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Em defesa do meio ambiente

Lêda Maria

"O sinistro som de um tiro ecoa no grotão da mata, seguido de um breve silêncio que parece um tributo àquele que se foi. O ritmado entoar do machado de um cretino, nos dá certeza do breve tombamento de mais uma vida. O estridente gemido de uma moto-serra ao longe, arrepia nossa alma por saber que mais uma frondosa árvore se vai. O ranger dos tratores dá-nos calafrios de saber que belíssimos recantos selvagens estão sendo destroçados e vidas ceifar-se-ão aos milhares, em pouco tempo, para dar lugar a ruidosas estradas e fétidas cidades, tudo em prol do 'desenvolvimento'. Da majestosa onça restam apenas a pele na parede e covardes histórias de caçador; do berreiro da araponga, apenas a vaga lembrança; da coreografia dos tangarás dançarinos, a imagem de alegres momentos; da grande figueira, a lembrança da exuberante vegetação mostrando a arte inigualável da mãe natureza". (Antônio Silveira)

Mesmo o mais superficial check-up da situação ambiental da Terra mostra um planeta gravemente doente: metade dos rios poluídos, 15% do solo degradado, 80 países com escassez de água, 12% das aves e 25% dos mamíferos ameaçados de extinção, sem contar que somente a América do Norte lança mais de 1.600 toneladas de gás carbônico na atmosfera todo ano. 

E se o diagnóstico é ruim, o prognóstico é pior ainda: em 30 anos, mais de 70% da superfície da Terra serão afetados pela ação humana, 55% da população mundial viverão em países onde há escassez de água e as emissões de gás carbônico vão dobrar. Esses são dados do relatório "Previsão Ambiental Global 3", do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e sugerem tudo o que a humanidade tem conseguido com sua sede de desenvolvimento. Como disse Klaus Topfer, diretor executivo do Pnuma, "esta é a avaliação mais confiável de onde estivemos, o que alcançamos e para onde estamos indo".

Diante de um planeta em degradação, medidas firmes precisam ser tomadas. A natureza clama por ajuda e a imprensa precisa se erguer em defesa do meio ambiente. Infelizmente, a maioria dos meios de comunicação quando cobrem o tema visam apenas aumentar a audiência enfatizando os acidentes ambientais, aquela já tão conhecida notícia-espetáculo. E as fontes ouvidas não se constituem de pequenos produtores rurais, povos da floresta ou agricultores. A grande imprensa tem dado voz apenas aos representantes dos grandes interesses e às fontes oficiais. É vergonhoso que os problemas ambientais sempre são enxergados a partir dos escritórios refrigerados.

Valorizando o meio

Fazer um jornalismo que valorize e lute pela preservação do mundo natural tem sido o desafio da IstoÉ. A revista reconhece a importância do cuidado e cautela no trato com o meio ambiente. Por isso, semanalmente, o veículo conta à sessão Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, que não prima pelos escândalos envolvendo a ecologia, afinal a revista sabe que apresentar os problemas sem mostrar as alternativas de solução, só gera polêmica. A IstoÉ tem como objetivo prioritário conscientizar a população, pois só assim algo positivo pode de fato ser alcançado.

Exemplo disso é a edição de 9/6/2004. A reportagem de capa intitulada "O verde contra-ataca" mostrou as iniciativas que ajudam a recuperar a Mata Atlântica, uma das cinco regiões naturais mais importantes do planeta, onde vivem 120 milhões de brasileiros e metade das espécies ameaçadas. Da fantástica floresta que deslumbrou os descobridores no século 16, restam apenas 7%. Da extensa mata, que inclui trechos de floresta densa, manguezais, restingas e araucárias, sobraram pequenos trechos que cobrem algumas partes de cadeias montanhosas do sul e sudeste brasileiro, com menores manchas ainda nas regiões de Espírito Santo, Bahia e Alagoas.

De 1990 a 2000, cerca de 900 mil hectares de verde vieram abaixo onde há remanescentes da Mata Atlântica. De Norte a Sul do País, foi devastada uma área equivalente a 61.454 estádios do Maracanã. A devastação ocorre em um ciclo perverso: primeiro chegam os madeireiros, em busca de árvores nobres. Depois os carvoeiros, que ateiam fogo para "limpar" o que restou. Em seguida, o plantio varre os terrenos, em geral com monoculturas regadas a agrotóxicos. E, para fechar, vem a pecuária, que estende um tapete de capim na terra para engordar o gado, que pasta até o solo ficar impermeável e improdutivo. O enredo se repete em vários cantos do Brasil, quase sempre com final previsível - a morte prematura da terra. 

