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Capitalismo
ambiental
Giancarlo Sorvillo
Ecossistema: todo sistema que inclui os seres vivos, o ambiente e a relação entre eles para a manutenção da vida.
Preservação: série de ações cujo objetivo é garantir a integridade e a salvação de algo; defesa; salvaguarda; conservação.
Revista Veja e o Meio Ambiente: "Você tem duas vacas. Vende uma e compra um touro. Eles se multiplicam e a economia cresce. Você vende o rebanho e aposenta-se, rico!" Capitalismo norte-americano.
No século 18, a Revolução Industrial deu início a uma nova era: o capitalismo. Agora, as indústrias tinham máquinas a vapor e o trabalho, que antes era feito por muitos homens, reduziu a mão-de-obra, aumentou a produção e, conseqüentemente, os lucros. No entanto, vieram alguns problemas, principalmente para o meio ambiente, como a poluição, o desmatamento e a extinção de muitas espécies de animais. Se antes o homem era egoísta, o capitalismo o tornou mais ainda. Pior. Se a natureza era a casa do ser humano, agora é uma ótima fonte de renda. Animais, florestas, água resumiram-se em uma única palavra: dinheiro.
Exagero? A Veja, uma das revistas mais conceituadas do País, é a principal promotora desses conceitos. Grande parte de suas matérias sobre o meio ambiente está vinculada a lucros, empresas e sociedade. Falando sobre o Protocolo de Kyoto, a revista abordou da seguinte maneira: "Limpeza vale dinheiro - um mecanismo inovador criado pelo tratado de Kyoto promete benefícios econômicos para os países em desenvolvimento" ("O calor que ameaça a vida";
Veja, 23/02/05). Embora explique quais os problemas que o efeito estufa pode acarretar ao mundo, a ênfase foi sobre as indústrias e os resultados na economia dos países que assinaram o tratado.
Ótimo negócio
A extinção é um dos assuntos mais combatidos por ativistas ecológicos que lutam pela preservação das espécies ameaçadas.
Veja abordou esse tema na edição de 27/04, "Os grandes predadores", encontramos as palavras "riqueza" e "elite", até mesmo quando está fazendo uma explicação da cultura de alguns lugares africanos. A matéria diz que "servir carnes de animais selvagens é símbolo de riquezas e status entre as elites da África". O veículo não é exatamente um "espaço ecológico", mas o interessante é que quando o assunto é ecologia, o capitalismo impera,
principalmente em relação a Amazônia.
Mais impressionante ainda é que, quase
imperceptivelmente, o tema é tratado de forma meio tanto estranha. Num trecho na reportagem, o repórter dizia que "o futuro da floresta torna-se um enigma completo quando se analisa que, impulsionado pelo desmatamento sem lei, a região teve crescimento do PIB na casa dos oito por cento ao ano, o melhor desempenho do País" (edição 23/02/05). Lucros à parte, o meio ambiente parece mais uma das dicas de investimento na bolsa de valores e uma ótima chance de se fazer um bom negócio.
A palavra "economia" aparece quase sempre nas matérias ambientais, mesmo naqueles textos menores da revista. Por exemplo, ao falar da extinção dos gorilas da África, numa tentativa de explicar a matança dos bichos para alimentação, a matéria explica que "nesses países miseráveis, cuja economia tradicional foi arruinada por guerras e conflitos tribais, não há criação de gado" (27/04/05). Apesar de não aprovar tal atividade cruel quando se trata da matança de animais ameaçados, a maior parte das vezes ela explica suas reportagens ambientais através de conceitos mercantilistas e econômicos.
Outra matéria sobre a Amazônia dizia que o "maior plantador individual de soja no mundo, o governador de Mato Grosso
[Blairo Maggi] é a síntese do paradoxo vivido pela Amazônia. O avanço da cultura da soja é tão grande que o Estado, sozinho, foi responsável por 48% de toda a devastação registrada entre 2003 e 2004. A produção desse grão ganha, a cada ano, mais peso na economia
brasileira" (8/06). Mais uma vez, pode-se ver economia, números de produção e lucros, dando a entender que a natureza de mãe passou à fonte primária de lucro.
Quando não é economia, a revista aborda ecologia do ponto de vista sociológico. Falando da missionária Dorothy
Stang, assassinada no Pará por combater o desmatamento da Amazônia, Veja destacou que
pessoas como ela "tem feito o sacrifício final em batalhas de motivação política ou humanitária cujo sucesso ajudaria a atenuar o impacto ambiental da colonização da Amazônia" (23/03/05). Ou o foco está no dinheiro ou está em valores humanitários e sociais.
Nunca os dois.
Falando do tsunami, desastre ocorrido em dezembro do ano passado, a atenção foi dada quase exclusivamente às pessoas que morreram. É claro que o foco da notícia deveria ser esse, afinal mais de duzentas mil
pessoas foram vítimas do desastre. No entanto, a revista esqueceu de que o mapa da Ásia terá que ser refeito após essa
tragédia e os impactos ambientais gerados pela tragédia.
Lendo um trecho da reportagem, o leitor pode interpretar que o repórter achava que, na verdade, o tsunami teve lá seus benefícios: "A acomodação subterrânea de placas tectônicas e a descomunal energia que ela gerou terão feito renascer um bem que andava escasso no planeta: a solidariedade" (5/01/05). Sobre os mortos foi dito o seguinte: "A maioria das vítimas vivia em países pobres, onde a tecnologia de previsão de catástrofes não é tão avançada".
A sociedade está tão envolvida com ela mesma e com a sede de ganhar dinheiro, que o meio ambiente não é mais a casa do homem, mas apenas uma forma de lucrar. O clamor do planeta Terra vem aos homens na forma de enchentes, secas, doenças respiratórias, problemas no cultivo dos alimentos e na
morte prematura de pessoas e animais. O problema maior é quando revistas jornalísticas que deveriam fiscalizar as ações públicas e alertar empresas e a população sobre os perigos ambientais que ocorrem, apenas dizem como multiplicar sua criação de gado,
vendê-la e ficar rico.


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