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O
papa é pop
Andréia Moura
Dizem por aí que "o papa é pop". Ainda assim, com todo o status de celebridade, o papa não ocupou mais que alguns parágrafos na revista
IstoÉ Gente durante essas últimas semanas, em que o mundo voltou os olhos para a sorte do Vaticano. Enquanto toda a mídia brasileira esteve recheada de informações, homenagens, histórias e segredos sobre Karol
Wojtyla, o homem que ocupou o "trono de Pedro" durante 26 anos, a revista não publicou mais que algumas notinhas fazendo menção sobre o grave estado de saúde do
pontífice.
Isso abre um questionamento sobre a verdadeira popularidade da figura religiosa mais conhecida do mundo. Será que o papa era popular o suficiente para ocupar algumas páginas de uma revista dedicada, exclusivamente, ao exercício de falar da vida alheia? E de preferência, uma "vida alheia" famosa? Ao que tudo indica, não. Durante a "semana do calvário" - em que o papa esteve mal - a
IstoÉ Gente nem ao mesmo escreveu com relevância sobre o assunto. Publicou uma notinha intitulada "A dor do papa no domingo de Páscoa", que comentava sobre a dificuldade do pontífice em participar das festividades da Semana Santa na Praça de São Pedro. Pela primeira vez, ele não pode abençoar o povo. Apenas acenou. As cinco linhas da nota foram as únicas lembranças à figura do papa.
Como toda revista "celebridade" os famosos de ontem não vendem, e o interesse real é falar a cada dia do que é "pop". "Águas passadas não movem moinho" e João Paulo II já passou. Não há intenção de explorar um assunto que cause tensão no mundo, porque esse tipo de notícia não traz o
frisson da fama. Inclusive, a reportagem de capa da última edição fala sobre a, agora comprovada, gravidez de Daniella Cicarelli. Com certeza, um assunto muito mais relevante do que a morte da figura religiosa de mais destaque no mundo. Simples questão de prioridade.
No entanto, analisando a parte séria da empresa, deve-se admitir que, mesmo com um leve atraso, a revista a
IstoÉ publicou um material bem detalhado sobre os últimos acontecimentos. Na edição
de 11/4, pode-se encontrar todo o tipo de informação. Desde detalhes sobre o réquiem até discursos invejosos contra Cláudio Hummes, um possível herdeiro brasileiro para o "trono de Pedro".
Cláudio Hummes, um dos cardeais brasileiros que fará parte do conclave, é um dos favoritos para assumir o lugar de João Paulo II. A
IstoÉ contou toda a vida do religioso. Falou sobre sua formação e sobre sua amizade com o presidente Lula. Hummes é, segundo a revista, um forte candidato. Engajado em movimentos de esquerda, e ao mesmo tempo conservador, no que concerne as doutrinas da igreja, ele é componente indissociável da lista de possibilidades. Mas, como a própria revista comenta, no Vaticano há um ditado:
"Quem entra papa em conclave, sai cardeal."
A abordagem da revista pode ser considerada, no mínimo, interessante. Quer passar uma imagem de imparcialidade, mas no fundo está ironizando terrivelmente o momento "histórico". Primeiro falou do enterro dado ao papa. Sob o título "Réquiem Ecumênico" a revista comparou o glamour do funeral com os famosos casamentos da nobreza européia. Chamou o evento de espetáculo, e satirizou dizendo que não foi mais que troca de figurinhas políticas. Segundo a revista, a união de tantos partidos contrários no enterro é um feito milagroso de João Paulo II.
A parte mais interessante, no entanto, se concentrou na entrevista realizada com dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo. A revista já tinha conclamado com fervor as possibilidades de um papa brasileiro, para depois publicar uma entrevista de teor invejoso que enfatiza a falta de nível de Hummes para o papado. O compatriota não dispensou palavras para dizer que dom Cláudio Hummes ficará apenas sonhando com o trono mais famoso do mundo.
Pergunta-se: Isso é papel de mídia séria? É sim. A revista não ficou na veneração tola, e nem partiu para o medíocre discurso destrutivo. Esse assunto é mesmo uma questão de popularidade. O povo queria ouvir sobre o papa e a revista falou dele. Falou sobre o papa, porque não interessa quem seja ele, o papa sempre é pop.


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