichos jornalísticos são bem peculiares entre si, os jornalistas que fogem do padrão de infográficos,
drops, boxes, imagens e pretendem manter a transmissão da notícia
a mais próxima possível do fato, devem trilhar outros rumos. Ele cita os livros-reportagem, que efervescem hoje em dia nas estantes de livrarias, e outras iniciativas como as revistas hipertextuais,
caso de Época, que dão um vislumbre informativo não-linear da notícia e com isso chegam a vários outros campos.
Torres parece um pouco pesaroso quando questiona uma incógnita surpreendente. Uma dúvida que promove soluções, instiga nostalgia, sugere mudanças. Mas, ao mesmo tempo, cria um lenitivo para a ecleticidade de estilos que surgem no jornalismo. Esta pergunta é: "Para onde caminha a reportagem?" O fato de estar no término deste texto, não reflete necessariamente seu fim. Como todo novo conhecimento gera mudança, isso pode significar um novo começo. A escolha é de quem lê.

|
|