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Lataria nova em veículo velho

Lísye Rizziolli

Dezembro, 1968. O presidente Costa e Silva se irrita com as manifestações do povo contra a ditadura militar e outorga o AI-5. Liberdades individuais nunca mais teriam um lugar na sociedade e o começo da época nebulosa para os intelectuais brasileiros tomava lugar.

Em julho de 1969, um jornal de teor crítico e intelectualizado é criado por jovens da Zona Sul carioca. Eles estavam dispostos a ocupar o próprio espaço numa sociedade enclausurada e truculenta. Nascia assim O Pasquim. Um jornal que tratava as questões mais sérias do Brasil e do mundo com pitadas irreverentes e bem-humoradas. Ou mesmo um tipo de esponja que absorvia a criatividade de intelectuais do período cinzento da história brasileira. 

No dicionário, "pasquim" significa jornal vagabundo, panfleto difamador, sátira. Daí, já dava para se ver a loucura desses desafiadores militantes. O elenco do jornal era repleto de figuras notórias como Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Jaguar, Ziraldo, Paulo Francis, Henfil entre muitos outros. Belos tempos.

Uma das finalidades do jornal era o uso do humor inteligente na exposição de visões críticas. Tudo isso nas entrelinhas. Reunir reflexões, posicionar visões críticas, propor soluções, juntar denúncias e, claro, rir da própria desgraça, além de discutir sobre drogas, feminismo, sexo, futebol, divórcio, bossa nova, cinema e muitos outros assuntos de calão desafiador decorrente da época. Uma das frases de efeito foi a de Ivan Lessa dizendo que "os políticos são os únicos seres humanos capazes de passar direto ao processo de repensar sem fazer escala no de pensar".

Pode-se dizer que O Pasquim durou até que muito tempo. Quando o jornal saía, esporadicamente, as pessoas corriam para lê-lo. Mas suas piadas foram parar nas mãos dos militares. E estes, por sua vez, prendiam os corajosos profissionais do País.

Para alguns, essa época foi totalmente polêmica. Para outros foi um elo com a verdade escondida, irreverentemente falando. Mas, entre mortos e feridos, salvaram-se a todos. Decorrente de um problema financeiro, o jornal teve que fechar, contudo durou até o início de 1990. Uma longa e ousada vida de aventuras humorísticas.

A ressurreição

O rei da ironia intelectualizada ressurge em meio a um Brasil reformulado e de uma democracia diferente. Só que agora ele chegou com um título diferente, Pasquim 21. No entanto, seu teor continua com "o pensamento não-conformista, indignado, reflexivo, sério deste País", como comenta Ziraldo, editor-geral do novo semanário.

Algumas coisas mudaram. "O formato não é mais tablóide, é standard. Continuamos querendo um jornal que acolha o universo de intelectuais que se espalham pelas colunas dos jornais empresariais brasileiros. Não há mais jornal ideológico no Brasil", explica o cartunista.

Porém, esse jornal não é para muitos. É para quem quer pensar, e não apenas comprar o pensamento de outros. "Tem como objetivo falar para as pessoas mais cultas deste País, para formadores de opinião. Gente que não quer comprar feito; quer criar, decidir, escolher, repensar, refletir. Em todo o País, em todas as camadas sociais. O público-alvo, portanto, sempre foi o mesmo, não apenas de um gueto, de uma única tribo", diz Ziraldo.

Ao fazer uma analogia às diferentes épocas que o Brasil viveu, pode-se imaginar que hoje a imprensa goza de liberdade para escrever ou se expressar por meio de charges sobre a política do governo. Mas vale dizer também que, atualmente, o Pasquim 21 continua o mesmo. O não-conformista. O Pasquim da ditadura.