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Cobertura à la francesa 

Marisa Ferreira 

No domingo 3/4, praticamente todas as mídias do mundo não publicavam outra coisa a não ser a morte do papa João Paulo II. E o contrário não poderia acontecer na França. Nestes casos, a posição religiosa de uma nação pouco importa. É impossível ignorar o peso da figura de João Paulo II que, apesar de não ter sido o guia religioso de todos os povos, teria vivido esse papel crescendo em influência entre os líderes políticos e religiosos. Este foi um fato não muito comentado durante a sua vida. Mas, inevitavelmente, foi em sua morte.

A morte do papa João Paulo II se tornou manchete em toda a mídia francesa, sendo até digna de edições especiais. Em todos os jornais, revistas, noticiários e edições extras a seqüência de acontecimentos em Roma era relatada com objetividade. No entanto, em contraste com a cobertura de outros países, a mídia francesa foi bem diminuta em homenagens ao líder religioso, e menos ainda aos posicionamentos da Igreja Católica. O desenrolar dos acontecimentos foi o maior destaque dado pelos franceses.

Futuro europeu X papa

Na realidade, o falecimento do papa não veio à França numa boa altura. A cobertura poderia ter sido diferente se o país não se encontrasse submerso na decisão popular mais significativa para o futuro da França e de toda a Europa: o referendo sobre a Constituição Européia. Logo na semana em que o presidente francês, Jacques Chirac, defenderia o tratado da Constituição numa transmissão especial da TF1, a morte do papa requisita a sua atenção e a da mídia. 

O tratado de Constituição para a União Européia, que está em processo de aprovação pelos Estados da União, tem o poder de mudar consideravelmente o cenário europeu. O objetivo da proposta é criar melhores condições de funcionamento da União alargada, que nunca funcionou sob uma Constituição completa. Se não for aprovada, o tratado de Nice continuará a servir como base de trabalho perante a estagnação que o alargamento da União trouxe. Apesar de o "sim" se revelar a opção da maioria dos estados europeus, as atuais sondagens na França é de que o "não" está vencendo. 

Se a França rejeitar a Constituição, a vigoração do documento ficará seriamente comprometida por precisar do apoio unânime dos Estados membros. E não só isso, mas os franceses podem "encorajar" outras nações a fazer o mesmo. A Holanda votará pelo mesmo assunto dois dias depois que a França. Com a possível rejeição dos franceses, o desfecho é imprevisível. Como se já não bastasse, dá-se o falecimento de João Paulo II, que coloca, assim, em stand by todo este processo explicatório e decisivo para a União Européia, aumentando o nervosismo dos franceses e dando uma pausa a Chirac. 

Homenagem francesa

Mesmo com um cenário político que inspira cuidados, Chirac não teve outra opção a não ser viajar para Roma. Levando em conta o princípio francês de respeito à liberdade religiosa individual, e que rejeita qualquer tipo de ação pública proselitista, a mídia se absteu de comentários sobre o evento. Mas quis, acima de tudo, noticiar a reação presidencial, já que o futuro francês está sendo pesado na balança. 

O governo francês evocou o "peso" de um acontecimento igual ao da morte do papa como suficiente para parar todas as ações de campanha, entre elas adiar a transmissão da TF1 - canal de televisão francês - para a quinta-feira seguinte, 14 de abril. Entre a transmissão e o funeral do papa, Chirac nem sequer hesitou, segundo a mídia francesa. Levando em consideração a personalidade do papa João Paulo II, suas relações com a França, a duração e a importância do seu pontificado, Chirac não poderia deixar de comparecer. E, além disso, perante as novas sondagens de que o "não" cresce entre os franceses, Chirac defendeu que ainda há tempo suficiente para campanha.

É relevante mencionar que Chirac, de origem judaica e que prefere a distância entre política e religião, perdeu o favoritismo de vários cristãos quando se declarou contra a escrita de valores cristãos na Constituição Européia. Seria um pouco demais para os cristãos franceses se ele não valorizasse a importância do acontecimento. Um sinal disso seria comparecer ao funeral. E ele foi.

Várias figuras políticas francesas foram aos canais de televisão para prestar suas homenagens e se pronunciar quanto ao acontecimento. A essas pronunciações, o governo francês considerou "normais e respeitáveis". Sem, no entanto, acrescentar que, numa república há "também o respeito dos cultos", característica que a nação busca fortemente manter.

Descontentamento do público

A cobertura da morte do pontífice não foi totalmente agradável aos franceses. Vários canais televisivos receberam inúmeras queixas dos telespectadores pela excessiva exposição do assunto. Segundo Jean-Marie Charon, socióloga da mídia, os franceses reclamaram porque, pela televisão francesa, parece que nada mais aconteceu no mundo durante este período.

O mais interessante foi que na televisão francesa a audiência dos programas de entretenimento foi maior, em detrimento do noticiário e dos programas especiais sobre João Paulo II. O mesmo aconteceu com o canal TF1, que passou um especial sobre a vida do papa. Robert Namias, diretor de informação do canal, defende que é papel da televisão - principalmente em um país laico - mostrar o que tem relevância mundial. O programa especial se justificou porque, na opinião de Namias, existe "uma desproporção entre os aspectos e as dimensões dadas à personalidade do papa e ao lugar que é dado à sua mensagem", talvez porque a Igreja Católica se encante mais "por recurso à personalização, à emoção". 

A cobertura jornalística mundial do evento e o descontentamento da população francesa já é pretexto para debates entre sociólogos e midiáticos pela Europa. 

Um funeral espetacular


Chirac demonstra sua simpatia para com Condoleezza A mídia francesa, que diminuía a cobertura do evento entre 5 e 6 de abril, destacou novamente o assunto durante, e após, o funeral do pontíficie. Para os franceses, o ponto principal foi a grande concentração de chefes de estado e suas ações. O jornal diário Le Figaro tratou do funeral sob a manchete "Uma pomba passa" ("Une colombe passe"), destacando o ato "sem precedentes" do encontro amigável entre os presidentes de Israel, Síria e Irã. O jornal Liberátion foi um pouco além fazendo uma metáfora com o império romano, ao classificar o acontecimento de "Pax Romana". Em toda a mídia francesa, encontraram-se alusões ao ambiente de tréguas políticas vivido na cerimônia fúnebre de João Paulo II. O jornal Le Monde acrescentou à questão o fato de que Chirac não poderia faltar a uma cerimônia onde se "misturariam" George Bush, Tony Blair e Gerhard Schröder.

Toda a comoção humana que gerou a morte de João Paulo II, tanto os milhões de peregrinos como as centenas de chefes de estado, foi, para os franceses, a justificativa de uma cobertura extensa. Desde o jovem polonês que desfralda o símbolo do Vaticano em um trem lotado com destino a Roma, até aos apertos de mão entre inimigos políticos declarados - a mídia francesa noticiou o que julgou relevante.

O Le Monde terminou a cobertura especial do enterro (8/4) com as frases: "Roma, congestionada pelo povo e pela emoção, enterra seu papa. Um papa que concretizou, uma última vez, o reencontro das massas que por um quarto de século tentou unir viajando pelo planeta."

Em tudo o que se falou, e se fala sobre o assunto, os comentários jornalísticos, a cobertura dos acontecimentos, interpretações futuras e opiniões, há um toque de simpatia ou de indiferença. Os países declaradamente religiosos se pronunciaram de acordo com as suas crenças. E os declaradamente seculares, reagiram conforme seus interesses.