Restauração do meio

Mas é possível reverter esse quadro. Prova disso é o Projeto Aimorés, realizado pelo Instituto da Terra, que tem como objetivo a recuperação da mata e a educação ambiental dos fazendeiros. O projeto está sendo efetivado na Fazenda Bulcão, em Aimorés, uma das cidades mineiras mais ameaçadas de virar deserto, e se tornou modelo por duas razões. Primeiro, por ter sido a primeira Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) criada em área degradada na Mata Atlântica. Segundo, porque seu programa de replantio inspirou mais iniciativas no País. Hoje, metade dos remanescentes da floresta original está em terras particulares. Até agora, o Instituto Terra plantou 600 mil árvores nativas em um terço da propriedade.
 
"Conservar a Mata Atlântica não é questão de ideologia ou romantismo. Ao lado do cerrado, a floresta Atlântica está entre os 25 pontos críticos para a preservação da vida na Terra. Esses paraísos naturais, onde 75% da vegetação original já virou fumaça, ocupam mísero 1,44% do planeta e abrigam três em cada cinco espécies de animais e plantas. As iniciativas pela preservação mobilizam a comunidade científica, e também instituições como o Banco Mundial, a Fundação MacArthur e o Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF)", diz a reportagem.

Outro ponto também muito debatido nas edições do veículo é a proteção à fauna. O desenvolvimento humano sempre se traduziu em impacto à natureza. Para garantir o conforto da modernidade, rasgam trilhas, derrubam árvores e afastam os animais de seu ambiente natural. A violação é tão desenfreada, que além de expulsar a fauna de seu habitat natural, ainda promovem massacres, como a caçada às focas empreendida pelo governo canadense nos próximos dois meses.

Caçando no meio

Essa deve ser a maior temporada de caça às focas em décadas. O governo alega que a população de focas cresceu demais, por isso autorizou a matança de 320 mil animais. Que ironia, os animais são os culpados pela falta de peixes na costa canadense e conter as focas se tornou uma questão de necessidade. Não é a primeira vez que o Canadá comete esse erro. Em 1980, cena parecida teve lugar. E só suspendeu-se a matança das focas por pressão da sociedade mundial, que ficou chocada com as imagens das pancadas desferidas sobre os bichos e as manchas de sangue que tingiam o gelo, um ritual macabro.

Outra preocupação da IstoÉ é combater o contrabando de animais. "Trambiques tropicais" e "Leão-de-chácara", são duas reportagens recentes que abordam o tema. Terceira maior atividade ilegal do mundo, depois do tráfico de armas e de drogas, a venda de animais silvestres movimenta 2 bilhões de dólares por ano no Brasil e chega a extraordinária quantia global de 20 bilhões. Quanto mais ameaçada é a espécie, mais alto seu valor. O exemplar da arara-azul-de-lear, da qual não existem mais de 600 exemplares na natureza, é cotado a US$ 60 mil no mercado ilegal. Credita-se que 60 milhões de animais silvestres saíram da natureza para alimentar esse comércio ilegal.

Outros temas, também envolvendo a preservação dos recursos naturais, têm sido enfatizados pela IstoÉ, como a escassez da água e o Tratado de Kyoto, onde 141 países se comprometeram a reduzir seus índices de poluição para salvar a Terra do superaquecimento.
 
Infelizmente, a humanidade sugou tanto da natureza que na há garantias de que ela dê sustento às futuras gerações. Um número cada dia maior de pessoas depende da floresta, da agricultura, do oceano e dos rios, e como não há preço pelo uso desses sistemas, cada um arranca o que pode. Para melhorar o planeta, cada indivíduo e instituição precisa fazer sua parte e a IstoÉ tem tentado cumprir sua responsabilidade social. É verdade que mais espaço poderia ser dedicado ao meio ambiente e maiores destaques poderiam ser dados aos temas ecológicos, mas de forma geral, o periódico tem desempenhado bem sua função social.

A humanidade conquistou muito em termos de bem-estar e o progresso econômico, só que a um custo alto demais, talvez irreversível. O resultado disso em algumas regiões do planeta: de cada dez animais e plantas, três a cinco deles correm o risco de sumir antes mesmo que se saiba a importância de ambos para a sociedade. 

Valorizando o meio

Aleksei Leonor, o primeiro homem a viajar no espaço em 1965, quando voltou à Terra era outra pessoa. "O que mais me impressionou foi ver que, de longe, a Terra é tão pequena e frágil que não faz sentido tanta guerra, diferença racial e religiosa. Devíamos cuidar e proteger a nossa casa", disse ele. 

Não é preciso ir longe para observar a fragilidade do planeta e sua necessidade de proteção. Daqui mesmo é possível ver os rasgões nas florestas que dão lugar às cidades, a fumaça das chaminés, a poluição dos rios e o rastro de fogo que limpa o terreno para futuras fazendas produtivas. A humanidade precisa tomar consciência e cuidar melhor do seu lar. O meio ambiente agradece.