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Uniformidade
violada
Danúbia Guimarães
Acusada muitas vezes de levar tiranos ao poder e fiéis ao matadouro, a imprensa, a partir do final do século XX, passou a fazer o "marketing pessoal" de quem bem entendesse. Ninguém sabe ao certo quais os critérios para cair em suas graças, mas há quem diga que quem conseguir tal proeza poderá se livrar de grandes mazelas
- pelo menos até que a "amiga de duas caras" enjoe de ser boazinha e comece a desempenhar um papel que ela desenvolve com bastante perspicácia: a crítica.
Seus pratos favoritos são casos polêmicos, que de preferência possam render dias a fio de comentários, reportagens especiais e boletins oficiais - ou nem tão oficiais assim
- durante a programação normal. Para ela, ao contrário do que diz o velho ditado popular, política, futebol e religião se discutem, sim senhor! Principalmente, se a política estiver relacionada
aos grandes desvios de verbas; se algum jogador de futebol morrer em campo; ou ainda, se a igreja com maior representatividade do mundo perder seu líder.
Foi o que ocorreu durante as duas últimas semanas.
Com a morte de João Paulo II, a imprensa apresentou um comportamento melodramático de deixar qualquer dramalhão mexicano no chinelo. Ao divulgar detalhes pouco relevantes a respeito dos momentos finais de "Pedro" - como a mídia o intitula -, ela transgride regras básicas de imparcialidade e comprometimento com os fatos.
Compassivos e preocupados
O jornal O Estado de S.Paulo foi um exemplo típico da onda de "compassividade" desnecessária vivida por alguns veículos. Num caderno dedicado exclusivamente ao acontecimento, noticiava com ar tendencioso no dia seguinte: "O
Santo padre morreu às 21:37". Ou ainda pior, usando uma citação do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush,
lamentava: "O mundo perde um campeão da liberdade".
O jornal parecia sentir a mesma dor que os fiéis sentiam. Só faltou se unir aos fiéis - na verdade faltou muito pouco, pouquíssimo - nas manifestações públicas a Wojtyla. Nos dias posteriores, divulgou fotos do lugar onde "João de Deus" seria sepultado, bem como uma explicação detalhada do significado das cores da vestimenta fúnebre. Na
matéria "De sol a sol a tristeza e a dor da perda" (3/4), o
Estadão mostrou, mais uma vez, como não se deve divulgar uma notícia ao exaltar algumas qualidades um tanto óbvias para alguém que viajou por quase todo o mundo. "No Brasil, regozijou os fiéis com sua fluência em português, uma das dez línguas que
dominava."
Rápida cicatrização
Uma semana após a morte de João Paulo II, o jornal parecia recuperado do "triste pesar que o consumia". Seguindo o ditado popular de que "rei morto, rei posto", começa a divulgar e especular os possíveis aspirantes ao papado, noticiando: "Silêncio à espera do novo papa" (10/4).
Como bons brasileiros, apostam todas as suas fichas no cardeal dom Cláudio Hummes. Segundo o veículo, candidato fortíssimo em tom de "já ganhou". Destacavam as diversas qualidades do cardeal como a fluência em três línguas e suas obras missionárias, como se Hummes fosse o único candidato com tais características. Em matéria intitulada "Todos os trunfos do papável D. Cláudio", mostraram claramente seu favoritismo.
Mas o orgulho nacional não parou por aí. Na mesma edição, o jornal apontou a tradição
italiana e outros fatores como possíveis impedimentos para o papado do
preferido: "Entre os obstáculos: italianos, russos e até latinos" (10/4).
Pelo visto, O Estado de S.Paulo precisa revisar urgentemente seu Manual de
Redação, ou rever a maneira que ele vem abordando os fatos. Nele, regras básicas foram "descaradamente" violadas, como o abuso na pessoalidade no tratamento de personagens
envolvidas na notícia, ou ainda, o constante uso de palavras que expressam valor absoluto ou enfático.
Só mais um detalhe. Fazer proselitismo religioso fere o direito de todo cidadão
à livre escolha religiosa. Portanto, é crime. O melhor mesmo é o
Estadão ficar atento para esses "detalhes".


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