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Chumbo vetado

Dayse Bezerra 

O grande mérito da melhor cobertura política jornalística é destaque primordial para a revista Veja que sempre marcou por meio de sua história como coração editorial a realidade da notícia. Surgiu no período político mais difícil em que, publicar uma notícia, ou até mesmo a criação de um veículo de comunicação independente, era considerado um ato de ousadia e confronto para com o governo. 

Em setembro de 1968, o diretor-geral da Abril, Victor Civita, decidiu consumar o seu projeto editorial com a Veja, bastante ciente que estaria correndo riscos de sofrer censuras e pressões políticas. Além de inimigos políticos, a revista tinha que se preocupar com a concorrente Manchete. Sob a direção do jornalista Mino Carta, o veículo conseguiu, por muitas vezes, driblar a censura.

Conhecido como "anos de chumbo", o regime ditatorial foi pauta para reportagens de capa, entrevistas e matérias investigativas. Mas a liberdade durou pouco. Logo após três meses do lançamento nas bancas, dispararam o primeiro chumbo de censura contra a revista. 

Mário Sérgio Conti, em Notícias do Planalto, menciona que o motivo foi porque o presidente Costa e Silva editou o AI-5 e fechou o Congresso que havia negado autorização para a abertura do primeiro processo contra o deputado Márcio Moreira Alves, acusado de ter feito um discurso ofensivo às Forças Armadas. Sabendo que a Veja não ficaria de fora dessa notícia, um coronel, como representante do governo, se apresentou a Roberto Civita no mesmo dia para censurar a Veja.

Enfrentando a censura

Roberto Civita, mesmo sabendo da censura, autorizou a reportagem de capa com a foto em preto e branco de Costa e Silva sozinho no Congresso. Horas depois de ser distribuída nas bancas, a revista foi apreendida. 

Veja ganhou relevância política com a cobertura da doença do presidente Costa e Silva, do governo da Junta Militar e das torturas. Mesmo com toda sua qualidade nas apurações das notícias, o veículo só começou a dar lucro em 1974 com as vendas por assinaturas. 

Mino Carta contribuiu para esse aumento no período em que foi diretor de redação melhorando as diagramações e com reportagens prolixas no semanário. Ele implantou duas páginas de humor por Millôr Fernandes, resenhas de livros e filmes, a abertura com entrevista, nas páginas amarelas - que se tornaram marca registrada da revista.

Além das censuras, a Veja foi pressionada pela ditadura. Deveria ter um segundo "revisor". Neste período muitas reportagens, fotos e desenhos eram enviados à Polícia Federal para autorizar as publicações. Mesmo acompanhado das censuras os editores não desistiam de publicar a respeito dos assuntos "proibidos" pelo regime. 

Mesmo com a censura prévia suspensa, em 1974, Mino Carta recebia constantemente telefonemas proibindo algumas notícias. Neste período, a Veja procurou respirar mais aliviada. Porém, Mino Carta não resistiu a tentação de comemorar o décimo aniversário do golpe publicando uma edição sobre o assunto. Mais um chumbo. O retorno da censura. 

Fim dos anos de chumbo

Os "anos de chumbo" tiveram fim em 1975. Enfim, a liberdade de expressão é estabelecida no jornalismo de Veja. E para aliviar a tensão de seus leitores, em meio a tantos assuntos negativos sobre torturas e perseguições políticas, Roberto Civita buscou reportagens mostrando e elogiando o desenvolvimento do Brasil após sua "conquista democrática". 

No ano seguinte, a redação levou um choque com a demissão de Mino Carta da revista. Uma mudança da cúpula interna da Veja, que teve sob o comando a partir daí pelo diretor de redação José Roberto Guzzo e o diretor-adjunto Sérgio Pompeu. Com relação à liberdade editorial, Roberto Civita e seu novo time tinham receios de publicar assuntos relacionados ao governo, que ainda vivia sob ditadura e disputas entre militares da linha dura e liberais. 

Mesmo assim, o editor-assistente Fernando Morais aproveitou a oportunidade de entrevistar com exclusividade o ditador cubano Fidel Castro. Foi matéria de capa muito comentada e, para alegria dos editores e repórteres, sem interferências do governo.

Em 1979, um casal de jornalistas fez parte das mudanças da revista: Elio Gaspari e Dorrit Harazim. Mudanças radicais com o objetivo de acabar com as castas internas. Resultado: 90% da redação foi mandada embora. 

Uma nova era

Já dentro da era democrática do País, Elio Gaspari acompanhou as primeiras aparições de Collor de Mello na revista quando publicou a declaração de que "Alagoas está com os bolsos vazios", com o presidenciável na capa puxando os bolsos da calça para encenar a falta de recursos. Collor foi notícia durante um bom tempo nas páginas de Veja

Mesmo com tantas corrupções na política brasileira, o cenário político é bem diferente do que há vinte anos. Motivo para a Veja e seus leitores comemorarem. Para quem sempre optou por fazer coberturas políticas, esta é, quem sabe, uma ótima sugestão de pauta para a Veja. Agora, sem chumbo.