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"Tal pai, tal Folha"

Tiago Cabreira 

Sob o simples formato de um jornal vespertino da década de 1921, nasceu a Folha da Noite. Motivados por Olival Costa e Pedro Cunha, o grupo de fundadores começou a produzir o primeiro exemplar que iria às bancas em 19 de fevereiro. O jornal tinha o público-alvo voltado para os assalariados urbanos, que retornavam para casa após um árduo dia de trabalho dispostos a terem acesso às últimas notícias. A partir daí, um longo período recheado de obstáculos acompanhou grande ascensão do que viria a ser a Folha de S. Paulo.

A Folha se distinguia dos outros jornais pela sua linguagem mais simples e seu estilo mais leve. A missão primordial do veículo era fiscalizar o governo e lutar pelos ideais comuns como o direito ao voto secreto, o direito às férias, a ampliação da rede escolar, a regulamentação do trabalho, entre outras. "O jornal manteve assumida sua posição desenvolvimentista, favorável à construção da nova capital e ao ingresso do capital estrangeiro, porém sempre contrário ao comunismo e ao populismo", segundo o jornalista Maurício Puls.

No entanto, em 31 de março de 1964, o Brasil mergulhou na pior de todas as fases da sua história, anos em que viveu um regime militar. Este período foi marcado por confrontos entre forças políticas e sociais. Duas décadas de pura imposição de censura prévia aos meios de comunicação.

Ambos os lados - governo e população - utilizavam as mesmas armas de batalha: censura, terrorismo, tortura e guerrilha. Embora o governo pudesse censurar os meios de comunicação, a Folha não permaneceu quieta e cobriu de elogios as páginas opinativas e as passeatas estudantis do Rio de Janeiro; pregou eleições diretas para Presidência e atacou o governo militar.

Em 8 de dezembro de 1968, impulsionada pela presença do jornalista Cláudio Abramo que, em 1963, deixara O Estado de S. Paulo, a Folha atingiu o recorde de tiragem, com 1,67 milhão de exemplares impressos no recém-adquirido equipamento em offset. Abramo teve sua participação vital para a sobrevivência da Folha neste período, inicialmente como assessor do empresário Octávio Frias onde elaborou uma crítica diária do jornal, e logo depois como diretor de redação.

De 1964 a 1984, a Folha recebeu 14 Prêmios Esso de Jornalismo em várias categorias. O jornal se consolidou como o diário brasileiro de maior circulação, isto antes da campanha das Diretas Já.

Nasce a democracia!

Surgiu então em 1985, o grande "ano da glória" em que o descontentamento popular com relação ao regime ditatorial estoura e a campanha em favor das eleições diretas para Presidência atingem o auge e se consolida. Eis que a democracia nascia no Brasil.

Os meios de comunicação celebraram a vitória, mais que merecida. A Folha estendeu o tapete vermelho para o novo regime, porém reconheceu que este não era autêntico, que não passava de um engano mascarado da grande massa. Uma democracia em que o cidadão acredita estar livre, quando está preso por todos os lados. Um regime no qual o jornalismo é submetido a restrições e manipulações, onde a informação não passa de um comércio. 

O Brasil celebra vinte anos de "liberdade", no entanto, ainda luta por um jornalismo de informação descomprometida e franqueza analítica, no qual se descarte o desejo ganancioso do capitalismo, mas que simplesmente se busque pela paixão de retribuir ao leitor/espectador a chave dos tesouros: o conhecimento e a verdade.

Com seus 20 anos em 1980, Jânio Freitas, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha pode afirmar que "assim tem sido meu trabalho: feito de fases com temas e modos preferenciais, cada fase com informações e interpretações que me parecem necessárias ao conhecimento dos leitores, mas, por motivos diversos, não freqüentam a mídia. Por essa natureza do trabalho e pelo tempo que já a fez cansada, posso dizer com toda segurança: tal pai, tal Folha".