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A
imprensa a serviço da democracia
Lêda Maria
Um Estado democrático fundamentado na justiça social, na liberdade de expressão e na igualdade de direitos: eis o sonho de toda sociedade. Num País acossado pela ditadura, o cidadão é desrespeitado naquilo que lhe é mais valioso, a consciência. E neste contexto uma coisa não pode ser esquecida, a liberdade de imprensa.
O ex-presidente da República, Itamar Franco, lembra que "é tão vigorosa a idéia de que democracia tem como fundamento a existência de uma imprensa livre e sem peias de qualquer natureza, exceção àquelas impostas pela ética e pelo bem comum, que continua plenamente atual o aforismo de Jefferson de que 'se tivesse de decidir se devíamos ter um governo sem jornais ou jornais sem governo, eu nem por um momento hesitaria em preferir estes últimos'".
Década de 1960, uma série de fatos políticos acumulados durantes anos resultam na ditadura. Os anos dourados são seguidos por uma senda de horror, a época de ouro se converte em tempos de sangue e vergonha. O cenário é arrasador: Congresso fechado, organizações e grêmios estudantis na ilegalidade, universidades devastadas, professores banidos, estudantes torturados, políticos exilados.
A censura era em nome do progresso e os meios de comunicação quando reprimidos eram para segurança da comunidade. Que ironia! A imprensa que deveria servir como elo entre governante e governados é encarada como perigosa, nociva e se não devidamente monitorada, capaz das
mais atrocidades contra o representante do povo, o governo.
Fundado em 1891, o Jornal do Brasil resistiu e ultrapassou diferentes sistemas de governo, a política café-com-leite, a Era Vargas, o regime militar, o
impeachment de Collor, o Plano Real e o primeiro mandato de Lula. O segredo para permanecer tanto tempo a serviço da sociedade é a independência editorial que, segundo
Mário Sérgio Conti "significa independência política. O jornal faz questão de veicular as idéias de todas as correntes de opinião que existem na sociedade brasileira. A livre circulação de pontos de vista e o incremento do debate político contribuem para o melhor entendimento dos problemas nacionais e, em conseqüência, para o posicionamento esclarecido dos leitores".
A ditadura foi o período de mais dificuldades. "Sofremos devassas fiscais e cercos publicitários cujos reflexos sentimos até hoje", diz José Antônio do Nascimento Brito, presidente do
Conselho Editorial do
JB. No entanto, com intrepidez e ousadia, o jornal persistiu na sua missão fazendo matérias e artigos de crítica ao regime e inteirando os leitores sobre a real situação do País. "Lembro no tempo do regime militar, o
JB era leitura obrigatória para todos nós que estávamos no exílio. O
JB era o que melhor nos informava sobre o cenário brasileiro", confirma José Aníbal, presidente do PSDB.
Alberto Dines, editor-chefe do veículo por ocasião da instituição do AI-5, conseguiu driblar a censura e noticiar os fatos. A morte do presidente chileno Salvador Allende e o golpe que resultou na ditadura de Augusto Pinochet é um exemplo dentre muitos. Avisado pela censura que não poderia usar manchetes, fotos ou qualquer tipo de destaque no tema, Dines usou sua criatividade e a primeira página do
JB de 12 de setembro de 1973 foi toda tomada pela matéria. A matéria teve uma repercussão acima do esperado.
Em 1977, Elio Gaspari, redator do Informe JB, descobriu um documento redigido pelo general Hugo de Andrade Abreu
objetivando fechar o jornal sob a alegação de que a ação deste era "contestadora e subversiva", e isso exigia uma medida repressiva do Estado. Intitulado "Medidas contra o
Jornal do Brasil", o documento argumentava que o diário investia "impunemente contra todos os atos do governo, visando dificultar-lhe a ação. Já foram tentadas, sem êxito, medidas de caráter suasório. Todas elas esbarraram na absoluta falta de escrúpulos do vice-presidente executivo do
JB, senhor Nascimento Brito". E entre as medidas a serem tomadas estava a suspensão do crédito
oficial e da publicidade oficial e pressões contra anunciantes do
JB. A publicidade do governo foi suspensa oficialmente e só voltou e ser veiculada depois de quarenta dias de monitoramento da redação.
Elemento-chave
Editorialmente respeitado e influente, o JB entende que liberdade é o elemento-chave do jornalismo ético e de sucesso, por isso defende acima de tudo a independência editorial. Conti explica como isso funcionava dentro do jornal: "Independência editorial significa que os repórteres dispõem de liberdade para apurar todas as notícias que considerem relevantes. Os editores têm independência para estampá-las na sua inteireza. Os articulistas são livres para analisar a luta política, a cena econômica e o panorama cultural. Há espaço para a crítica e a denúncia. A redação tem liberdade para publicar o que acredita ser a verdade sem ceder a qualquer interferência - a não ser as ditadas pela responsabilidade, pela boa-fé, pela decência e pelo rigor
profissional."
Cento e quatorze anos se passaram desde que um grupo de monarquistas fundou o jornal. É verdade que muitas mudanças ocorreram
no século passado de novas descobertas, pois o veículo, com uma visão ampla, sabe o quanto é importante acompanhar o crescente avanço da tecnologia para melhor satisfazer seus leitores. Mas um aspecto permanece intacto na estrutura e filosofia do jornal: sua política editorial. Defender a democracia, os direitos humanos e a liberdade de expressão são a prioridade do veículo.
Durante o "fenômeno" Collor surgiram comentários apontando o veículo, mais propriamente Etevaldo Dias, diretor da
Sucursal de Brasília na época, como conivente com a farsa Collor. O ponto culminante se deu quando Dias, com a autorização de Nascimento Brito, publicou duas reportagens confirmando a versão presidencial da Operação Uruguai.
Dácio Malta, que dirigia a redação e estava em Londres quando as matérias foram veiculadas, não gostou nada da história e disse para Dias que ele não deveria ter feito aquilo. O patrão que autorizou a veiculação não recebeu bronca, afinal Malta ainda estava no seu juízo normal e não queria assinar sua demissão. Quando fraquejou o general, o comandante estava ali pronto
para defender a filosofia e a reputação do centenário.
A democracia está no seu vigésimo aniversário. E nestes vinte anos, o Jornal do Brasil participou de forma efetiva da vida social e política do Brasil. Defendendo a imprensa pluralista, a liberdade e a diversidade, o periódico se caracterizou como uma empresa que não se deixa levar por dinheiro ou temor. Valeu-se de sua força, prestígio, coragem e influência para lutar pela democracia. Tornou-se um elo entre o Estado e sociedade e até hoje reivindica uma nação mais justa, humana e igualitária. Essa é a imprensa a serviço da democracia.


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