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Porões da democracia

Paulo Henrique Mondego 

Democracia. Para muitos esta palavra significa muito mais do que "governo do povo". Talvez para o fundador da imprensa brasileira, Hipólito José da Costa, significasse liberdade de imprensa. O Correio Brasiliense surgiu quando a família real portuguesa veio para o Brasil fugindo das tropas napoleônicas. O jornalismo impresso brasileiro nasceu em 1808 para divulgar ao povo a necessidade de liberdade e independência da nação e, além disso, a abolição da escravatura.

Devido à ideologia, o Correio foi censurado pelo príncipe regente, D. João, que acabou obrigando Hipólito a se exilar em Londres de onde continuava escrevendo, editando e publicando o jornal. Para que o povo brasileiro tivesse acesso ao veículo, Hipólito o trazia da Europa todos os meses e distribuía no Brasil. Algumas vezes, chegava com até três meses de atraso.

Também chamado de "Armazém Literário", o Correio circulou clandestinamente até 1823, um ano após a independência do Brasil. Ciente de que não tinha mais sentido continuar editando o jornal de um País agora autônomo, em Londres, Hipólito parou com a publicação. O jornalista morreu no mesmo ano decorrente de uma infecção intestinal.

137 anos depois...

O nome Correio Brasiliense caiu no ostracismo até a inauguração da capital federal, Brasília. Para dar mais brilhantismo à inauguração do sonho de Juscelino Kubitschek, o então presidente pediu ao magnata da comunicação brasileira, Assis Chateaubriand, para circular o primeiro jornal da capital no dia da inauguração da cidade. Chatô, como era chamado pelos mais íntimos, aceitou o desafio e resolveu resgatar o nome do jornal. Manteve até o mesmo nome, pois, segundo ele, nada era mais emblemático do que resgatar o nome que levantou bandeiras pela nação e que agora defenderia os interesses da nova capital, além de ressaltar o ideário de Hipólito: "Liberdade e brasilidade".

Desde então, muitas foram as vitórias. O Correio Braziliense sempre assumiu um espírito inovador, colocando-se à frente dos demais jornais. Em 1960, foi o primeiro jornal brasileiro a adotar impressão a frio. Em 1970, o primeiro a incorporar a editoração eletrônica. No ano seguinte, estendeu o processo de informatização para as áreas de administração e finanças. E, em 1990, apresentou projetos de reestruturação gráfica e editorial. Neste mesmo ano, ganhou um novo parque gráfico com máquinas de última geração.

Tudo isso fez do Correio um jornal de respeito e democrático, porém velho. Em 1994, Ricardo Noblat assumiu a redação dando um novo rumo ao veículo. O antigo jornal sofreu várias mudanças, a começar pela redação que foi praticamente renovada. 

No entanto, a maior mudança que o jornal passou foi uma reformulação na linha editorial. Era um jornal de respeito, porém, jamais se opunha aos desmandos do governo de Brasília. O jornal se tornou mais imparcial e menos "chapa-branca". 

Sob o comando de Noblat, passou a ser um jornal em busca da incessante imparcialidade. Houve quem dissesse que, naquela época, o jornal beneficiava uns em detrimento de outros. Porém, esses foram alvos de denúncias que deveriam ser publicadas. Por isso, sentiam-se atingidos e ameaçados. Contudo, como toda mudança tem sua conseqüência, o Correio também sofreu modificações.

O preço da imparcialidade

Na noite de 23 de outubro de 2002, o oficial de justiça Ricardo Yoshida entrou na redação do Correio com ordem judicial "de busca e apreensão, com arrombamento ou entrada compulsória na sede, se houver necessidade, de todos os exemplares do jornal, edição 24.10.2002, desde que publicasse trechos ou a íntegra de conteúdos das fitas de gravação das conversas telefônicas interceptadas por ordem judicial". A ordem foi dada pelo desembargador Jirair Meguerian.

As conversas entre o governador de Brasília e os irmãos Passos revelavam o envolvimento do governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, com grilagem de terras. E de maneira nenhuma esta investigação poderia ser divulgada, pois o segundo turno das eleições seria dali a quatro dias. 

A quarta-feira de 24 de outubro de 2002 ficou marcada na história do Correio. O jornal chegou às bancas com a seguinte manchete: "Correio é censurado a pedido de Roriz". O governador foi quem entrou com a ação na Justiça pedindo a proibição da divulgação das fitas. A Justiça deu parecer a favor de Roriz. E como quase tudo no Brasil, deu em pizza. E Ricardo Noblat, que teve seus filhos agredidos por militantes do partido do governador, viu-se obrigado a sair do Correio acompanhando o presidente do jornal, Paulo Cabral.

Que ironia do destino. A história volta ao seu início. Joaquim Roriz nunca se pareceu tanto com o príncipe regente D. João. Sua atitude de censura alcançou o que pode ser chamada de insanidade democrática. Pois, só o governador - ou diria, imperador - foi capaz de cometer um atentado contra a democracia e a liberdade de imprensa em pleno século XXI. É o "velho" jornalismo chapa-branca rondando os porões da democracia.