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De
Camões à democracia
Fernando Silva
Estava decretado o pior. Logo no início de seu mandato, Getúlio Vargas implantou um regime que acabou com a "liberdade de expressão" da imprensa brasileira por um longo tempo. O jornal
O Estado de S. Paulo, que na época já era considerado uma das maiores fontes de notícias do País, teve que fechar suas portas para a democracia.
A censura foi tamanha que, em 26 de março de 1940, enquanto o diretor do jornal, Júlio de Mesquita Filho, estava exilado em Buenos Aires, o chefe da Polícia Civil do Distrito Federal,
Filinto Müller, ocupou a redação e as oficinas do
Estadão com a alegação de que nelas estavam sendo realizadas "reuniões políticas de natureza subversiva".
A alegação era de que Mesquita Filho e seu irmão Francisco Mesquita estavam em conspiração contra o governo. Sobre a acusação, Júlio de Mesquita Filho escreveu no jornal argentino La Nación: "A absurda acusação de comunismo levantada contra eles não foi evidentemente concebida para uso
interno." Essas denúncias jamais foram provadas na Justiça, nem mesmo foram investigadas. Depois de cinco anos sob jurisdição do
governo, em 6 de dezembro de 1945, final do primeiro período da Era Vargas,
O Estadão voltou às mãos de seus proprietários. Com a linha editorial "livre", Júlio de Mesquita Filho
retornou do exílio para assumir a direção do jornal.
Crente de que o militarismo passaria o poder em no máximo três anos aos civis,
O Estadão apoiou o golpe de 1964. Entretanto, a ditadura tomou um rumo inesperado. Em 1968, o
presidente Artur da Costa e Silva assinou o Ato Institucional n.º 5. O AI-5 dava a Costa e Silva e a seus sucessores, durante os dez anos de sua vigência, poderes absolutos.
"A censura à imprensa tornou-se implacável. Assuntos graves, mas desvinculados da política não podiam ser publicados: um embarque do Paraguai para o Brasil de carne supostamente estragada, uma epidemia de meningite - notícias que poderiam afetar a imagem do Brasil que o governo queria impor e que
O Estadão foi o primeiro a denunciar como falsa", comenta a jornalista Eliane Azevedo.
Como jamais aceitou a autocensura, "O Estado ganhou a presença de um censor em sua redação. Notícias de prisões, torturas, desaparecimentos não podiam ser publicadas". Os buracos deixados pela tesoura dos censores eram, ao invés de outra notícia, substituídos por poemas de obras como
"Os Lusíadas", de Luís de Camões.
Assim era feito, para que a população não percebesse que algo de errado
acontecia. Júlio de Mesquita Neto, o então diretor do
Estadão ironizou e disse que "não era ele o diretor-responsável do jornal, e sim o ministro da Justiça, professor Alfredo Buzaid, que todas as noites mandava um censor na tipografia do jornal".
Conforme o jornalista Clóvis Rossi, "no Estado havia, paradoxalmente, mais liberdade do que após o levantamento da censura prévia. Por um motivo simples: a direção não precisava bloquear nada que eventualmente julgasse inconveniente, porque sabia que a censura o faria. Quando esta deixou de fazê-lo, a direção reassumiu o papel de vigilante da linha ideológica". Para Rossi, os repórteres naquela época eram mais "unidos". "Hoje é, em primeiro lugar, muito mais difícil um consenso nas redações. A crise ideológica empurrou muitos jornalistas para um certo conformismo, um certo aburguesamento ajudado, de resto, pelo crescente profissionalismo da profissão", lamenta.
Arauto do liberalismo
O Estadão foi uma grande influência na luta pela democracia. Há quem diga que o liberalismo traz conseqüências ruins. Não seria e não foi esse o futuro do jornal. Na época ditatorial, o veículo foi um "arauto do liberalismo". Sempre ficou na oposição defendendo a doutrina liberal e denunciando o abuso estatal. Depois dessa "cruel" parte da história cresceu ainda mais mantendo a linha editorial, seus fundamentos, ideais e, por conseqüência, seus fiéis leitores.
Tanto é que, na época Collor, parecia que a história se repetiria. O País mal tinha se recuperado do golpe militar e já surgia outro escândalo na política brasileira. De início,
O Estadão se posicionou a favor da candidatura de Fernando Collor. Apoiou com todas as forças o presidenciável. Mas, depois de descoberta todas a falcatruas do "caçador de marajás", todo o poder e influência do veículo foram usados para derrubar Collor.
Para muitos jornalistas e leitores, O Estadão, hoje, é conhecido como o veículo de maior prestígio e influência do Brasil. "A cúpula busca sempre reforçar a filosofia da empresa em valorizar seus profissionais, além de atributos conquistados ao longo dessas 13 décadas: credibilidade, prestígio, qualidade editorial, seriedade, independência e profundidade", relata a jornalista Maria Luiza Paiva. "Na infância via
O Estado de S. Paulo nas mãos de meu pai. Assim, o jornal passou para as minhas como um legado. Mudou a forma, mas segue na essência o mesmo jornal que reflete como um espelho este e outros mundos", testemunha a escritora Lígia Fagundes Telles.
"O Estado de S.Paulo é detentor de quadros profissionais motivados para o sucesso dada a sua capacidade de atrair, reconhecer, desenvolver e reter pessoas que 'fazem a diferença' por sua qualificação profissional e grau de adesão aos valores éticos e profissionais reconhecidos e defendidos pela empresa".
"Na passagem do 'bastão', vem junto tudo o que a história ensinou. Não sei fazer diferente",
confessou Júlio de Mesquita Neto (morreu em 1996, aos 73 anos de idade). Parece que tantas agruras trouxeram aprendizados para os diretores do veículo.


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