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Cofrinho
de ouro
Vanessa Candia
O nascimento de Veja foi como uma cesária em tempos que a medicina era precária. Na verdade, ela quase foi abortada.
Veja nasceu em plena ditadura e às vésperas do AI-5. Além de ser um período
conturbado devido a pressão exercida pelos militares, a revista vinha com uma proposta revolucionária. Até o momento, o público estava acostumado com revistas completamente ilustradas como a
Cruzeiro, dos Diários Associados. A intenção era lançar uma revista que "oferecesse reflexão, aprofundamento e síntese a um leitor que já não tinha tempo para digerir toda a informação que recebia".
Veja foi "inspirada" nas norte-americanas Time e Newsweek. Ambas continham, aproximadamente, 70 páginas que, segundo pesquisa feita entre norte-americanos, era a quantidade suficiente que um leitor conseguia ler. O fato é
que esses parâmetros não eram aplicáveis à população brasileira, acostumada com revistas ilustradas e matérias de "como fazer". Mesmo assim, eles foram adiante. Para selecionar o grupo que seria responsável pelo conteúdo da revista, um curso
foi montado, com a duração de três meses. Mil e oitocentas pessoas se apresentaram para as cem vagas que o curso oferecia. Ao final, cinqüenta foram contratados.
Feita a seleção, foram preparadas treze edições experimentais antes do lançamento. Tudo preparado e experimentado, em setembro de 1968
a revista era lançada, com 700 mil exemplares. A capa "O grande duelo do comunismo" mostrava à ela tinha vindo. No entanto, foi um fracasso. Os diretores acreditavam que teriam uma vendagem de cerca de 100 à 150 mil exemplares semanais. As vendas continuavam de mal a pior. Em fevereiro de 1969, a tiragem era de 70 mil exemplares. A revista estava consumindo quase todo o dinheiro
do grupo e se continuasse assim, ou a editora iria a falência ou teriam que fechar a
revista - o que parecia ser mais sensato. Mas acabar com o semanário, definitivamente, era algo fora de cogitação.
A solução
Foi quando tiveram uma idéia, para a época, louca e absurda: continuar investindo numa revista que, segundo Richard Civita, diretor da gráfica, iria "acabar com a
empresa" e levar todos "a bancarrota". Mas Veja, assim como um bebê recém-nascido e indefeso, havia conquistado o coração de Victor Civita, Roberto Civita e, principalmente, de Mino Carta. Então, decidiram vender assinaturas.
Acontece que na época, ninguém fazia isso, pois os jornaleiros retiravam das bancas as revistas que também eram vendidas por assinaturas. Era quase uma máfia. Os donos de bancas eram conhecidos como "capatazes", segundo Mario Sergio Conti, no livro
Notícias do Planalto. Contudo, a maioria dos donos de bancas eram italianos ou filhos de italianos, assim como Roberto Civita. Apelando para o patriotismo, Roberto foi conversar com eles, explicou a situação pela qual a editora passava e propôs um acordo: se a venda de assinaturas não desse resultado, fecharia a revista. Caso contrário, durante dez anos não venderia assinaturas de nenhuma outra revista. O contrato foi fechado e as vendas começaram a crescer. E a partir de 1974, o que antes era motivo de dor de cabeça, começou a gerar lucros.
Passado o problema financeiro, começaria o ideológico. Como foi lançada em plena
ditadura e idealizando conscientizar e fazer com que a população refletisse, foi um dos alvos principais dos militares. Com a implantação no AI-5, inúmeras foram as capas falando sobre o assunto. Inúmeras, também, foram os vetos dos censores instalados nas redações. A edição de 15 de fevereiro de 1968, que contava os "tramites" até a execução do ato, também foi cassada. E muitas foram as matérias vetadas, capas proibidas, edições retiradas das bancas. Mesmo assim, eles continuavam. Mino Carta era o mais feroz que um diretor de redação
podia ser. Não tinha medo de nada, nem de ninguém - ao menos era o que aparentava. O que interessava para ele era fazer com que a população soubesse o que acontecia nos tenebrosos porões.
As famosas páginas amarelas tiveram uma origem um tanto curiosa. Quebrando um mito que envolve as páginas mais lidas e mais cobiçadas da imprensa, tudo foi uma questão de economia. Algumas bobinas de papel amarelo estavam "encalhadas" no estoque, então, para não perder o material, foram usadas nas páginas de entrevistas. Pronto. Dali, em diante, criaram uma das principais marcas do semanário.
Muita gente boa passou pela redação de Veja: Elio Gaspari, Fernando Morais, José Roberto Guzzo, Luis Fernando Veríssimo, Sergio Pompeu, Dorrit Harazim, Ricardo Noblat e muitos outros.
Dorrit foi uma das principais redatoras-chefes que a revista teve. Ela foi responsável por muitas mudanças e inovações do conteúdo. Principalmente, em matérias referentes ao público feminino, pois até
ali "elas eram vistas apenas como consumidoras de produtos e serviços". Ela descobriu como fazer cobertura das Olimpíadas para revistas semanais. Ela também foi responsável pela "humanização" no conteúdo de suas reportagens, transformando, muitas vezes, cidadãos comuns em heróis.
Cobertura total
Cada vez mais Veja estava se tornando um sucesso. As matérias,
entrevistas e furos de reportagens surpreendiam o leitor. Uma dessas edições foi a de 13 de junho de 1977, em que o ditador cubano Fidel Castro, concedeu uma entrevista exclusiva à Fernando Morais. Sem mencionar a cobertura de acontecimentos importantes na história política e social do País, como a morte de Tancredo Neves; a posse de Sarney; a aparição, a vitória e a queda de Collor; a entrevista com Pedro Collor; Plano Real; morte de Ayrton Senna, enfim, bastava
acontecer e os repórteres de Veja estavam lá.
Anos depois, o que antes era a "hemorragia" da editora passou a ser o cofrinho de ouro
da empresa. Veja transformou-se na maior revista semanal do País e na quarta do mundo.
Acompanhando a modernização, a revista criou a versão online. Ali, é possível ler o conteúdo do
impresso e os especiais online como o último sobre o fim da Grande Guerra. Num trabalho minucioso foram feitas edições como se os repórteres realmente tivessem vivido na época.
Outras mudanças aconteceram, tanto no conteúdo, quanto no formato. A princípio, os idealizadores de
Veja não queriam que ela se transformasse numa revista em que as reportagens eram feitas dentro das redações - as "reportagens de gabinetes" muito utilizadas pelas revistas norte-americanas -, mas sim, que os repórteres fossem a campo. Durante um bom tempo isso funcionou. Entretanto, atualmente, quase todas as são feitas "nos gabinetes".
Outras mudanças mostram um certo retrocesso, como a quantidade de imagens contidas nas reportagens que, normalmente, ocupam mais espaço do que texto. Um exemplo disso foi as matérias sobre a morte de João Paulo II. Páginas e páginas de fotos estouradas. Quanto ao conteúdo, muitas mudanças puderam ser percebidas. Hoje, são freqüentes capas sobre comportamentos, misticismo, beleza, etc. Mas, os tempos são
outros e o leitor é outro. Victor Civita dizia - quando a revista ainda
engatinhava - que "a revista está certa. O público está errado". Eles tanto fizeram, que adequaram o público ao perfil da revista.


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