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Sem graça, nem cheiro

Caroline Riguengo 

Os veículos noticiosos diários tiveram um considerável desempenho na divulgação entre o período do agravamento até a morte de João Paulo II. Sendo impresso ou online, as redações estavam antenadas aos acontecimentos. O mundo parou para observar quais seriam os passos do clérigo. Os últimos dias de Karol Wojtyla foram tão explorados que despertaram mais atenção do que o atentado de 11 de setembro, nos Estados Unidos. 

O próprio velório de João Paulo foi palco de encontros incomuns. A troca de cumprimentos entre desafetos líderes de nações, que nos últimos dias estiveram bem "juntinhos", como George Bush - que veio na companhia de seu pai e Bill Clinton -, Jacques Chirac, presidente da França, que estava de "relações cortadas" com Bush Filho, devido à invasão do Iraque. Ambos sentaram-se próximos devido à organização do velório, e o grande "acaso" de ordem alfabética que os obrigava a se encararem. Ainda, pelas proximidades de Bush, estavam outras figuras não tão bem-apreciadas por ele como Mohamed Khatami, presidente do Irã, do chamado "eixo do mal", entre outros líderes midiáticos, incluindo o príncipe Charles que adiou o seu casamento com Camila Parker por causa do velório do papa.

Então, vejamos!

Mas enquanto os noticiários buscavam informar a morte do pontífice de maneira mais detalhada possível, a revista Veja deu um leve escorregão. Na edição especial de 13/4, a Veja deixou a desejar. Cadê a história? Parece que a intenção foi fazer um álbum de fotografias com legendas. O começo, e pode-se dizer que grande parte da revista, é exclusivamente composto por fotos e, somente nas últimas páginas, uma brevíssima história sobre o papa e seu legado.

Tanto se falou do papa que, na hora do "vamos ver", não tinha o conteúdo esperado. Não era uma descrição superficial dos fatos que os leitores da Veja esperavam, mas sim uma cobertura mais completa sobre os fatos que envolveram o acontecimento como o que vai ocorrer daqui para frente, os perfis dos candidatos à sucessão, enfim, dados mais relevantes. Isso se torna mais relevante quando se trata da revista com maior número de leitores do País.

De fato, a exibição do sofrimento de João Paulo foi bastante explorada pela revista, mas despertou descontentamento por parte de alguns, tais como Giancarlo Zizola, principal vaticanólogo italiano. Na opinião de Zizola, toda essa mídia representa um artifício político que procura mascarar uma possível e grave crise institucional dentro da igreja. 

João Paulo II deu oportunidade à mídia de retratar a deficiência e padecimento de sua saúde. Ele aceitava de maneira natural o fato de que os fiéis, e outros que são curiosos por natureza, tivessem sua "curiosidade" saciada.

Cobertura inodora

A edição de 6/4, "A grandeza da fé", expôs todo o sofrimento da fase terminal de João Paulo, propondo a interligação da crença do sacrifício cristão com a ótica papal. A Veja enfatizou o sofrimento físico do papa, uma matéria emotiva alarmando "ser a exposição pública de dor jamais vista na história da Igreja Católica". Para Veja, João Paulo II é símbolo de muito respeito, autoridade e apreciação. 

Os primeiro parágrafos da reportagem relatam as dores e padecimento do papa. É evidente que a revista quis que os leitores demonstrassem empatia com o momento de sofrimento do pontífice, usando o poder da imagem para embalar o leitor dentro do universo das emoções. 

Depois de tanto comentar a dor e o sofrimento físico do papa, o assunto começou a girar em torno dos possíveis substitutos de Karol Wojtyla. As regras e parâmetros tradicionais do conclave para a escolha do novo ocupante do cargo mais elevado da Igreja Católica também foram bastante ressaltados no periódico.

Na edição de 13/4, o título monossilábico "Quem?" expõe o questionamento da revista com relação à dúvida sobre o próximo papa, num outro especial de mais de 30 páginas. Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva virou notícia em meio ao turbilhão. A revista mostrou a confusão que o arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eusébio Scheid, causou ao dizer que "Lula não é católico, é caótico". O estardalhaço, dessa vez, foi causado pelo clero. Já com relação ao candidato brasileiro ao papado, a revista não pareceu muito favorável. 

Alberto Diniz soube definir as matérias feitas pela Veja como uma forma "rigorosamente inodora". Sobre a edição especial, ele comenta que "só agravou a impressão de falta de planejamento. O material, mais consistente e evidentemente preparado com muita antecedência, força uma pergunta que não seria lembrada: Por que não publicaram antes?". Eis a indagação!