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Brasil de hoje, Correio do passado

Dayse Bezerra 

Quem foi Hipólito da Costa? O jornalista patrono da imprensa brasileira. O criador do primeiro jornal oficial do País, o Correio Brasiliense - como também era conhecido, Armazém Literário. Esta é uma informação bem conhecida na história da comunicação brasileira. O que poucos sabem é que este filho de fazendeiro, formado em Direito e Filosofia na Universidade de Coimbra, já demonstrava o interesse pelo jornalismo antes mesmo da liberação da imprensa no Brasil. 

Depois de formado, em 1798, Hipólito deixou Lisboa rumo aos Estados Unidos da América, com a missão de espionar os avanços tecnológicos, políticos, sociais e culturais conhecendo a imprensa livre e os processos eleitorais bem adiantados. Com a veia jornalística para conhecimentos e generalidades, conheceu outra realidade superior, e trouxe da América para o Brasil à vontade de progresso e o amor à liberdade.

A oportunidade de colocar em prática todas as suas ideologias e conhecimento adquirido, por meio de um jornal brasileiro, foi concretizada em 1.º de junho de 1808. Detalhe: em Londres. Mas em Londres, com o nome Correio Brasiliense? Sim, pois Hipólito enviava seu jornal preferencialmente aos leitores do Brasil - que considerava sua verdadeira pátria - para influenciar com idéias liberais e informar o que se passava no mundo. A finalidade específica do jornal era óbvia: a conquista da opinião pública. 

Outro motivo para a publicação pelos ingleses era que o Brasil vivia sobre o domínio autoritário dos portugueses. Mesmo correndo risco de censura, pela ousadia com que criticava as administrações dos portugueses, a publicação londrina, era amparada pelas leis inglesas, pois Hipólito mantinha uma amizade com o amigo do rei, o duque de Sussex, um maçom que conhecera em uma de suas expedições a Londres.

O Brasil abriu portas à imprensa com a presença de dom João, que transferiu o poder português de Lisboa para o Rio de Janeiro. Isto facilitou a chegada do periódico, com a sua circulação por meio de navegações vindas de Londres ao Brasil clandestinamente. Ganhava caráter nacional, com a estreita ligação interna dos problemas vividos pelo Brasil, como escravidão, os monopólios e o tráfico negreiro.

Durante um ano de circulação mensal o embaixador português em Londres, Domingos de Souza Coutinho, hesitou comunicar às autoridades que representava a existência do jornal. Finalmente, no dia 20 de junho de 1809, fez o um ofício secreto:

"Como assunto da mesma delicadíssima natureza me resolvo enfim fazer chegar á presença de Sua Alteza Real, se o mesmo Senhor assim o permitir, um papel que eu nunca desejaria que tivesse saído á luz do dia e que a perto de um ano que estou indeciso se eu devo mandar ou não".


O "papel" mencionado se referia ao Correio escrito praticamente sozinho por Hipólito da Costa, e de fontes amigáveis de correspondentes estrangeiros. O jornal passou por dificuldades, devido à distância de comunicação, transporte e das constantes perseguições do governo português contra o escritos jornalistas. 

O jornal, que mais parecia um livro do tipo doutrinário ao invés de noticioso, era dentro dos padrões de qualidade exigidos por Londres. Despertou leitor internacional, até em Portugal, preocupando o seu governo pelos constantes ataques vindos pelo Correio. Como defesa, em 17 de setembro de 1811, a circulação do fascículo é proibida em Portugal, pelo mesmo Domingos Coutinho. E foi ressuscitada em 1817, com a Revolução Pernambucana e a conspiração de Gomes Freire, em Lisboa.

E para impedir a circulação do terrível "monstro" que parecia assustar a Corte, em 1809 surgiu Reflexões Sobre o Correio Braziliense, redigido por Frei Joaquim de Santo Agostinho Brito Galvão, com seis números vindos da Impressão Régia a custa do governo. Outro combatente às idéias e as posições de Hipólito vieram do desembargador José S. de Almeida e Araújo C. de Lacerda, com quatro cadernos em ataque ao jornal. Mas cada vez, o Correio crescia com mais prestígio. Crescia acompanhado de perseguições no Brasil, em Londres e Portugal. E parecia que Hipólito gostava dessas pressões. 

No Brasil, segundo Mecenas Dourado, o primeiro ato proibindo a circulação do Correio Brasiliense veio da corte do Rio de Janeiro em 27 de março de 1809. "É servido ordenar que Vossa Excelência mande guardar o mesmo aviso e obras não entregando a pessoa alguma, e que o mesmo pratique com todas as cópias e exemplares de semelhantes obras que possam para o futuro não permitindo que se divulgue nos seus Estados uma obra cheia de veneno político e falsidade, e que pode iludir gente superficial e ignorante, além de ser um verdadeiro libelo."

Eles apreenderam o material impresso contendo críticas ao governo:

O motivo para tais censuras e proibições do Correio se devia aos estudos, "economia política", embutidos no doutrinário. Na época, o acesso a essas informações, era proibido em Portugal, que do ponto de vista da classe feudal dominante no reino, deveriam ser mantidas no sigilo. Mesmo com as considerações de "absurdidades sobre a economia e política", foram essenciais não apenas na posição de Hipólito da Costa, mas, no surto capitalista que surgiria e no processo de Independência brasileira.

Ao resenhar alguns livros, Hipólito incluía na seção da "Miscelânea", "reflexões sobre as novidades do mês" expressando de forma consistente seus projetos para o Brasil e suas posições políticas. Para o Correio, tornaram-se partes importantes para a história da imprensa brasileira e nas idéias do País.

Após sofrer altos e baixos com a revolução do Porto em 1820, as perseguições cessaram e o Correio Brasiliense passou a circular no reino e no Brasil livremente. E como último desejo cumprido de Hipólito da Costa, a Independência do Brasil, em 1822. 

O jornal tivera sua missão cumprida, para seu maior orgulho. Conseguiu ao fim de sua jornada alcançar seus objetivos, tais como a abolição da escravatura, o novo sistema político e o rompimento do monopólio por meio da Independência brasileira. Missão cumprida também para o jornalista Hipólito da Costa, que morrera de infecção intestinal pouco tempo depois. 

Mas para quem pensa que o Correio chegara ao fim com a morte de Hipólito, enganou-se. Apenas entrou em fase de "hibernação". Mais preparado para novas censuras, perseguições e mudanças, porém, com a mesma missão: um Brasil melhor, com ordem 
e progresso.