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Uma
semana para tudo
Rômulo Gomes
Quem conhece a revista Época deve se lembra do comercial chamado "A semana". Naquele vídeo, podia ser visto como as coisas numa semana tinham um sentido em algum contexto individualmente, mas que para a revista demonstrava todo o conteúdo. Hoje, parece ser um pouco diferente. Enquanto uma semana parece ter vários assuntos para ser discutidos, para a
Época parecia ter um só. De alguma forma, sempre ligado ao mesmo assunto, a morte do papa João Paulo II.
Um assunto inesgotável. É o que parece ser discutidos nas páginas hipertextuais da revista. Foram especiais sobre o papa, inclusive um site com a história do "papa peregrino". O que chama a atenção nas reportagens é o caráter sempre otimista, às vezes quase místico do papa, como foi construído por outras mídias também. A questão é: por quê mostrar somente o viés positivo do papa e ignorar seu poder de direita e conservadorismo.
Fazendo uma busca no site da Época, é possível encontrar 235 reportagens, artigos e afins sobre o papa. Deste material, mais da metade foi feita somente nos dois últimos anos. Quando se fala de oito anos de revista, parece muito material produzido em tão pouco tempo. Essa argumentação pode ser, de fato, questionada, já que o papa para virar reportagem em revistas deve ser um assunto bem quente. O que de fato aconteceu.
O que não foi noticiado diretamente sobre o papa, era feito implicitamente. Entre meados de março até hoje, de uma forma "estranhamente acidental", tudo parecia dizer respeito a situação do papa. A capa de 21/3, que falava sobre como suportar a dor, parecia fazer alusão ao sofrimento do papa. Na edição de 28/3, o assunto era "A força dos santos", quase que um prelúdio do que é discutido hoje sobre o papa, seus possíveis milagres e possibilidade de se tornar santo.
Um culto diferente
Não é preciso muita imaginação para pensar que a revista faz quase um culto impresso do papa. A edição especial, nada mais que normal, dedica muitas páginas somente a esse assunto. Dezesseis páginas, para ser mais exato. Apesar de ser uma reportagem grande, não era de capa que, por sua vez, tinha somente duas páginas falando sobre a China.
Isso não chega a ser um ataque frontal. De repente é uma visão da revista que, apesar de ser muito otimista - nenhuma das edições trata do conservadorismo do papa e suas relações meio difusas com as correntes liberais do clero -, não deixa de ser o um ponto de vista do assunto. Diferente da
Veja, por exemplo, que enfocou a assunto de uma forma bem chocante com fotos tenebrosas e sofridas do papa. Ao contrário, a
Época ressaltou os aspectos nobres do pontífice na capa, cores púrpuras, azul celeste, quase divino. Esse "quase divino" foi o fator determinante para que tornasse a reportagem do fato tão pedante.
O papa, outrora fosse líder religioso e político, já que liderava um estado independente, tinha seus privilégios e prestígios, mas revelá-lo ao público como sendo quase um deus, foi um tanto exagerado. De fato, tratar de assuntos humanizados tem sido a tônica de muitas revistas de interesse geral. Humanizar o tema, falar de forma acessível à massa e dar uma visão particular são o que as revistas têm feito na última década.
Assuntos que tratam da sobrevivência do leitor são os mais discutidos hoje. O fato da morte de um papa ser tão retratado assim não reflete menos do que isso. Mesmo que de forma subjetiva, entretanto, todos querem saber quais as conseqüências da morte do pontífice. Daí, a sobrevivência - a grosso modo - a dúvida é: "O que a mudança de um papa interfere na minha vida"; "quais as influências do papa na ONU"; "o que acontece se os Estados Unidos resolverem atacar mais uma nação?"; "o que alguém tão nobre como João Paulo II não fez e que poderia impedi-lo de ser beatificado". Talvez essas dúvidas justifiquem publicações assim.
O bispo de Roma, vigário de Cristo, sucessor do príncipe dos apóstolos, o papa. Não importa o nome. Embora estes termos não sejam oficiais pelas leis da Igreja Católica, foram cunhados pelo imaginário popular e desenvolvidos por centenas de anos pela igreja. Sem dúvida, o papa é hoje uma das personalidades mais respeitadas no ocidente, e até mesmo no oriente. Líder de aproximadamente um bilhão de fiéis católicos, é uma personalidade digna de ser reportada. Porém, não mostrar algumas qualidades e defeitos que teve, não parece tão jornalístico assim. Valores, o jornalismo parece ter outros. Não deveria ser assim. Mesmo que se trate de um País dito religioso como o Brasil, fazer com que isso se torne ufanismo soa tendenciosidade.
De qualquer forma, para qualquer época, uma semana deveria mudar tudo. Que aconteça assim.


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