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Da ciência ao pop

Wendel Lima 

Responder as curiosidades. Explicar o mundo e a vida. Provar que o conhecimento é interessante está diretamente relacionado ao cotidiano das pessoas, e que não pode ficar restrito aos acadêmicos. Eis o objetivo que orientou a linha editorial da revista Superinteressante, desde a sua criação em 1987. 

A Super é o resultado do empreendedorismo do Grupo Abril e da competência editorial e gráfica de sua redação. É também um interessante projeto de marketing que, em muitas vezes, tem que se valido da espetacularização do conhecimento - o almanaquismo. Se estatísticas são sinônimo de sucesso, a Super as esbanja: quarta revista mais lida no País; tiragem de mais de 400 mil exemplares por mês; e diversos prêmios internacionais de infografia. 

A gênese da Super está ligada a um projeto internacional do grupo Gruner + Jar (G+J). A revista espanhola Muy Interesante foi a inspiração inicial para a versão brasileira. Periódicos que buscavam popularizar o conhecimento científico estavam em alta na Europa. Mas no Brasil, a Abril já havia se frustrado em 1981, com o lançamento da Ciência Ilustrada, a qual amargou 40 mil exemplares de tiragem e apenas três anos de existência. 

Gestões e paradigmas

Fica mais fácil traçar a história da Super a partir das gestões dos seus diretores de redação. O primeiro manda-chuva foi Almyr Gajardoni (1987-1994). Ele saiu da revista Cláudia em 1987. Gajardoni não queria fazer uma mera cópia da revista espanhola, como faziam as irmãs latino-americanas da Super. Mais que pautar o curioso, ele almejava edições que fugissem da superficialidade e ganhassem o respeito, também, da comunidade acadêmica. 

No início, a linha editorial parecia indefinida, oscilando entre o inusitado e o cientificismo, com predominância para as ciências exatas. Todavia, a Super ia desbravando o seu nicho no público jovem - melhor, adolescente. Era quase uma revista paraditática, servindo como complementação do conteúdo escolar ou mesmo como recurso didático para a sala de aula. Eram comuns reportagens sobre química, física e geografia.

Já a segunda gestão (1994-1998), no comando de Eugênio Bucci, a Super foi tomando a forma atual. Bucci reformulou a linguagem e diagramação do veículo. Aboliu os termos técnicos - só para cientista ler - e colocou um repertório mais coloquial. No campo gráfico, as fontes foram encorpadas e os logotipos das seções padronizados. Bucci também entendia que a revista precisava ser o mais didática possível transformando as imagens em informação. Por isso, a Super começou a utilizar o recurso que hoje a consagra internacionalmente: a infografia. Essa estratégia consolidou a marca junto ao público jovem. As pautas também sofreram alteração, enfatizando as ciências humanas e a cultura geral.

No período de André Singer (1998-2000), a revista manteve a linha até ali estabelecida. A mudança mais significativa foi a ênfase das pautas. Singer era contra a exploração do misticismo e das pseudociências. Tanto que, na sua gestão, o conceito de ciência girava em torno das descobertas acadêmicas e tecnológicas. 

Contudo, foi sob a administração de Adriano Silva (2000-2004) que a revista decolou. Pertencem a gestão de Silva as capas mais vendidas da história do veículo, as premiações mais significativas e a expansão da marca, dando origem a "família" Super. Esse período é marcado pelo predomínio das pautas sobre religião, pseudociências e cultura pop. Temas que provaram sua eficácia mercadológica, mas que levantam suspeitas quanto a cientificidade e imparcialidade com que foram abordados. Destaque para as capas mais vendidas: dezembro de 2002, "A verdadeira história de Jesus", com 220 mil exemplares vendidos, e a de julho do mesmo ano, "A Bíblia passada a limpo", com 162 mil. 

A Super ampliou seu nicho e criou sub-públicos. Outros periódicos surgiram como suplementos e, posteriormente, ganharam fôlego e independência: Mundo Estranho, Revista das Religiões, Aventuras da História, Sapiens, Mundo Animal, Flashback e Vida Simples. Essas seguem, entre outras, pautas desbravadas pela "mãe" editorial: religião, misticismo e pseudociências, além de história, saúde e cultura pop. 

Perspectivas

Neste ano, Adriano Silva assumiu a coordenação do Núcleo Jovem da Editora Abril, que inclui as revistas Super, Capricho, Mundo Estranho, Supersurf e Bizz. Daqui para frente quem vai decidir o futuro gráfico e editorial é Denis Russo Burgierman, o atual diretor de redação. Burgierman mal assumiu e já prevê mudanças. Na opinião dele, uma revista como a Super sempre tem que surpreender, ser de vanguarda. Mas algo Burgierman já previu: a proposta da Super não limitar-se a ciência para explicar o mundo.

A relevância da Super não se justifica apenas pelo seu sucesso editorial, o que já é bem significativo. Sua criação representou um empreendimento inovador no Brasil: apostar que o brasileiro se interessaria por ciência ou algo do gênero. Ademais, apesar das críticas, ela tem popularizado a ciência. E mais que isso, tem lançado e consolidado tendências.