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A imprensa deu a “bênção”

Márcio Tonetti 

Matérias, artigos, reportagens às centenas. A morte de João Paulo II deu à imprensa o que falar. Suas derradeiras palavras, "fui até vocês, hoje são vocês que vêm até mim", se acrescidas de um tom de ironia, foram muito bem-compreendidas pela mídia nacional. Tal mercê encontrou "João de Deus" nas páginas da família Frias. No total, foram cerca de sete cadernos especiais - e a abordagem continua -, sem contar com os editoriais que debateram o assunto. 

Acrescente-se a isto também o remoer da pauta, por dias a fio, pelos colunistas do veículo. Porém, numa cobertura embargada pela emoção, a Folha de S.Paulo pareceu intuir uma contribuição a quem pouco apoiou, salvo raras exceções, no transcorrer de sua história jornalística: a teologia.
 
Na última semana, a conhecida e pretensa racionalidade da Folha se manteve "in pectore". Otavio Frias Filho que, no editorial da edição de 16/10/03, abordava a religião como "algo irracional" e louvava a ciência - segundo ele, instrumento da razão, conforme comenta Ivan Couto Rojas numa das páginas do site do Ministério da Saúde - destacou em primeiro plano a sucessão papal sob o ponto de vista teológico. 

Destituída de sua conhecida campanha em prol do evolucionismo, o periódico paulista viveu um momento de êxtase religioso. O artigo "Religião e Ciência à Moda da Mídia", da última edição do Observatório da Imprensa (05/04/05), argumentou que alguns dos grandes jornais brasileiros, por ocasião da morte de Karol Wojtyla, renderam-se ao "emocionalismo mais estreito", e não ofereceram aos seus leitores condições para uma interpretação sequer crítica e isenta.

Longe de apresentar tais condições, a Folha fez o sinal da cruz e ignorou seus conceitos e princípios. Sobre as particularidades dos possíveis candidatos ao papado, pouco se comentou. Análises quanto ao futuro da civilização oriental, também não foram encontradas. 

Por outro lado, chamou a atenção o fato de o veículo ressaltar, numa matéria publicada na versão online de um caderno especial, sobre os possíveis candidatos ao pontificado, o papel do Espírito Santo nas decisões do conclave: "Como dizem na Capela Sistina, 'é o Espírito Santo quem dá a inspiração decisiva'." (02/04/05) O apartidarismo pregado no Manual de Redação do jornal ficou só na teoria - embora há quem diga que nunca existiu. Na prática, foram sucessivos os gritos de "santo, santo, santo" parafraseados pela Folha e manchetados no caderno especial "A Morte do Papa", no dia 09/04. Ademais, cabe destacar os títulos que comentaram os "milagres" do pontífice: "Papa faz milagre de aproximar rivais" - especulação ao fato de o presidente israelense cumprimentar o ditador sírio durante o cerimonial fúnebre no Vaticano.
 
Publicar um título com a inscrição "Ele voltou para a casa do Pai", mesmo que construído sobre a declaração do arcebispo Leonardo Sandri, remete o leitor a uma situação de proselitismo explícito, o que não justifica o bom jornalismo que um jornal como a Folha de S.Paulo pode oferecer. Que autoridade teria o arcebispo, além da que lhe é concedida pela Igreja Católica, para declarar algo dessa natureza? Diante de uma situação semelhante que envolveu O Estado de S.Paulo, o editor da revista Scientific American, Ulisses Capozzoli, defende em artigo publicado no Observatório que "uma dose dessas de alegoria não sustenta uma manchete, como uma coluna de barro não suporta uma ponte" (10/04/05).

Elogios merecidos

Mas nem tudo foi demérito. Em compensação, a cobertura do periódico de Otavio Frias Filho pode também, de um lado, receber elogios. Embora diário, o periódico apresentou várias páginas que não deixaram de explicitar um conteúdo histórico por excelência - o que não aconteceu com as mais badaladas revistas jornalísticas do País. Estas, passivas de uma cobertura superficial, extravasam fotos de páginas inteiras acompanhadas de meras legendas explicativas. 

Vá lá a Folha teria suas razões para a mudança nos eixos. Seria um culto de ação de graças ao papa pelas desculpas prestadas pela igreja a Galileu e Copérnico? É bem provável que não. A Folha de S.Paulo já demonstrou ao longo dos anos que de concretismo ideológico possui pouco. No entanto, pelo menos deixa transparecer seus interesses econômicos. Sua prioridade é a rentabilidade, como já foi dito na última edição do Canal da Imprensa (07/04/05). 
Desta vez, pode ser que as páginas da Folha agradem os mais de 135 milhões de católicos brasileiros. Na próxima, a "bênção" do leitor pode não vir.