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Mudança
de hábito
Giancarlo Sorvillo
No século XVI, quando a Reforma ganhou proporções ameaçadoras para a então dominante Igreja Católica, irrompeu a chamada
Contra-Reforma que procurava perseguir os hereges e queimá-los nas fogueiras da Inquisição. Um grupo de ingleses, a bordo do navio Mayflower,
desembarcou na América, chamada, até então, como o Novo Mundo. Aqui passaram a viver e colonizar, visando que
este lugar se tornasse seu lar definitivo, sem perseguições e liberdade. A liberdade religiosa e a igualdade seriam as bases do novo governo.
Porém, o anticatolicismo prevaleceu durante um período da história
norte-americana e muitas igrejas foram vítimas de vândalos; muitos padres foram mortos e católicos perseguidos e insultados. Pensar que os
norte-americanos seriam solidários e admiradores das autoridades católicas e o catolicismo fosse uma força no país, era o mesmo que dizer que seria possível se jogar de um precipício e sair voando batendo os braços como um pássaro.
Sentimentalismo norte-americano
Pássaros e vôos à parte, a reação da imprensa norte-americana diante da morte do papa João Paulo
II não deixou de ser um tanto curiosa. O célebre e influente jornal The
New York Times trouxe uma extensa matéria, em 7/4, sobre o papa: "Um homem de ação e a nova era do papado". A reportagem falava desde que João Paulo II foi
eleito até sua morte. O interessante foram as palavras utilizadas pelo jornal: "Foi um começo extraordinário. Mas quase desde o
início era evidente para muitos dos católicos romanos do mundo e para multidões de não-católicos, também, que este seria um papado
extraordinário. Um que iria captar muito de humanidade pela força absoluta da personalidade e reformar a
igreja com uma visão heróica de catolicismo combativo e disciplinado."
Mais curioso ainda foi a maneira como o papa é descrito: "Aqui estava um diferente tipo de papa: complexo, estudado em confrontos, teologicamente intransigente, mas com habilidade política, repleto de inteligência e ousadia."
A suprema autoridade católica é tratada pelo principal jornal dos Estados Unidos como uma figura especial, digna de todas as homenagens e como um importante líder religioso não só para os católicos, mas também para os não-católicos. O
NYT continua a matéria destacando principalmente o papel do papa na queda do comunismo: "Mas estes não foram os únicos legados pelos quais a
História irá julgar João Paulo. Junto com o líder soviético Mikhail S. Gorbachev, o papa representou um grande papel no colapso da União Soviética e do comunismo europeu, infundindo os adversários dos governos comunistas na Polônia e outras partes do Leste
europeu de que a causa deles iria sobreviver à repressão dos governantes." O jornal destaca as viagens e a intensa presença física de João Paulo em vários países do mundo,
deixando implícito em suas declarações que o papa era um homem de paz e liberdade.
Racionalidade britânica
O principal jornal da capital norte-americana, The Washington Post, também não ficou atrás. Um dos títulos, dentre tantas matérias sobre o papa,
de 7/4, lamentava que "Igreja perde sua luz". O
The Washington Times, na mesma data, intitulava: "Homenagem elevada ao papa". O veículo enfatiza que
"o papa foi elogiado prodigamente pelo sr.Clinton e o presidente mais velho, Bush, que disse que o pontífice 'está no céu'".
Apesar dos Estados Unidos serem um país de tradição protestante e mantenha valores conservadores, o catolicismo
cresce muito e demonstra certa força, deixando o período anticatólico americano apenas na
História. Os jornais mostraram enfaticamente - e até religiosamente - esta
nova realidade. Uma matéria no New York Times deixa isso bem claro: "Se há uma lição a ser tirada do papado de João Paulo II, ela é o poder da força moral. O papa não comandava tropas, mas disseminava
princípios." Vemos assim a posição clara da imprensa norte-americana.
Diferentes foram os seus colegas ingleses, que, ao que se percebe, mantiveram a tradição anglicana. A
Igreja Anglicana não é reconhecida pela Igreja Católica Romana, já que em 1534 o rei Henrique VIII se declarou supremo líder da igreja da Inglaterra, não reconhecendo o papa como autoridade, formando assim a
Igreja Anglicana, que mantém muitos dos dogmas católicos tradicionais - apesar de hoje permitir o homossexualismo e o aborto.
Os jornais ingleses, ao contrário dos norte-americanos, não falaram quase nada sobre o papa. A revista
Times, 7/4, destacou o testamento de João Paulo II: "Richard Owen, correspondente da
revista em Roma, disse que o documento era uma mistura de espiritualidade com reflexão
pessoal." Diferença interessante. A imprensa inglesa pouco falou, e quando falou a ênfase foi o testamento do papa, além das notícias do que
acontecia em Roma. A BBC de Londres disponibilizou o texto integral do testamento e uma breve biografia de João Paulo II, além das notícias e fotos do funeral e enterro do papa, enfatizando a presença numerosa de líderes de vários países. A imprensa inglesa foi bem factual e mais fria com relação aos jornais
norte-americanos.
Uma das máximas do jornalismo é a imparcialidade diante dos fatos. Mas a forma que a imprensa
norte-americana reagiu diante desse acontecimento sugere uma certa influência que parece cada vez mais
receber força no país. Já os ingleses, apesar de serem mais factuais, mostraram apenas que a tradição anglicana ainda está firme em solo britânico. Ao vermos tudo isso, surge a pergunta: Para onde a imprensa está indo? Os
norte-americanos diriam que ela está indo para uma nova fase de glória e ação, onde a moral e os princípios seriam as bases dessa nova era. Os ingleses, apenas responderiam qual seria o horário da próxima reunião de pauta.

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