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Científico popular

Andréia Moura 

As pessoas têm uma estranha mania de classificar as palavras "científico", "intelectualizado", "acadêmico" e "complicado" como sinônimos indissociáveis. Engraçado como esse conceito se tornou clichê profundo. Quando falamos em ler algo científico, o povo logo faz cara feia e visualiza aquele texto bem denso, chato, cheio de termos técnicos e português erudito que ninguém consegue entender. Isso é puro mito. Mitos como olhar para espelho quebrado dá má sorte, ou que bebês podem nascer com cara de desejo não atendido. Científico também pode combinar com acessível, interessante, simples, engraçado. Científico também pode ser popular. 

Essa é a proposta da revista Mundo Estranho. Transformar o científico em algo que as pessoas possam compreender, gostar, e que ainda assim, as faça crescer culturalmente. Direcionada para o público jovem, acostumado a ler gibis e não textos acadêmicos, a revista revolucionou com um design arrojado e com abordagem relevante de assuntos que interessam e chamam a atenção. Quem imaginaria que o ato rotineiro de cortar uma cebola poderia ser transformado em assunto científico? Ou que o funcionamento de um revólver poderia ser explicado de maneira tão simples e engraçada?

Vinculada à Superinteressante, a revista Mundo Estranho foi criada há quatro anos com a intenção de fazer jornalismo científico para jovens. Os pais compravam a Super e acabavam levando a Mundo Estranho para os filhos. A idéia também era aumentar o alcance do público-alvo, que se resumia a adultos com certo nível de escolaridade, e alcançar um público improvável para a leitura científica. Criar uma nova classe que, mesmo não intelectualizada, gostasse de cultura e buscasse aumentar seus conhecimentos. A proposta arrojada, sem dúvidas alcançou o objetivo proposto.

Realmente interessante

Mundo Estranho é, inquestionavelmente, superinteressante. É bem feita, algo que chama à leitura. Não obriga, simplesmente induz. Faz com que o leitor tenha vontade de conhecer profundamente o assunto que está sendo discorrido. As editorias são inteligentes e chamativas. Didáticas, culturais. Transformam assuntos que, em outro momento qualquer, não despertariam interesse sobre estudos que subjugam o leitor à aprendizagem. 

A revista fala de história, ciência e tecnologia, saúde, artes e cultura. Cada editoria trazendo pautas improváveis, mas que se provam relevantes. Há também espaço para os esportes, meio-ambiente, curiosidades (de qualquer tipo), mundo animal, filmes, jogos, enfim, tudo que o jovem gosta, e de maneira inteligente. 

Na edição de abril, a revista superou expectativas ao publicar uma reportagem intitulada, "Daria pra surfar um tsunami?". A matéria, que falava sobre um tema jovem, o surf, explicou tudo sobre o tsunami: sua forma, potência, velocidade, intervalo, comprimento, as verdadeiras possibilidades de surfar a onda gigante, que material usar, etc. A grande "sacada" da reportagem era fazer com que, quase imperceptivelmente, o leitor aprenda detalhes científicos sobre o fenômeno sem pensar que está estudando ou lendo algo acadêmico.

Na mesma edição, pode-se encontrar matérias sob os títulos "As dez maiores descobertas da medicina"; "Os espiões mais famosos da história"; "O que é o protocolo de Kyoto", entre outras, que transformam tópicos densos em matérias muito interessantes. A revista prova que é possível estudar história, medicina, política, biologia, física e mais, sem que se use do protótipo batido e entediante, próprio de textos científicos.

Os infográficos usados e a maneira como o texto é escrito não remetem em nada uma revista científica. No entanto, Mundo Estranho é científica. E mais ainda, é uma quebra de paradigmas. Paradigmas que pregam que a pesquisa, o estudo aprofundado, o técnico não podem habitar o mesmo espaço que o engraçado, o leve, o acessível, o interessante. Chega de crendice popular. O saber precisa encontrar os seus próprios caminhos, e essa proposta da revista nada mais é que um novo caminho que o conhecimento tem trilhado com sucesso. Científico também pode ser popular.